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O narrador não confiável: a enganação como recurso cinematográfico
CINÉFILOS
21 nov 2020 | Por Luana Machado (luaa9@usp.br)

“A vida nos prega peças. Ela nos induz a erros. Pinta um homem como herói quando pode muito bem ser um vilão”. A frase da personagem Abby (Olivia Wilde) em A Vida em Si (Life Itself, 2018) bem poderia sintetizar toda a história desenvolvida no filme dirigido por Dan Fogelman, que do começo ao fim parece brincar  com o público lançando a máxima proferida por Abby: “herói ou vilão?”. 

Dan incita o público abusando de um recurso bastante familiar na literatura:  o narrador não confiável. Ele é utilizado por muitos autores para inserir uma perspectiva a obra e envolver o leitor, que é inevitavelmente impelido a aceitar a versão parcial daquele narrador e levado a questionar a veracidade da própria narrativa. 

Esse certamente é um recurso gerador de controvérsias nas obras em que é utilizado. Machado de Assis, por exemplo, pode ser considerado um mestre no assunto. O autor eternizou o seu Dom Casmurro ao subverter a narrativa à visão de Bentinho,  fazendo o leitor desconfiar da confiabilidade dos fatos narrados. 

No cinema, o recurso está chamando a atenção de muitos cineastas. Vários filmes que concorreram em premiações e caíram nas graças do público e da crítica possuem narradores não confiáveis.


Mas, então, o que é o narrador não confiável? Como reconhecê-lo? Onde habitam e o que comem?

Segundo o crítico literário Wayne C. Booth, que criou o termo em seu livro A Retórica da Ficção (University of Chicago Press, 1961), o narrador não confiável é um narrador cuja a credibilidade é posta em prova, o que ocorre quando ele não está em conformidade com os valores da narrativa e da audiência. 

Essa tese levemente confusa foi modificada por outros teóricos que passaram a distinguir sinais de uma narrativa não confiável. De acordo com eles, esse narrador está presente se existem sinais intratextuais de que ele se contradiz (flashbacks, lacunas de memória ou mentiras explícitas ao longo da trama) e sinais extratextuais. Esses ocorrem quando a narração entra em atrito com os conhecimentos gerais do leitor. 

Além disso, os teóricos  indicam que, normalmente, ele aparece narrando em primeira pessoa, para que se tenha a noção de que é aquele personagem que está relatando. Mas em filmes a indicação pode ser feita de outras maneiras. Ou seja, não necessariamente o personagem que guia a versão dos fatos estará narrando verbalmente  a história. 

Um exemplo disso é o filme Coringa (Joker, 2019). Nele, a visão relatada é a de Arthur (Joaquin Phoenix), que não narra com sua voz os acontecimentos, e tem sua confiabilidade posta em dúvida devido a sua condição mental e seu caráter complicado. Porém nem sempre isso é explícito, muitos cineastas adoram deixar a descoberta para o final, criando o famoso plot twist. No famoso thriller Amnésia (Amnesia, 2000), o plot twist é justamente relacionado a doença do protagonista Leonard (Guy Pearce) que torna sua memória defeituosa, comprometendo toda a história contada.

 

Arthur Fleck na cena do protesto, uma das mais duvidosas do longa [Imagem: Divulgação/Warner Bros]

Arthur Fleck na cena do protesto, uma das mais duvidosas do longa [Imagem: Divulgação/Warner Bros]


Categorias

Além de distinguir a existência de um narrador não confiável em uma obra, alguns autores passaram a criar classificações para eles. A mais famosa é a de William Riggan, que descreve suas categorias no livro Pícaros, loucos, inocentes e palhaços (University of Oklahoma Press, 1981), título que já denuncia os seus tipos. 

 

O Pícaro

O pícaro é um personagem-tipo originado na literatura espanhola. Ele representa o arquétipo do “malandro”, alguém que engana deliberadamente. O pícaro tende a descrições grandiosas. Precisamente por suas narrações mirabolantes que ele se caracteriza como não confiável. No cinema, temos como exemplo o adorado Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (Big Fish, 2003). O longa de Tim Burton já entrega pelo título e traz a “história de vida” de Edward Bloom (Ewan McGregor) que, cheia de magia e mais coisas maravilhosas, são inacreditáveis até para o seu filho.

 

O Louco

O louco talvez seja o mais explorado pela cinematografia nos últimos tempos. Usado principalmente em thrillers, esse tipo é perfeito para roteiristas que amam uma reviravolta na história –a exemplo do já falado Amnésia, o conhecido Psicopata Americano (American Psycho, 2000), entre outros. 

Ele é um narrador cuja confiabilidade é comprometida por suas características psicológicas. Normalmente, eles utilizam mecanismos mentais de defesa para se dissociar da versão original da história, criando uma farsa mais palatável para si. No thriller de Christopher Nolan Clube da luta (Fight Club,1999), o protagonista possui um transtorno dissociativo de identidade múltipla. Isso só é descoberto ao final do filme, levando o espectador a reavaliar toda a narrativa.

 

Na cena, o narrador sem nome interpretado por Edward Norton e Tyler Durden (Brad Pitt), sua outra face. [Imagem: Reprodução/Fox Film]

Na cena, o narrador sem nome interpretado por Edward Norton e Tyler Durden (Brad Pitt), sua outra face. [Imagem: Reprodução/Fox Film]

O Inocente

O narrador inocente é aquele que é apenas testemunha ou possui conhecimento limitado dos acontecimentos narrados. Ele muitas vezes é enganado no decorrer da história devido a sua ingenuidade. Um inocente notório do cinema é Forrest Gump-O Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994), no qual o personagem de Tom Hanks é um ingênuo homem do sul dos Estados Unidos que é levado a experienciar aventuras ao longo da sua vida. Pela sua inocência ele nunca parece compreender a real dimensão dos eventos extraordinários que presencia e que, para o público, parecem inacreditáveis.

 

O Palhaço

Por último, mas não menos importante, tem-se o bobo. Esse tipo é aquele narrador que não liga para nada. Para ele, tudo é uma grande piada. Ele faz associações muitas vezes absurdas em suas narrações apenas pela simples diversão, o que leva o espectador a desconfiança. 

No filme Memórias Póstumas de Brás Cubas (2001), baseado no romance de Machado de Assis, Brás Cubas (Reginaldo Faria) é o narrador defunto (ou defunto narrador) direto e um herdeiro da sociedade escravocrata carioca que nunca perde a oportunidade de caçoar de todos a sua volta. É justamente o seu caráter brincalhão e sarcástico  que o encaixam como um narrador não confiável tipicamente bobo.

Como recurso cinematográfico o narrador não confiável vale-se de uma premissa muito válida na vida em si – como diria Abby. Afinal, na realidade também é difícil de se alcançar a verdade nua e crua de um fato. Mais que uma mera brincadeira de enganação com o público, o narrador não confiável coloca o espectador em uma posição determinante, você que decide se confia ou não naquele personagem narrador e em sua história. E, certamente, é um recurso poderoso no cinema ao promover uma interessante interação entre o público e a narrativa.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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