Home Controle Remoto Orphan Black: Seja bem vindo ao Clube dos Clones
Orphan Black: Seja bem vindo ao Clube dos Clones
Controle Remoto
08 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

Um dos programas mais inteligentes da televisão, a série canadense Orphan Black, que estreou em 2013, finalizou sua quarta e penúltima temporada em Junho. A BBC America e os criadores, Graeme Manson e John Fawcett, já confirmaram que a quinta temporada será a última, e retornará em 2017 para atar algumas pontas soltas deixadas ao longo do drama, e, especialmente, da mais recente temporada, já que ao fim desta, as personagens principais se encontraram separadas e com inúmeros problemas que podem alterar toda a condução da série.

Orphan Black se inicia quando Sarah Manning volta à cidade em que sua mãe e irmão adotivos moram, para tentar retomar as rédeas de sua vida e reaver a guarda da filha. Na estação de trem, ela vê uma mulher identica à ela se suicidar, e ao decidir tomar a identidade de Beth Childs, a suicida, para roubá-la, Sarah vê sua vida mudar drasticamente ao descobrir que ela é, na verdade, um clone, criada em laboratório e dividindo o mesmo material genético com mais de 20 outras mulheres (número aproximado de clones citadas e/ou conhecidas pelos personagens ao longo das quatro temporadas).

Sarah se envolve então com a mãe de subúrbio Alison Hendrix e com a cientista Cosima Niehaus, com quem compõe o “Clube dos Clones”. Juntas, as irmãs – nome carinhoso pelo qual as clones se tratam – tentam desvendar os mistérios que as acompanham, desde os dramas sobre sua criação e sobre os processos, corporações e pessoas envolvidas na clonagem humana, até a questão da pessoa que vem perseguindo e matando as clones.

Poster promocional de Orphan Black com quatro das principais clones, da esquerda para a direita: Sarah, Helena, Alison e Cosima. Divulgação. Fonte: Borg

Um dos principais pontos altos da série são seus personagens. Todas as clones são interpretadas por Tatiana Maslany, uma atriz incrível e que consegue, de maneira exímia, criar muitas personas completamente diferentes, de passados, sotaques, manias e características diversas, e que são, fundamentalmente, inúmeras pessoas. De Sarah, jovem britânica rebelde e determinada, com histórico de delitos criminais, à perturbada Helena, criada em um convento escandinavo e preparada para matar as clones, cada personagem que Tatiana interpreta é novo e apresenta um modo diferente de lidar com a situação única em que as clones se encontram. Até o fim da quarta temporada, Tatiana já interpretou 11 pessoas, várias simultaneamente, o que lhe rendeu uma indicação ao 67º Emmy como Melhor Atriz em Série Dramática, após inúmeras críticas por esta ser uma indicação tardia.

Os personagens coadjuvantes são bem construídos e, em inúmeros episódios, roubam a cena. Todos tem uma motivação específica para se envolver com as clones, e isto deixa a trama sempre intensa e permeada de mistérios sobre as reais intenções de cada um. Além disso, nenhum deles tem apenas um lado, sendo pessoas completas com defeitos e qualidades. Siobhan Sadler, por exemplo, é ao mesmo tempo mãe a avó preocupada e uma mulher lutadora e que faz o que é necessário para proteger quem ama, enquanto Felix Dawkings, irmão adotivo de Sarah e um dos melhores e mais carismáticos personagens da série, é aquele que dá enorme suporte às clones e é, também, divertido, acolhedor, responsável pela quebra de esteriótipos e peça inestimável para as clones desvendarem o mistério.

Outro ponto que dá à série seu estilo incrível são as bases de incertezas e imprevisibilidades na qual é construída. A cada episódio, o telespectador é introduzido à uma nova informação, à um plot twist ou à uma mudança na condução da trama e nos personagens. O mistério acompanha todos os episódios e é de extrema importãncia para que quem assiste descubra os pedaços do quebra-cabeças juntamente com os personagens. Nada é o que parece ser e ninguém é o que aparenta em Orphan Black, e tudo o que você sabe pode ser facilmente desmentido e alterado em uma pequena sequência de cenas. Os caminhos a se seguir são vários, e este clima de suspense constante gera no telespectador uma necessidade de descobrir o que irá acontecer. Além disso, as temporadas curtas, com apenas 10 episódios, tornam o roteiro mais conciso e forte.

Cena de suicídio de Beth Childs, no primeiro episódio da primeira temporada, “Natural Selection”. Reprodução. Fonte: BBC America

Outro fato que merece ser mencionado sobre Orphan Black é seu caráter representativo. A série, não contente em ter uma mulher em posição de destaque, tem um grupo delas. Todas as clones são principais e estas personagens são fortes, inteligentes e capazes de resolver uma série de problemas, mas ao mesmo tempo, buscam se apoiar umas nas outras em momentos difíceis, em um claro exemplo de sororidade feminina (as clones, à partir de certo momento da série, passam à se tratar como irmãs, o que inclui algumas brigas, mas muito amor). Também, a série apresenta, ao longo de suas temporadas, personagens de diferentes sexualidades, mas sem fazer com que esta caracteristica seja o fato mais interessante da persona. Como diz Cosima, no segundo episódio da segunda temporada, “Governed by Sound Reason and True Religion”, “minha sexualidade não é a coisa mais interessante sobre mim”.

Orphan Black é uma série sobre ciência. É uma série sobre bioética. Mas é, ainda mais, uma série sobre seres humanos. Claro que uma alta carga de julgamentos morais acompanha o roteiro, afinal, acabamos por nos perguntar se clonar pessoas é correto, se trabalhar com melhorias genéticas é algo a ser feito e qual o papel de corporações na sociedade ao tratar pessoas como experimentos, entre outros questionamentos, e estes levantamentos de ficção científica são bem tratados e discutidos pela série.

Porém, o foco do seriado é a pessoa por trás da genética, visto que a história gira em torno do modo como cada uma lida com a situação peculiar em que vive e constroi sua personalidade, e não necessariamente do fato de elas serem clones. Também, ele tenta explicar que a genética não representa a parte mais importante do indivíduo, pois apesar de serem geneticamente identicas, cada clone é uma pessoa diferente e influenciada por específicos backgrounds sociais. O lema do clube das clones na primeira temporada é um bom exemplo: “Just one. I’m a few. No family too. Who am I?” (Apenas uma. Sou algumas. Sem família também. Quem sou eu?)

Todas as temporadas de Orphan Black estão disponíveis no serviço de streaming Netflix e o canal A&E Brasil é responsável pela exibição do drama no país desde 2014. Enquanto a quinta temporada não estreia, confira a cena em que Sarah descobre que é uma clone:

Por Victória Martins
victoria.rmartins19@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*