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O que é uma protagonista forte?
Controle Remoto
02 dez 2019 | Por Maria Eduarda Nogueira (mariaeduardanogueira@usp.br)

Arte: Por Laura Alegre

Olivia Pope, Viúva Negra, Annelise Keating, Mulher Gato, Arya Stark: há algum padrão nessas personagens? Explico: todas elas são consideradas, na cultura pop, como fortes. 

Historicamente, os principais contadores de história ‒ seja em formato audiovisual ou escrito ‒ têm o hábito de criar personagens femininas apenas como suportes para o crescimento de um personagem masculino. Até hoje, observamos exemplos assim nas diversas manifestações da cultura pop

A mulher misteriosa que muda a vida do personagem principal, com seu jeito diferente mas muito sexy (olá, Tudo Acontece em Elizabethtown), a mulher solitária em um grupo de homens (eu ouvi Transformers?) ou então a mulher que morre a fim de dar um propósito para o desenvolvimento da trama masculina (O espetacular homem-aranha 2). Esses são apenas alguns exemplos dentro de um universo que tem muitos ‒ mas muitos ‒ mais estereótipos

Após diversas reivindicações do movimento feminista, a função de personagem que serve exclusivamente para impulsionar o desenvolvimento do protagonista homem perdeu espaço – personagens “alavancas”. Mas não significou que as mulheres fossem representadas do modo como deveriam. Isto é, como mulheres reais.

Cena do filme Tudo Acontece em Elizabethtown, em que a personagem de Kirsten Dunst é uma alavanca para Orlando Bloom. [Imagem: Paramount Pictures]

Há, hoje, dois principais atributos que fazem com que uma personagem seja considerada como “forte”: a força física ‒ vide a vingadora Viúva Negra – e a habilidade de não se abalar com problemas pessoais ‒  como Olivia Pope, em Scandal

Em contraposição às personagens alavancas, as personagens “fortes” poderiam ser vistas como uma evolução nas histórias. Porém, o que as caracteriza como fortes é a aproximação com o universo masculino. O encaixe nesse padrão é enaltecido, enquanto a sensibilidade e a fragilidade causam distanciamento. 

Em geral, esse estereótipo da “personagem forte” recai ainda mais sobre as mulheres negras. Lavínia Rocha, escritora de livros infanto-juvenis, comenta: “É muito engraçado porque quando você fala ‘forte’ para a mulher branca é um elogio, mas quando você fala para a mulher negra, é mais do mesmo. É um estereótipo que a gente carrega há muito tempo.” 

Muitas vezes, a “força” da personagem é associada a algum trauma do passado, que nem sempre é explorado da maneira devida. A ocorrência de um episódio trágico na história da personagem vem como uma forma de legitimar sua impenetrabilidade emocional, raramente como um meio de construir um background complexo e útil ao desenvolvimento da história. 

No caso de personagens negras, o racismo e a infância sem condições financeiras são fatos quase que obrigatórios na construção das personagens. “Sempre espera que a mulher negra tenha uma história de superação para contar. Se não tem, é decepcionante”, diz Lavínia. 

Quando a gente fala ‘mulher é o sexo frágil’, as pessoas querem dizer mulher branca”, comenta Lavínia, que cita ainda o caso da princesa Tiana. Sendo a primeira princesa negra, ela escapa a todas as outras características dadas às personagens brancas. “A Tiana trabalha e vem de origens humildes. Ela não vive num castelo e passa grande parte do tempo como um sapo.”

Assim, confirma-se mais uma vez o estereótipo da mulher negra enquanto forte, somada à história de superação.

Tiana, do filme Princesa e o Sapo, subverte o padrão da princesa do castelo, que está sempre, à espera de um príncipe. [Imagem: Disney]

A personagem Jessica Jones, que teve um histórico de relacionamento abusivo [Imagem: Netflix]

Um aspecto mais controverso dentro do tema são as princesas da Disney que, desde sua criação, são tidas como frágeis, principalmente considerando o final típico de suas histórias: a salvação pelas mãos de um príncipe. Encantado, claro.

Nos últimos tempos, vertentes do movimento feminista tentam reverter a ideia das princesas enquanto seres indefesos. Até mesmo os próprios estúdios de produção investem mais em histórias com maior protagonismo feminino ‒ com motivações financeiras por trás, mas ainda assim, atende a essa demanda social. Exemplos recentes são Merida, de Valente, e Elsa, de Frozen, com um enfoque muito maior em suas relações familiares do que na espera pelo príncipe-herói encantado. 

Não é só de estereótipos vive a cultura pop. Personagens como a princesa Shuri, de Pantera Negra, são uma referência quase que única para mulheres ao redor do mundo. Quantas vezes tivemos a chance de ver nas grandes telas ‒ em um blockbuster! ‒ uma mulher jovem, negra, cientista e chefe de um laboratório? 

Deixo um tempo de reflexão, mas chuto uma resposta: zero. 

Outro exemplo notável e recente é a personagem Anna Kendrick, de Um Pequeno Favor. Inicialmente, temos a impressão de que se trata apenas de mais uma soccer mom ‒ termo usado para designar as mães de família que vivem em função dos compromissos dos filhos, tais como levar em jogo de futebol. Mas, ao longo do filme, percebemos um desenvolvimento de caráter inesperado, que resulta num final mirabolante e muito inusitado. 

Shuri em seu ambiente de domínio: o laboratório de tecnologia [Imagem: Marvel Studios]

Para evitar personagens mal construídas, antes de tudo, é preciso dar profundidade a elas, explica Lavínia. Fatores como família, memória e objetivo podem parecer simples, mas são parte constituinte de qualquer ser humano. Por que, então, não acrescentá-los a uma personagem? Essa verossimilhança com nossa realidade é essencial para gerar identificação. Pode ser em uma narrativa de alienígenas ou em uma simples história de família. 

Um dos melhores exemplos da atualidade na construção de personagens femininas e masculinas é a série This is Us. Alternando entre flashbacks e momentos da vida presente, a produção nos dá um panorama magnífico de cada uma das pessoas e faz entender a razão de seus comportamentos e a justificativa por seus atos. 

A família Pearson, num flashback da série [Imagem: NBC]

O estereótipo de mulher forte poderia passar despercebido, como mais uma das tendências retrógradas da cultura pop. Se não fosse pelo fato de que é extremamente prejudicial para as mulheres da vida real.

A pressão para se manter sempre inabalável e perfeita afeta a saúde mental feminina de uma maneira muitas vezes imperceptível. Mas devastadora. 

Inspirar-se em personagens de livros, filmes e séries pode ser um ótimo fator motivador, tanto para garotas adentrando no universo da cultura quanto para mulheres já aposentadas. No entanto, há um limite. Reconhecer que aquelas mulheres são fictícias e apenas idealizações ‒ muitas vezes de criadores homens ‒ é primordial para que o consumo da cultura pop mantenha-se somente em seu campo designado: o de lazer. 

Mulheres não precisam ser muralhas impenetráveis, sem emoções. Não precisam provar seu valor através de atributos que se aproximam das características tidas como “masculinas”. Não precisam esconder suas fragilidades. 

O simples fato de existirem em um mundo machista e sexista já as torna fortes demais. 

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