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Órfãos da Disney
CINÉFILOS
05 nov 2019 | Por Júlia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br)

Tudo começa tranquilo. Um mar sem problemas. Uma família feliz que está para ganhar filhos. Acabaram de se mudar e aproveitam a vizinhança mais do que amigável. Então, em menos de cinco minutos, as cenas ficam rápidas e confusas. Sobram apenas o pai e um dos tantos filhos que o casal iria ganhar. Assim, nasce mais um protagonista sem mãe e a possibilidade de uma história que encanta tantas pessoas.

A cena pertence aos primeiros minutos de Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003), mas poderia pertencer a tantos outros filmes da Disney, que insiste em retirar um dos pais do protagonista. Nessa ocasião, a morte de Coral, mãe de Nemo, pode ter passado despercebida a crianças distraídas ou àqueles que chegaram atrasados para a sessão de cinema. Entretanto, em diversos outros filmes, a morte de um dos pais, ou até dos dois, pode acontecer de forma bastante traumática.

É curioso pensar que a maior companhia de criação de animações se preocuparia tão minuciosamente em tirar os pais de seus mais famosos protagonistas. Porém, a partir do momento em que se começa a pensar nos desenhos feitos pela Disney, é quase impossível não ficar intrigado com a quantidade de órfãos nas histórias. Haveria alguma explicação para isso? 

Antes de procurar respostas – e tentando evitar destruir a infância dos que já foram e ainda são crianças – é preciso perceber a quantidade de animações produzidas pela companhia que repetem a fórmula da retirada dos pais.

Olhando para os desenhos pioneiros da Disney, é possível observar, logo no primeiro filme, a falta dos pais. Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937) traz a história da gentil e linda Branca de Neve que, sem os pais, sofre na companhia de sua invejosa madrasta. Vale ressaltar que o roteiro da protagonista sem pelo menos um dos pais se repete em quase todas as histórias clássicas de princesas da Disney: Cinderela (Cinderella, 1950), A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989), A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991), Aladdin (1992) e Pocahontas (1995).

Para além dos filmes de princesa, o mesmo acontece. Dentre os diversos filmes com órfãos, impossível não destacar Bambi (Bambi, 1942), O Rei Leão (The Lion King, 1994) e Tarzan (1999). Nas três animações há a morte de pais de forma impactante. Difícil não ficar aflito com a mãe de Bambi se perdendo entre as chamas da floresta, não torcer para que Mufasa se levante ou não fechar os olhos no momento em que a onça ataca os pais do pequeno Tarzan. Novamente, três protagonistas que têm que crescer sem os progenitores.

Três gerações de princesas da Disney: Ariel, Jasmine, Moana e Elsa [Imagem: Divulgação/Disney]

Nas animações mais recentes, lançadas nos anos 2000, curiosamente, muitos permanecem sem as figuras de pai e mãe, como em Lilo & Stitch (Lilo & Stitch, 2002) e Operação Big Hero (Big Hero 6, 2014). A esses se juntam, também, as princesas mais modernas dos filmes A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009), Frozen: Uma Aventura Congelante (Frozen, 2013) e Moana: Um Mar de Aventuras (Moana, 2016).


Nada se cria, tudo se copia

Diante de tantos filmes com um mesmo padrão é difícil não acreditar que haja uma explicação. Realmente, não há só uma, como várias teorias que tentam explicar porque a Disney tem uma aparente necessidade de tirar os pais de seus protagonistas.

Grande parte das histórias da companhia, principalmente as produções mais antigas, não foram criadas por Walt Disney. A maioria dos roteiros são adaptações de contos clássicos e, às vezes, até de lendas pertencentes a outras culturas. Assim, a ideia de ausentar ou matar pelo menos um dos pais nas histórias não seria criação dos estúdios da Disney, mas algo muito mais antigo.

No século 19, dois irmãos alemães começaram a escrever diversos contos infantis e ficaram conhecidos como os precursores das fábulas – muitas delas adaptadas por Walt Disney nas animações. Os tão famosos irmãos Grimm já utilizavam o recurso de retirar as figuras paternas das histórias. Além deles, Charles Dickens, famoso autor inglês do século 19, escreveu muitos contos que possuíam órfãos no roteiro. Entretanto, é possível dizer que esse recurso data de antes desses autores, já que há relatos de que as histórias escritas pelos irmãos Grimm já existiam em vários locais da cultura germânica.

Mas, para aqueles que preferem acreditar nas inúmeras teorias da conspiração que rondam as animações da Disney, há, também, uma história misteriosa que procura explicar a ausência desses pais. No início dos anos 1940, Walt Disney comprou uma casa para seus pais morarem e, antes da mudança, pediu a alguns funcionários que trabalhavam no estúdio para irem ao local consertar o aquecedor que estava com problema. Porém, quando o casal se mudou, o equipamento teve um vazamento de gás e o ocorrido acabou matando sua mãe.

Segundo Don Hanh, produtor executivo de Malévola (Maleficent, 2014) em entrevista à revista Glamour, esse acontecimento pertubava e consumia Walt, por isso ele teria se tornado obcecado com a ideia de orfãos. Hahn ainda relata que a ausência ou morte dos pais dos protagonistas seria essencial para o crescimento das personagens e isso ajudaria no desenvolvimento da história.

Walt Disney com alguns de seus personagens [Imagem: Disney]

Há, ainda, aqueles que acreditam que existem objetivos inconscientes para que a Disney não inclua mães e pais em seus roteiros. Entre os principais estariam a de que retirá-los seria uma forma de mascarar a realidade ou sugerir que a figura paterna saberia cuidar dos filhos, por exemplo, caso as mães morressem. Apesar desse tipo de teoria ser possível, uma vez que há muitas histórias de mensagens subliminares nas animações da Disney, é importante dizer que, às vezes, ocorre uma hiper interpretação dos significados – isto é, quando a interpretação se desenvolve a partir da imaginação dos interlocutores.


Nem Freud explica

Seja a retirada dos pais algo que nasceu antes mesmo de Walt Disney ou que está diretamente ligado a sua história pessoal, o fato é que o recurso é utilizado até hoje. A ausência da figura parental ultrapassou a função de dar dinamismo e conflito ao roteiro e se relaciona à conexão emocional dos espectadores com o filme.

Alguns psicólogos que defendem que situações de tensão e de tristeza presentes nas histórias infantis são fundamentais para a formação de valores. Ao ver o protagonista amadurecendo e lidando com problemas, os pequenos tendem a lidar melhor com a realidade – muitas vezes dura – que é crescer. O drama, característico de muitos desses roteiros, vem da ideia central das fábulas: ensinar uma moral e facilitar o crescimento. 

Em entrevista à A Revista da Mulher , a psicanalista especializada em família, Maria Corrêa, explica que “o processo de amadurecimento pode ser algo muitas vezes doloroso”. Assim, as animações desempenhariam um papel importante ao apresentar situações difíceis e incomuns às crianças. A ausência dos pais dos protagonistas, portanto, seria um elemento essencial para a formação de valores e da subjetividade.

Mas essa visão não é unânime. A psicanalista Lilian Camargo, que atua há mais de 30 anos na área, acredita que as animações não acarretam um impacto tão relevante nos espectadores. Para ela, os desenhos cumprem uma função de lazer e entretenimento. Além disso, Lilian acredita filmes geram um impacto diferente em cada pessoa.

Apesar da falta de consenso em relação ao assunto, as animações, repletas de protagonistas sem pais, vêm encantando crianças e adultos há décadas. E mesmo que essas situações não tenham um impacto psicológico real, os rostos inchados ao fim de tantos desses filmes são uma prova mais do que concreta que há, pelo menos, uma forte conexão com os espectadores.


Continue a nadar

A ausência dos pais ou sua morte em tantas animações da Disney tem uma origem um tanto quanto turva – quase como as águas do mar quando Nemo fica órfão de mãe. Pode ter começado nas produções da companhia como algo despretensioso ou já ter vindo das fábulas por ela adaptadas, mas se tornou um recurso muito eficiente. Apesar disso, nos dias de hoje, a Disney poderia considerar a elaboração de roteiros que trouxessem outros tipos de estrutura familiar – como famílias com pais separados ou de casais homossexuais – e isso talvez ajudasse crianças a lidarem com os possíveis problemas que isso acarreta.

A retirada dos pais nesses filmes, muitas vezes traumática aos pequenos espectadores, se explica de diferentes maneiras e através das mais elaboradas teorias. O efeito que isso causa em cada um, por sua vez, é único. A morte de Mufasa, como a da mãe de Bambi, entristeceu – e ainda entristece – diversas crianças, mas só com elas Simba e Bambi puderam crescer. A tristeza, ensina as animações, é algo próprio da vida e que acontece quando menos se espera. Ao mesmo tempo, ela nos ensina a crescer e nos permite ser a melhor versão de nós mesmos e, por isso, funciona há tanto tempo.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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