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Os mistérios do Expresso Oriente ao Brooklyn Nine-Nine
Controle Remoto
08 fev 2020 | Por Camila Paim (camilapaimf@usp.br)

Quem? Qual foi a arma usada? O que motivou o crime?

Obras literárias de romance policial sempre foram cercadas dessas três famosas perguntas. Sherlock Holmes e Hercule Poirot não foram exceções. Devido à sua notoriedade, a televisão sentiu a necessidade de importar esse gênero. Os romances passaram por uma adaptação de formato e tornaram-se mais enxutos, mas ainda seguindo um modelo fechado próximo da literatura.

As séries mais clássicas, como CSI e Law & Order se esgotaram, caindo em resoluções previsíveis e repetitivas, e entrou-se em uma nova era de produções com séries que tentam sair desse padrão. Brooklyn Nine-Nine aparece nesse cenário como uma inovação no meio da comédia e investigação. Mas vamos por partes, como diria nosso amigo Jack. 

 

Os Crimes ABC

Umberto Eco, em O Super-Homem de Massa, conta que o gênero policial tem seus primeiros vestígios no século XIX nos folhetins franceses de Eugène Sue, em sua obra Mistérios de Paris. Nos Estados Unidos, Edgar Allan Poe arriscava-se em contos que curiosamente não faziam sucesso na América, mas do outro lado do oceano, na terra da rainha. Suas histórias contavam com poucos personagens e aproximavam-se mais de gêneros de suspense e terror. 

Seguindo passos similares, Sir Arthur Conan Doyle cria Sherlock Holmes e o caro John Watson. Já elegidos como melhor dupla da ficção, os amigos desvendam mais de cinquenta mistérios. Os contos são caracterizados pelos poucos personagens e a mesma estruturação dos acontecimentos. No entanto, Doyle não se aproximou tanto do macabro como Poe, apenas tangenciando em obras como O Cão dos Baskervilles

Apesar desse banquete de escritores, é no começo do século XX que uma mulher, ainda que muito conservadora, revolucionaria todo o gênero. 

Watson e Sherlock, na série Sherlock produzida pela BBC [Imagem: Robert Viglasky/BBC]

Watson e Sherlock, na série Sherlock produzida pela BBC [Imagem: Robert Viglasky/BBC]

Um gato entre os pombos

Agatha Christie, ou Rainha do Crime, tem uma ficha criminal de mais de 80 romances e contos publicados, sendo a terceira autora mais vendida no mundo, atrás apenas de Shakespeare e da Bíblia. Tendo a herança de Conan Doyle e Poe, Christie estabelece um rumo diferente para suas obras. Críticos de sua literatura determinam que suas obras parecem trazer uma dicção feminina ao gênero. 

Jean Pierre Chauvin, doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, comenta que “a psicologia freudiana passa a ser incorporada ao universo policial, assim como certas doses de intuição. Jane Marple e o próprio Hercule Poirot acreditam que a fala revela tanto, ou mais, que as pistas físicas e evidências”, afirma. Christie traz uma narrativa mais próxima do real, mais verossímil, renovando o gênero policial.

Agatha Christie [Imagem: Reprodução]

Agatha Christie [Imagem: Reprodução]

Grande leitora dos romances de Jane Austen, Christie abandona a urbana Londres e transfere suas cenas do crime para o campo. Seus romances tendem à ambiência doméstica e atentam à caracterização das personagens e de seus pequenos gestos, o que é fundamental para o processo investigativo. 

A pluralidade de personagens é a especialidade da autora. Os casos normalmente envolvem entre dez a quinze personagens e todos são introduzidos de forma a entrar na lista de suspeitos. Seus detetives também variam de caso para caso. O mais famoso é Hercule Poirot, um homem extravagante com seu bigode e arrogante com a sua chamada massa cinzenta (o cérebro, a inteligência). Miss Marple é uma senhora que vive na pequena vila, mas que resolve mistérios por meio da audição atenta a fofocas e de sua postura de inocência.

É adotado um ritmo narrativo mais lento, que possibilita o desenvolvimento de diálogos e rituais tradicionais. O leitor se identifica com os personagens em suas ações cotidianas, e a autora as contextualiza na construção da investigação. Chauvin completa ainda que “ficar atrás de portas e escutar conversas reveladoras é uma das indiscrições que humanizam Poirot, por exemplo. Puxar conversa enquanto tricota é um dos traços humanizadores de Miss Marple”, fazendo referência a dois de seus personagens principais.

As melhores obras se desenrolam quando a autora arrisca sair do tradicional produzido no início do século XIX. A sua singularidade está na forma como transforma uma história simples em um vício até a última página. “Obras como O Assassinato de Roger Ackroyd, E não sobrou nenhum e Assassinato no Expresso do Oriente fogem à regra criada pela autora e, por isso mesmo, resultaram em romances acima da média.”

Para seu tempo, Christie produziu personagens marcantes. “Em Poirot perde uma cliente, de 1937, temos Theresa Arundell. Como uma personagem mais ‘saidinha’, que adorava dar festas. Isso, antes da Segunda Guerra, quando a mulher ainda trabalhava em fábricas.” Chauvin complementa que “Christie era uma mulher conservadora, mas isso não impediu que ela criasse personagens femininas emancipadas.”

 

Sócios no Crime

As primeiras séries de investigação que surgiram vingaram por muitas temporadas. CSI: Crime Scene Investigation teve 15 temporadas, além de um filme e três spin-offs. Law & Order foi mais além: 20 temporadas e 5 spin-offs. Durante o sucesso dessas, outras foram surgindo, com enredo e formato similares. Repetitivas, com os mesmos crimes, piadas e personagens, essas séries se esgotaram.

A partir disso, coube aos novos programas, produzir conteúdos que se destacassem do que as testemunhas já estavam saturadas. Na lista das produções que envolveram-se em construir um roteiro menos óbvio e trazer mais representatividade às telas, Brooklyn Nine-Nine se destaca. 

Personagens principais da série Brooklyn Nine-Nine [Imagem: Reprodução]

Personagens principais da série Brooklyn Nine-Nine [Imagem: Reprodução]

A série inicialmente segue o padrão do gênero sitcom, “comédia de situação”, com episódios em torno de 20 minutos e com repetições de situações e cenários. Passada em uma delegacia de polícia da NYPD, a equipe aventura-se no dia-a-dia com casos de assaltos, roubos e assassinatos. 

Segundo Lara Vascouto, formada em Relações Internacionais na PUC-SP e escritora para o blog Nó de Oito, o valor de B-99 está na disponibilidade de trazer assuntos à tona e discuti-los de forma saudável. “Os personagens são muitos diversos – homens negros, mulheres latinas – e eles não caem em estereótipos. Ser gay ou bissexual não é o que os define, são apenas características. Você pode descrevê-los sem citar isso.”

Chauvin aponta a possibilidade da série ser um resgate dos seriados e filmes policiais, populares nos anos 1980. Na época, programa como Loucademia de Polícia, por exemplo, já humorizavam o conteúdo que era produzido seriamente nos anos 1970. “Um dos traços comuns aos filmes de ação é que há situações impossíveis. Grande parte das cenas não traduz verossimilhança.” 

Ambos Chauvin e Vascouto apontam como, por meio de piadas, é possível ver a desconstrução de tabus. Jake Peralta (Andy Samberg), por exemplo, é o típico homem branco que nos primeiros minutos é apresentado como o protagonista bobo. Porém, ao longo das temporadas, o telespectador percebe uma mudança em seu comportamento. Ele passa a amadurecer no convívio com as minorias ao seu redor. 

Seu chefe, Capitão Holt (Andre Braugher), é um homem que não demonstra muitos sentimentos e que leva seu trabalho com muita seriedade. Sua personalidade é construída de forma que independe do fato de ser negro e gay. São características suas e tudo que ele enfrentou para chegar ao cargo de Chefe de Polícia é contado ao longo dos episódios. 

Capitão Holt [Imagem: Make a Gif]

Capitão Holt [Imagem: Make a Gif]

Outra personagem que se destaca é Rosa Diaz (Stephanie Beatriz), que mantém uma postura de seriedade, tem momentos de maior afeto com os colegas de trabalho. Enquanto isso, é uma mulher latina e bissexual no meio policial, mas que não aceita que o ambiente de trabalho seja desagradável. 

Vascouto completa que “normalmente, no formato de sitcom, os personagens continuam os mesmos. É isso que faz o gênero, você sempre espera o mesmo deles. B-99 é diferente. Os personagens se desenvolvem identificando comportamentos, ensinando os outros e abrindo espaço para melhora.”

Brooklyn Nine-Nine é uma paródia do gênero. Com a renovação pela televisão, a série resgata elementos recorrentes do gênero investigativo sem se desvincular da base de juntar pistas, realizar inquéritos e investigar cenas de crime. “Eles fazem tudo isso, mas de maneira divertida. É como se o crime fosse pretexto para fazer humor”, conclui Chauvin.

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