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Observatório | Democracia sob máscaras: as eleições de 2020
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26 jul 2020 | Por Mariana Marques (m4rimarques@usp.br) e Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

O último circuito de eleições foi definitivo para a geopolítica internacional. A ascensão de governos pautados no ideário da direita e sustentados pelo nacionalismo e, não raramente, xenofobia, ocasionou desde o Brexit até a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. O ano de 2020, no entanto, carrega consigo não só essa bagagem, como os impactos de tais gestões e a clara influência do COVID-19. São levantados questionamentos quanto às iminentes tendências e os efeitos das eleições deste ano na política internacional.

A abstenção nas urnas francesas causada pela pandemia, por exemplo, possibilitou a ascensão de uma “onda verde” nas eleições municipais, o que levou o ambientalismo a um novo patamar na política da nação. Já no Brasil, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a declarar em uma reunião ministerial que “precisa ir passando a boiada”, sugerindo que o momento atual seria ideal para a flexibilização de leis ambientais. Dualidades como essas destacam a importância de observar diferentes processos eleitorais de 2020, situados em nações como Rússia, Espanha, Bolívia, Chile e diversos outros.

 

Estados Unidos da América: “Make America Great Again” e a desilusão da sociedade estadunidense 

Trump, Obama e Joe Biden na inauguração do primeiro mandato do republicano [Imagem: Reprodução/Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos]

Às vésperas da 59ª eleição presidencial, parte dos eleitores de Trump – aficionada pela volta a um passado glorioso do “estilo de vida americano” – vivencia quebra de expectativas. Segundo o cientista político Lucas Câmara, do Departamento de Ciência Política da USP (DCP-USP), “a mudança prometida por Trump era impossível. Os empregos manufatureiros que prometia trazer de volta não foram perdidos só para a China e a mudança tecnológica impossibilitaria uma volta ao passado”.

O fracasso no combate à COVID-19 também é de grande impacto. As mais de 100.000 mortes afetam a opinião pública em muitos segmentos de sua base eleitoral. Já o fortalecimento do movimento Black Lives Matter enfatiza a natureza racista e autoritária de Trump, que culminou em derrocada de sua popularidade em 10 pontos e projeções favoráveis aos democratas.

Quanto à oposição, apesar da derrota de Bernie Sanders e suas propostas vistas como radicais (tal como a saúde pública), o escolhido em seu lugar, Joe Biden, democrata bastante moderado, é forçado a adotar programa político comprometido com o progressismo, dado o impacto de Sanders e Elizabeth Warren. Nesse contexto, uma derrota de Trump pode significar uma pausa no avanço da direita no país e no mundo. Por enquanto, o jornal The Economist aponta que Biden tem 99% de chance de receber mais votos.

 

Polônia: a ascensão da extrema direita e do antissemitismo nas urnas 

Andrzej Duda [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons/Radosław Czarnecki]

Na Polônia, a eleição presidencial ganhou prioridade mesmo em meio à pandemia. Inicialmente programada para maio, ocorreu no dia 28 de junho e teve resultado condizente com o crescimento da extrema direita no país: reeleição de Andrzej Duda. Apesar do processo aberto no Tribunal de Justiça da União Européia por conta de reformas judiciais acusadas de caráter antidemocrático, Duda obteve a vitória com 51,21% dos votos poloneses frente a Rafal Trzaskowski, centro-direitista mais alinhado aos interesses da União Europeia.

Com o governo prévio marcado pelo antissemitismo, anticomunismo e homofobia, o ultraconservadorismo de Duda representa risco cada vez maior para minorias políticas do país, que segundo Câmara se tornam bodes expiatórios da crise. Para uma grande massa de poloneses, seu discurso nacionalista, xenófobo e conservador é sedutor no período de incertezas pelo qual têm passado.

Lucas Câmara acredita que isso seja reflexo de uma democracia que não cumpre a promessa de prosperidade econômica: “para o eleitor, a garantia de eleições livres e alternância pacífica no poder não basta se instituições forem identificadas com estagnação econômica, falta de mobilidade social, e pouca representatividade”.

 

Brasil: municípios e nação


Mesária em eleição brasileira. [Imagem: Reprodução/Agência Brasil]

No Brasil, eleições municipais chegam após impasse entre presidente e governadores em meio à pandemia. Tal conflito, mesmo protagonizado por eleitos em processos gerais, já colhe seus frutos em 2020, dada a disputa por apoio de vereadores e consolidação da base política.

O recente impedimento de que partidos com menos de 5% de expressão nos votos participem de eleições estimula suas fusões ou fechamentos. Assim está feita a disputa por número de candidatos eleitos e acúmulo do poder de barganha, em conjuntura crítica. De acordo com Lucas Câmara, “esse é um dos motivos pelos quais a oposição tem tido dificuldade de formar frentes eleitorais: todos querem eleger seus vereadores”.

A presença nas urnas é decisiva para toda a nação por anos que virão. O pesquisador afirma que este é um período crucial ao comprometimento com a democracia: “a tarefa política primordial é abandonar o oportunismo antipolítico que tomou o país, assim como se deve abandonar o discurso tecnocrata que exclui aqueles que não detém conhecimento”. As eleições ocorrem nos dias 15 e 29 de novembro.

 

Síria: eleições em antidemocracia 

Bashar al-Assad [Imagem: Reprodução/Serviço de Imprensa do Presidente Russo]

Esperançoso, o povo sírio foi às urnas no último dia 19. Atualmente, mais de 80% da população está abaixo da linha de pobreza. A eleição parlamentar deu 70% da Assembleia Nacional ao partido conservador Baas, enquanto sírios refugiados não puderam votar e partidos da oposição foram impedidos por exílio ou carência da aprovação de parlamentares necessária à candidatura.

O processo foi acusado de simbólico. Foram ocupados antigos espaços de resistência para votação e o fim foi a consolidação do poderio da família al-Assad, que comanda o país desde 1971. Ao lado do presidente da nação, Bashar al-Assad, está o apoio da Rússia e do Irã, frente ao apoio estadunidense, turco e francês às forças da oposição. Localizada em território estratégico, a Síria não é estranha ao interesse e conflito externo.

A aliança síria anti-ocidental com Irã e Palestina levou a prolongadas tensões, que irromperam junto a protestos por abertura política meio à Primavera Árabe e estimularam a guerra civil que ocorre há quase uma década. O Oriente Médio é uma zona por princípio internacionalizada, fortemente afetada por dinâmicas vizinhas, potências grandes e regionais.

Em menos de 24 horas, uma eleição parlamentar provocou pronunciamentos de potências pelo mundo, em apenas um dos efeitos da globalização. O fluxo comunicativo e relações estreitadas entre nações abertas ao mercado e política internacionais dilui a noção de que a importância política esteja reservada a certos fenômenos em países específicos. Uma eleição diz respeito à região que condiz e ao mundo, e atentar-se aos exemplos estabelecidos é salutar.

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