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O não glamour de ser modelo

As implicações de trabalhar com a própria imagem

JPRESS
07 jan 2020 | Por Renata Souza

No imaginário popular, trabalhar como modelo é sinônimo de glamour, sofisticação e riqueza. O sucesso de grandes nomes da profissão, como as brasileiras Gisele Bündchen e Alessandra Ambrósio, sustentam essa ideia. Mas, para a maior parte das profissionais, a vida no meio da moda está longe de ser um conto de fadas.  

É fácil encontrar crianças, especialmente meninas, que sonham em ser modelo. Ainda pequenas adentram a esse mundo, participando de concursos de belezas e campanhas publicitárias. E, enquanto crescem, descobrem as frustrações da carreira: o nariz não é tão fino quanto preciso, os ângulos do rosto são pouco acentuados, a altura é insuficiente e, o principal, as medidas superam os centímetros exigidos.

As top models são divididas nas categorias fashion e comercial, sendo possível se adequar a apenas um ou ambos os perfis. No primeiro caso estão as modelos de passarela, que desempenham o papel mais popular associado à atividade, ou seja, participam dos desfiles. Para esse grupo é estabelecida uma altura mínima, ainda que possa haver exceções. Além disso, a cintura e o busto das mulheres não devem ultrapassar os 88cm. Essa última exigência também é imposta às modelos comerciais, que trabalham em campanhas publicitárias.

“Medo é uma reação normal a um perigo real, presente e concreto. Já a ansiedade é uma emoção semelhante ao medo, mas voltada para o futuro, com uma ameaça abstrata e criada pelo próprio indivíduo.” O psicólogo clínico e psicoterapeuta, Marco Antonio Tommaso, formado pela Universidade de São Paulo, atua desde os anos 90 em agências de modelos, estudando as relações entre a mente e o corpo. Ele afirma que a ansiedade é uma das grandes responsáveis pelos distúrbios alimentares.

A bulimia é um dos transtornos alimentares mais conhecidos. Segundo dados do Hospital Israelita A. Einstein é uma doença muito comum que apresenta mais de dois milhões de casos, por ano, no Brasil. Caracteriza-se por episódios de consumo excessivo de comida, seguido de tentativas de evitar o ganho de peso, como a indução do vômito, a prática de jejuns, intensa atividade física e uso de laxantes. A magreza não é marcante nos bulímicos, inclusive os pacientes podem até apresentar sobrepeso.

Por outro lado, a principal característica da anorexia nervosa — doença que pode ser fatal — é a magreza extrema, geralmente, associada a um grave quadro de desnutrição. Os anoréxicos evitam ao máximo a ingestão de alimentos e, mesmo quando muito magros, se enxergam obesos. Outro sintoma comum desse transtorno é a interrupção do ciclo menstrual, que segundo Tommaso é frequente nas modelos.

Em 2006, um quadro de anorexia levou à óbito uma jovem modelo promissora. Ana Caroline Reston tinha 21 anos e vivia o auge de sua carreira. Quando foi internada com insuficiência renal, já estava com viagem marcada para realizar um trabalho em Paris, a capital da moda. Na época do ocorrido, a mãe de Ana Caroline declarou que a filha havia começado um tratamento, mas não aceitava que estava doente.

 

As relações da psicologia com o corpo

Maria (nome fictício) se mudou recentemente de Belo Horizonte para São Paulo, na tentativa de realizar o sonho de sua infância: ser modelo. “Eu era uma criança gordinha, então desde os cinco anos de idade já ficava na frente do espelho procurando defeito, achando que jamais entraria para o meio da moda. Desde sempre eu me submeti aos padrões de magreza.” Foi na puberdade que as transformações do seu corpo a permitiram acreditar no seu sonho. Aos 15 anos conseguiu uma agência em Minas Gerais, mas ela conta que não houve muito sucesso e que apenas agora, aos 20, vê sua carreira progredindo. 

A modelo Luiza Medeiros posa para foto [Imagem:Andrea Bendetti]

“Parece que quanto mais perto eu fico do sonho, mais eu me cobro e me sinto despreparada. Nunca me acho magra o bastante, por isso tento fazer jejum intermitente à noite. Desconto minha ansiedade em comida, mas comer excessivamente me deixa mais culpada. Já tive fases de chorar enquanto comia.”

O relato de Maria é o caso prático da teoria explicada por Marco Tommaso. Em uma de suas fichas didáticas, que ele utiliza com os pacientes, há um esquema que define o ciclo vicioso vivido pela modelo. A ingestão de alimento leva à culpa, que leva à ansiedade, que leva à ingestão excessiva de alimento e assim sucessivamente. 

Segundo Tommaso, a ansiedade normal otimiza o desempenho humano, já  a patológica o impede de realizar suas atividades. Nesse último caso, estão os transtornos de ansiedade, como a síndrome do pânico, fobia social, ansiedade generalizada e transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

O psicólogo afirma que muitas vezes os diagnósticos se misturam, mas no caso das modelos o fator em comum é a baixo autoestima. Ou seja, a relação da pessoa com a sua imagem é muito conturbada. 

Para grande parte das pessoas de fora do mundo da moda, pensar em modelos é pensar em uma espécie de auge da beleza. Mas os estudos feitos por Marco Tommaso demonstram que as próprias modelos não se enxergam dessa forma.  Uma pesquisa, realizada por ele, com 140 modelos maiores de 18 anos concluiu que 100% das entrevistadas se sentiam insatisfeitas com seus corpos, sendo que a média de nota que deram para si mesmas nesse quesito foi de 6,3. Além disso, cerca de 76% não estava feliz com seu rosto e o avaliou em uma média de 7,2. 

Antes de dedicar seus estudos às modelos, Marco Antonio Tommaso já estudava as relações da psicologia com os transtornos de imagem corporal. E, ao longo do tempo, percebeu que muitas de suas pacientes eram, ou já haviam sido, modelos. Ele relata que uma delas, em sua primeira consulta, começou dizendo que nunca havia se recuperado de ser modelo. Foi nessa época que ele decidiu ir às agências propondo uma campanha de prevenção aos distúrbios alimentares.

Hoje, Tommaso é conhecido pelo seu programa “Psicoterapia da Boa Forma”, que visa corrigir os comportamentos alimentares inadequados, como a compulsão e os regimes restritivos, por meio das emoções. O acompanhamento busca auxiliar as pacientes à emagrecer preservando a saúde mental. 

Para aplicar seu trabalho às modelos, o psicólogo faz acompanhamento semanal em algumas agências. Durante a entrevista ele me mostrou uma pasta repleta de composites, uma espécie de cartão de visitas que apresenta uma foto com as principais características daquela modelo. A maioria dos que estavam ali eram acompanhados de dedicatórias com agradecimentos à Tommaso.

Apesar disso, ele afirma que ainda há muita falta de informação. “Uma vez uma agência me ligou, porque o São Paulo Fashion Week era naquela tarde e uma das garotas estava com ataque de pânico. Mas não é assim, é todo um processo.” Há também o fato da psicologia ainda ser vista como destinada a “loucos”, por isso o primeiro passo deve ser conversar com as pacientes para explicar qual o papel da terapia nas suas vidas.

 

Inesgotáveis mudanças 

Ser modelo exige uma série de sacrifícios: manter as medidas, aprender a lidar com o não, viver longe da família. Além disso, a maior parte dos demais profissionais tem o início da carreira por volta dos 20 anos e, no caso das modelos, essa idade marca o auge. Ou seja, meninas e meninos muito novos passam por intensas mudanças para realizar seus sonhos.

Muitas vezes, a primeira mudança é a de cidade. Todos os entrevistados que serão apresentados nessa reportagem deixaram seus estados e mudaram para São Paulo pela carreira. Geralmente, esse deslocamento significa separar-se da família e enfrentar os desafios seguintes sozinho.

Também é comum dividir a casa com colegas de trabalho. Se der sorte, desenvolverá boas relações, mas pode acontecer da competitividade — uma característica marcante desse ramo — impedir que se estabeleçam laços verdadeiros.

Além disso, devem lidar com a questão financeira, uma vez que nem todos os aspirantes a top model possuem boas condições. Às vezes a esperança da família é justamente que a tentativa do jovem seja bem sucedida, para que possam mudar de vida.

Outra característica peculiar é que, nessa profissão, o corpo é o objeto de trabalho. Em outras áreas, o aprimoramento intelectual costuma ser o que diferenciará os candidatos, já nesse caso a aparência física é o principal fator de escolha. Tommaso salienta que outros componentes são importantes, como personalidade, dedicação, experiência e idiomas, mas, de modo geral, a imagem é de suma importância. Por isso, os modelos costumam afirmar que o casting — teste em que os modelos serão escolhidos pelos clientes — é o momento mais difícil. “Depois que passa a pressão de se eu vou ser escolhida ou não, fico mais tranquila”, diz Maria. 

O casting também é um momento difícil porque os critérios não costumam ser definidos. O avaliador, que pode ser o cliente, estabelece parâmetros subjetivos para definir se o concorrente se encaixa no perfil desejado. 

Há ainda uma transformação bastante significativa: de uma hora para outra a modelo pode se transformar de “esquisita” para musa. O que acontece é que nem sempre o ideal para um modelo é o que o senso comum considera bonito. Muitas vezes, a menina passou a infância sendo criticada por ser alta e magra demais, até que é descoberta por uma agência que garante que o seu perfil fará sucesso. Pode acontecer de o agenciador estar certo e, de fato, a menina ganhar fama. Mas no seu psicológico ela ainda não terá desenvolvido uma relação estável com sua imagem.

Modelo, fotógrafo e youtuber, Erico Valença é do Rio Grande do Norte e chegou em São Paulo no começo de 2019. Veio para o Sudeste depois de conseguir uma bolsa para a graduação de design, que é o seu foco profissional. 

O modelo Erico Valença em sessão de fotos [Imagem: Bruno Amaral]

“Quero ter uma marca, carregar responsabilidade social e sustentabilidade por meio da moda”, afirma. Quando chegou em São Paulo, começou um estágio para conseguir se sustentar, mas acabou saindo do trabalho em pouco tempo. 

Erico conta que ser modelo não era um sonho antigo, principalmente porque a sua aparência era motivo de bullying quando criança. Foi uma agência no seu estado natal que se interessou pelo seu perfil e fez a proposta. Para ele, lidar com os retornos negativos dos clientes se tornou menos desgastante por já ter sido muito criticado pela sua imagem. “Mas tem dias que me comparo muito com modelos que conseguem mais trabalhos, como se a beleza deles invalidasse a minha.” 

Quanto ao futuro, Erico diz não fazer muitos planos. Ele conta que gosta de ser modelo e quer ver como o mercado paulistano irá recebê-lo. “Meu perfil é muito fashion, só consigo passarela ou para o exterior. Mas percebi que aqui em São Paulo eles não explicam muitos os critérios no feedback.” De qualquer forma, pretende terminar sua faculdade e conseguir trabalho como designer. 

 

Uma breve volta no tempo

A primeira modelo do mundo foi Marie Vernet.  Por volta de 1858, Charles Frederick Worth, seu marido, começava a produzir os vestidos que mais tarde seriam considerados precursores da alta costura — título dado pelo Ministro da Indústria da França para grifes que preenchem uma série de requisitos. Worth, um inglês que vivia em Paris, desenhava alguns modelos que eram expostos por Marie. A ideia era simplificar o trabalho, uma vez que o estilista começou a utilizar “modelos” com as medidas semelhantes às de suas clientes, diminuindo a quantidade de provas.

Charles Frederick e Marie Vernet, a primeira modelo [Imagem: Reprodução]

As modelos dentro das lojas começaram a se popularizar aos poucos, mas foi a estilista Lady Duff-Gordon que transformou os desfiles de moda em verdadeiros eventos: data e hora marcada, convidados, música e ambiente agradável.

No Brasil, a indústria têxtil só passou a se desenvolver nos anos 50. Ao final dessa década, entrou em circulação a primeira revista dedicada a tratar exclusivamente de moda, a Manequim. 

Em 1978, foi criada a lei 6.533 que determina a obrigatoriedade do Documento de Registro Técnico (DRT) para atuar como modelo. É necessário atestar que o requerente está apto ao trabalho para conseguir o certificado. Este pode ser obtido através de cursos de especialização ou de agências registradas junto ao Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões (SATED), o qual gere a classe dos “manequins”. 

Em ritmo lento, foram surgindo grupos que tentavam organizar os eventos do país. A Semana Leslie de Estilo, que futuramente se tornaria o Fashion Rio, ocorre em 1992. Alguns anos mais tarde, em 1996, a criação do Morumbi Fashion altera as estruturas da moda nacional. A partir da décima edição desse evento, em 2001, seu nome é alterado para São Paulo Fashion Week.

Durante os anos 90, a fotógrafa Corinne Day foi precursora do Heroin Chic, estilo no qual as modelos fotografadas eram extremamente magras e pareciam ter consumido drogas. Naquela época, a modelo que propagou o movimento foi Kate Moss, em diversos ensaios feitos por Corinne. 

O padrão de beleza propagado pela mídia, de corpos magros, associado à repercussão do Heroin Chic tomou conta das passarelas.

 

“Padrão que não é padrão”

Por muitos anos, as novelas, filmes, programas de televisão, revistas e campanhas publicitárias propagaram um ideal de beleza bastante restrito. De modo geral, a pele deveria ser branca, olhos e cabelos claros, nariz fino, lábios carnudos e corpo magro, mas curvilíneo. “A gente está chamando de padrão um biotipo que, talvez, nem 1% da população possa ostentar”, afirma Marco Tommaso. Só de andar pelas ruas do Brasil se torna evidente que esse “padrão” é bastante incomum. 

Luiza Medeiros, 20 anos, trabalha como modelo há quatro. “Mais nordestina que paulista”, nasceu em São Paulo, mas cresceu no interior do Rio Grande do Norte. A sua carreira começou depois de ouvir, por muito tempo, que levava jeito para a moda. Há cerca de quatro anos, conseguiu uma agência e trabalhou no estado em que morava por alguns anos.

Mesmo para Luiza, que se considera dentro do padrão, a autoestima é uma questão. “Tem uma pressão muito grande em cima de mim, afinal eu trabalho com o meu corpo. Mas o meu agente atual é muito preocupado com a questão psicológica.” Ela conta que antigamente já sentiu que estivesse prestes a desenvolver  transtornos alimentares.

Luiza em sessão de fotos em Milão [Imagem: Andrea Benedetti]

Recentemente, Luiza trabalhou uma temporada em Milão. A viagem foi paga pelos contratantes e recebeu um salário semanal durante sua estadia. Lembrando da experiência, Luiza relata que viu muitas meninas passando o dia tomando água e comendo salada, porque as agências haviam estabelecido 89cm de quadril e muitas estavam acima dos 90cm. “Era muito triste vê-las em casa, elas ficavam muito mal. Assim que cheguei também fiquei bem desesperada. Na hora de tirar as medidas, eu gelava. Mas em algumas semanas consegui entrar nas medidas.”

Mesmo que atualmente os movimentos de empoderamento feminino e desconstrução do padrão de beleza tenham crescido, Marco Tommaso, Maria e Luiza concordam que na profissão esses ideais ainda não são expressivos. “A moda se apropriou desses movimentos para passar uma falsa ideia de acolhimento e inclusão”, diz Maria. Ela relata já ter conversado com modelos plus size — segmento da moda que abrange medidas maiores — que utilizam mais de uma cinta e muita maquiagem no corpo durante o desfile, porque para os clientes o corpo deve ser curvilíneo e sem celulites ou estrias.

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