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Peça ‘Galileu e Eu’: Negacionismo X Ciência
Em Cena
24 jul 2020 | Por Juliana Alves (juliana_mendonca@usp.br)

Atrás, uma parede simples, em sua frente, uma cadeira de madeira. Com roupa preta, em contraste com a face e mãos claras. O cabelo preso e a maquiagem simples, ao contrário de seus gestos e olhares expressivos. Sozinha, porém com mais de 28 mil expectadores, Denise Fraga fez uma adaptação emocionante de Galileu e Eu – A Arte da Dúvida.

Longe dos palcos e dos camarins dos teatros, a atriz transformou a peça A vida de Galileu, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, em um monólogo apresentado em tempo real no YouTube. Por meio do Sesc São Paulo, milhares de pessoas tiveram a experiência de acompanhar um palco virtual e matar a saudade de assistir, dos “camarotes” da sala de casa, um belo espetáculo.

 

Adaptação

É claro que não estar em um anfiteatro tem algumas diferenças. A atriz teve que fazer alguns ajustes a fim de que o público tivesse a melhor experiência possível. Embora nos primeiros minutos a câmera tenha desfocado a imagem e a acústica às vezes não tenha sido tão harmônica, não houve prejuízos ao monólogo. 

A produção caseira, muito criativa por sinal, fez com que Denise utilizasse objetos simples para descrever, de maneira mais didática, as ideias do cientista Galileu à plateia. Por exemplo, ela manuseou uma vasilha de metal para representar o Sol, e uma maçã para a Terra. Além disso, conseguiu improvisar efeitos cenográficos utilizando pedaços de papel como confete e abajur para iluminação em uma das cenas.

Denise Fraga interagindo com objetos na peça "Galileu e Eu". [Imagem: Reprodução/Youtube]

[Imagem: Reprodução/Youtube]

Antes de começar a peça, Denise fez alguns comentários sobre a biografia elaborada por Brecht sobre Galileu e semelhanças entre os dois. Por exemplo, as peças do dramaturgo foram proibidas e seus textos queimados, já Galileu sofreu censuras da Igreja contra as descobertas científicas.

 

Enredo

O espetáculo tem como cenário a Itália no século 17, período em que se acreditava no sistema ptolomaico, a qual defendia que a Terra estava no centro do Universo e, ao redor dela, havia oito esferas de cristais. Tese que Galileu questionava, mas não havia provas para contrariá-la.

A peça aborda também aspectos pessoais de Galileu, a exemplo de como ele vivia pleiteando, sem sucesso, aumento de salário na Universidade República de Veneza, que protegia a liberdade científica dos olhos da Santa Inquisição. 

Até que o cientista italiano consegue aperfeiçoar o telescópio e observa as montanhas da Lua, a parte iluminada e as sombras, uma prova de que a Terra gira em torno do Sol. Galileu enfrentou diversos obstáculos para propagar suas teorias, principalmente da Santa Inquisição. O cientista era proibido de ensinar a verdade, já que essas ideias poderiam gerar dúvidas contra o dogmas da Igreja. A biografia do cientista é realizada com enfoque da trama entre ciência e o poder.

De maneira equilibrada a atriz transitou entre personagem (Galileu) e narrador, e às vezes fez comentários pessoais. Com uma performance impecável, Denise comoveu e interagiu com o público de várias formas, como perguntas: “Quem de nós não precisou negar o óbvio para seguir adiante?”. E convidou todos para participar da história: “Nós temos apenas hipóteses e precisamos de provas! Nós precisamos provar o que está proibido”.

[Imagem: Reprodução/Youtube]

[Imagem: Reprodução/Youtube]

Durante a peça foi possível notar temáticas atuais, como o negacionismo da ciência, o poder e a censura. A atriz ainda fez críticas sobre esses assuntos pertinentes, de forma silenciosa, por meio de cartazes em defesa à democracia, e também barulhenta, como o panelaço. Assim, um grande nome da dramaturgia brasileira, Denise Fraga, mostrou as duas faces do teatro: emocionar e promover reflexões ao público.

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