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Quem narra, manipula – seja com a caneta, seja com a câmera
CINÉFILOS
26 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior

Ilustração

[Imagem: Lígia de Castro/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

Um personagem anda por uma rua. A câmera, no mesmo ritmo, acompanha as cenas que os olhos dele veem. A câmera na verdade está em seus olhos: tudo o que o personagem faz é sentido pelo espectador como se este estivesse fazendo-o também. A música tocada, as luzes do filme, a visão dos acontecimentos: o narrador da história é aquele personagem, pois é a partir da sua perspectiva que se tem acesso a todo o enredo.

Esse é um dos muitos jeitos de narrar uma história dentro do cinema. As maneiras de guiar a câmera, a trilha sonora e os efeitos de um filme levam a uma gama de possibilidades de construir narrativas e narradores. Como na literatura, esses diversos tipos de narradores foram explorados em muitas tramas, com o objetivo de impactar os leitores de determinadas formas.

A escolha de qual narrador usar é importante, porque eles influenciam totalmente na percepção que os leitores terão da história. Mesmo quando o narrador é observador, ou seja, quando ele não participa diretamente dos acontecimentos (como se fosse uma mosca na parede que apenas vê e conta a história), ele não é imparcial.

É por isso que, ao vermos um filme, várias vezes algumas das seguintes perguntas nos surgem: quem está contando essa história? Essa persona pode ter a intenção de me manipular? Ela pode estar sendo manipulada? Que interesses ela poderia ter ao mostrar tais fatos?

Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)Essa persona pode ter a intenção de me manipular?

Garota Exemplar

[Reprodução]

Garota Exemplar é um filme roteirizado por Gilian Flynn, baseado em seu próprio livro Garota Exemplar e dirigido por David Fincher em 2014. Conta a história de Amy e Nick Dunne, um casal que se desgastou depois de cinco anos de casamento e passou a viver um thriller psicológico.

Amy começa contando a história deles por um diário. Relata a desatenção dele, a sua infidelidade, e o sofrimento pelo qual ela passou ao longo do casamento. Conta da arma que teve de comprar para proteção, por medo de uma futura psicopatia dele. Então, o diário acaba: Amy some de vista, e, ao que tudo indica, foi assassinada. A mídia, aos montes, aproxima-se de Nick para procurar as mais tênues evidências de que havia algo de errado entre eles, de que ele havia assassinado a própria mulher. A cidade cai em cima do personagem. Mas há um porém: até então, durante todo esse primeiro momento do filme, quem havia narrado a história era Amy e apenas ela.

O espectador, ao ouvir suas palavras e o que ela recortou de sua relação com Nick para mostrar, ilude-se e passa a achá-lo culpado. Quando a narração vai mudando, quando as perspectivas mostradas vão se abrindo para outros personagens, é visível que a psicopatia era na verdade de Amy. Ela escolheu momentos reais da relação entre eles para criar uma narrativa falsa – na qual ela era morta por ele. Tudo porque havia se decepcionado com a relação deles.

Ilha do Medo (Shutter Island, 2010) – Ela pode estar sendo manipulada?

Ilha do Medo

[Reprodução]

Filme de Martin Scorsese, baseado no livro Paciente 67 de Dennis Lehane, Ilha do Medo é outro exemplo claro de como um narrador pode mudar a visão do público sobre uma história.

A câmera está o tempo inteiro filmando Teddy Daniels, detetive e personagem principal da trama.  Ele chega a uma ilha em que há um hospital psiquiátrico, e sua missão é investigar o desaparecimento de uma das pacientes dali junto a um parceiro, Chuck Aule. Os dois passam por diversas situações conforme Teddy vai percebendo, aos poucos, a verdade apagada sobre a morte de sua mulher. O plot twist: ele a matou, e a realidade era tão insuportável que criou uma situação nova na própria cabeça em que não era mais Andrew Laeddis (seu verdadeiro nome), era Teddy Daniels, e não havia assassinado sua mulher.

Havia se tornado louco, motivo real para estar na ilha – tudo não se passava de um tratamento.

Assim, como vemos o filme inteiro pela sua perspectiva e todos ao seu redor estão mentindo (tentando fazê-lo perceber lentamente a sua realidade), somos enganados pela sua visão. Não por que ele tem a intenção de enganar, mas porque a verdade que conhece é distorcida.

Capitu (1968) – Que interesses ela poderia ter ao mostrar tais fatos?

Capitu

[Reprodução]

Machado de Assis trabalhou bem seus narradores em suas obras. Dom Casmurro talvez tenha sido a mais famosa delas, não por acaso. Seu personagem principal Bentinho, tão ávido por não se mostrar como neurótico e ciumento, constrói uma narrativa inteira em primeira pessoa tentando guiar o leitor à conclusão de que Capitu, sua mulher, era infiel.

No filme sobre a obra, Capitu, dirigido por Paulo Cesar Saraceni e roteirizado por Paulo Emílio Sales Gomes e Lygia Fagundes Telles, Bentinho também é colocado em primeiro plano. A câmera, quando coloca Capitu em foco, mostra-a festejando, conversando com Escobar (seu suposto amante), e tendo atitudes libertárias (o que, para Bentinho, era uma das provas de que ela seria capaz de traí-lo). É assim que, conforme as cenas vão rodando, ele vai ficando mais e mais preocupado com o jeito dela, e Escobar, antes seu amigo, vai se tornando alvo de pura desconfiança. No final, ele tem certeza: o filho de Capitu não é seu, é de Escobar.

Esse é um exemplo de alguém que tem tanta certeza de que é vítima, que precisa a todo custo mostrar isso para os outros. Dessa forma, embora a questão aqui também seja manipular, isso é feito de maneira mais discreta: manipula-se, mas porque há um desejo grande de provar o próprio ponto. O próprio narrador talvez não veja isso como manipulação, porque ele realmente acredita que é verdade.

Entre o cinema e a literatura

Apesar de as duas artes trazerem elementos em comum no quesito narração, as ferramentas disponíveis para a construção da história são muito diferentes, e por isso ambas têm resultados também muito diferentes.

No cinema, não se está dentro da cabeça do personagem. Não se veem os pensamentos, não se veem os sentimentos: vê-se apenas a cena pela perspectiva dele. O personagem consegue transmitir suas sensações pela música e pelas imagens, mas não há nenhum diálogo concreto entre ele e o espectador. Isso significa que é mais difícil para esse narrador-personagem manipular a própria história, já que os seus espectadores têm os mesmos olhos e ouvem as mesmas falas que ele. Em um livro, o narrador pode transformar suas visões quando vai contá-las ao seu leitor; pode exagerar a entonação de alguém, dar adjetivos suspeitos a cenários e a pessoas. No filme, está tudo gravado: as expressões, o cenário, as entonações, os olhos. O narrador-personagem e o público têm a mesma visão, por isso é mais difícil existir manipulação.

Mais difícil, não impossível. Como ela acontece então, se as visões são as mesmas?

Acontecem, porque no cinema tudo é recorte.

Não é preciso que as imagens sejam falsas: é necessário somente que apenas uma parte delas seja mostrada, e não o todo. Amy escolheu mostrar as cenas ruins de seu relacionamento com Nick; Andrew Laeddis (ou Teddy Daniels) mostrou aquilo que via – mas como era enganado, ele não tinha acesso a tudo o que estava acontecendo; Bentinho mostrou apenas as cenas em que Capitu e Escobar tinham conversas suspeitas. Dessa forma, por meio de recortes, as narrativas manipularam o público sem que ele se desse conta.

É assim, portanto, que os filmes como os livros nunca são imparciais, pois seus narradores sempre escolhem um ângulo para tratar dos acontecimentos – sempre recortam cenas para mostrar. E, embora pareça algo ruim de cara, obras sensacionais foram produzidas usando apenas esse único recurso: o da narração.

por Lígia de Castro
ligiaadecastro@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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