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Peças no ringue – A inusitada união entre boxe e xadrez
ARQUIBANCADA
04 mar 2020 | Por José Higídio (zehigidio@usp.br)

Gancho de direita, cruzado de esquerda e… cheque? O boxe é um esporte de combate e contato pleno, no qual força e resistência física são fundamentais. Já o xadrez é um esporte de tabuleiro pautado na estratégia, tática e raciocínio lógico. Duas modalidades aparentemente bem distintas e singulares, mas que já foram extravagantemente reunidas em uma só. O boxe-xadrez, também chamado de boxadrez, reveza rodadas dos dois esportes dentro de um ringue, misturando adrenalina e concentração da forma mais inesperada possível.

 

Como lutar-jogar?

Para se vencer no boxe-xadrez, basta triunfar em apenas uma das modalidades. Para tal, são disponibilizados 11 rounds, sendo seis de xadrez e cinco de boxe intercalados (o primeiro e o último sempre de xadrez), cada um com três minutos de duração. As partidas raramente chegam à 11ª rodada.

Entre os rounds há um intervalo de um minuto no qual são feitos os preparos para a prova seguinte. Durante ele, tabuleiro, mesa e bancos são posicionados ou retirados do ringue, e os atletas alternam entre colocar e tirar as luvas de boxe ou os fones usados para isolar o barulho da plateia.

boxe-xadrez

Posicionamento dos atletas durante um round de xadrez [Imagem: Keystone]

Uma partida de xadrez tradicional não tem intervalos e costuma demorar mais do que três minutos. Sendo assim, nos seis rounds do boxadrez é disputado um único jogo, com nove minutos de tempo no relógio para cada atleta. Assim, tanto o cheque-mate quanto a extrapolação do limite de tempo podem acabar com a disputa nesta modalidade.

O nocaute é a principal forma de vitória pelo boxe. Mas os pontos da luta podem determinar o ganhador caso o jogo de xadrez termine empatado. Se mesmo assim ainda houver empate, o atleta que usou as peças pretas (considerada uma desvantagem já que as brancas possuem o primeiro movimento) é declarado vencedor.

 

A mirabolante concepção

O boxe-xadrez foi colocado em prática pelo artista performático holandês Iepe Rubingh em 2003. Ele foi responsável por desenvolver as regras do esporte, bem como organizar a primeira partida – da qual participou e ainda saiu vitorioso. Hoje em dia, ele é presidente da Organização Mundial de Boxe-xadrez e CEO da Chess Boxing Global, companhia de marketing da modalidade.

Jogador de boxe-xadrez após vencer um campeonato

Iepe Rubingh após vencer o primeiro campeonato de boxe-xadrez em Amsterdam [Reprodução / Chess Boxing Global]

A ideia de uma fusão das duas modalidades não pertence originalmente ao holandês, mas sim ao quadrinista francês Enki Bilal. Sua graphic novel de 1992, Froid Équateur, retratava uma competição que mesclava esses esportes. Na história, entretanto, ocorria um confronto inteiro de boxe antes da disputa de xadrez. Rubingh resolveu fazer adaptações para tirar o conceito do papel.

Mas existem também relatos de práticas de xadrez após os treinos em uma academia de boxe dos arredores de Londres no anos 1970, uma iniciativa dos irmãos James e Stewart Robinson. A experiência teve curta duração – não passou de dois anos – mas foi no mínimo influente, no sentido de espalhar o termo que dá nome ao esporte em inglês, chessboxing.

Afinal, o filme honconguês de artes marciais Shuang ma lian huan, lançado em 1979, foi traduzido nos EUA para Mystery of Chessboxing (“Mistério do Boxe-xadrez”). A película ainda serviu de inspiração para a canção de 1993, Da Mystery of Chessboxin’, do famoso grupo americano de rap Wu-Tang Clan. Curiosamente, nenhuma das obras menciona qualquer coisa relacionada a boxe-xadrez.

Tim Woolgar, fundador e diretor geral do Clube de Boxe-xadrez de Londres, afirma ter conhecido os irmãos Robinson. Segundo ele, suas conversas com os atletas revelaram que a prática exercida naquela época se encaixa perfeitamente com as sessões de treinamento de boxe-xadrez vistas no mundo atualmente, com a exceção de que o tabuleiro não era trazido para dentro do ringue.

Tim reconhece Iepe Rubingh como o “progenitor do boxe-xadrez moderno”, mas acusa a Chess Boxing Global de tentar minimizar o papel dos ingleses na criação do esporte. Para ele, a companhia tem interesses comerciais em manter sua imagem como “inventora” da modalidade, e os britânicos seriam um obstáculo para isso.

 

Conquistando o mundo?

Apesar de parecer bizarro, o boxe-xadrez não ficou restrito à Holanda de Iepe ou à Inglaterra de Woolgar. Desde 2003, foram realizados diversos torneios para as diferentes categorias de peso, incluindo os mundiais. Apesar de se concentrarem na Europa, existem atletas e organizações oficiais em todos os cantos do globo.

A Índia não ficou fora dessa expansão. Montu Das conta que já era atleta de kickboxing, e descobriu o boxadrez através de uma simples pesquisa no Google. Decidiu, então, aderir à modalidade, e fundou em Calcutá a Organização de Boxe-xadrez da Índia, da qual ainda hoje é presidente.

O esporte chegou até mesmo ao Brasil… pelo menos para uma pessoa. Jorge Fakhouri conheceu a modalidade através de uma matéria na televisão. Já jogava xadrez e logo começou a treinar boxe, assim seu interesse pela fusão dos dois o levou a pesquisar mais a fundo. Ele chegou a entrar em contato com Iepe e, por vídeo, informou e demonstrou suas habilidades nos dois esportes. Desde então, vem participando de rodas de discussão com representantes de outros países. Tornou-se, assim, o primeiro – e até agora o único – brasileiro a demonstrar interesse pelo boxadrez.

Jorge vem treinando as duas modalidades na esperança de um dia competir oficialmente. Isso até hoje não foi possível devido, principalmente, à falta de recursos para realizar uma viagem internacional. Mas ele segue confiante: “Acredito que, assim que tiver condições, não tardará muito para vir algum convite. Há muitos nomes de sucesso entre os pesos pesados e os principais organizadores já sabem do meu interesse”.

Melhores momentos do Mundial de Boxe-Xadrez de 2008, realizado na Alemanha

Mas como esse esporte alcançou tamanha difusão sendo assim tão excêntrico? “Os públicos de cada esporte são bem distantes um do outro, mas isso não quer dizer que a junção das modalidades afasta mais o público. Vai sim exigir que esse público ao menos compreenda um pouco de cada um dos esportes”, opina Fakhouri. “O que vejo nas competições oficiais é que muitos não sabem nada de xadrez. Mas os locutores comentam essa parte com tanto entusiasmo, que mesmo quem não compreende o jogo consegue se colocar na pele de cada jogador e sentir a tensão que uma partida de xadrez pode provocar. Esse mix de sensações tem sido algo inovador e tem feito o esporte crescer cada vez mais! Os ingressos esgotam muito rápido e há muita procura!”

O fundador do Clube de Londres diz que o esporte tem o interessante efeito de, ao mesmo tempo, atrair e afugentar certos públicos. Segundo ele, sua audiência é formada por “pessoas mais abertas e tolerantes a novas formas de se aproximar de eventos tradicionais”.

 

A encantadora mescla entre físico e mente

Woolgar explica o que mais lhe encanta no boxadrez: “É um esporte criativo, já que a criatividade é um componente essencial do xadrez e do boxe. Também cria uma boa atmosfera e transforma os participantes e fãs em amigos”. Já Montu Das vê a modalidade como uma forma de equilíbrio corporal: “Em um único esporte, tanto o poder da mente quanto a aptidão física precisam ser desenvolvidos”.

“A beleza do boxe-xadrez está justamente em cutucar vaidades tão presentes em todo esportista. No caso do boxe é a superação física e bruta frente ao oponente; e no caso do xadrez, a superação lógica e mental. Acho incrível essa transição de um round de boxe exaustivo com socos para todos os lados para, dali alguns instantes, a luta se travar em um ambiente completamente cordial como o tabuleiro de xadrez”.

Esta fala de Fakhouri demonstra de que forma o boxadrez, mesmo sendo tão inusual, pode seduzir o atleta e o fã de esporte. O caráter lúdico e divertido presente na própria ideia de se juntar modalidades tão distintas acaba se refletindo na construção de um gosto e uma paixão esportiva. 

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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