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Quais são os novos clássicos do cinema?
CINÉFILOS
16 maio 2020 | Por André Derviche (andrederviche99@gmail.com)

Como todo tipo de arte, as obras do cinema marcam épocas. Seja por meio das inovações técnicas de seu tempo ou por uma narrativa inesquecível, são vários os filmes que se tornaram únicos ao longo da história. E não é porque não vivemos na era de ouro do cinema que não podemos presenciar o surgimento de novos clássicos. Muito pelo contrário. Os últimos anos vêm mostrando que o cinema moderno ainda é capaz de transmitir mensagens únicas com perfeição suficiente para serem eternizadas.

Quando falamos de clássico, a primeira ideia que vem na cabeça da maioria remonta filmes em preto e branco com uma história familiar e um ritmo menos frenético se comparado ao de produções atuais. Em partes, muito disso se confirma. Obras como Casablanca (1942), Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952) e Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) talvez sejam aquelas que melhor representam essa ideia. No último caso, especificamente, é impossível não mencionar o quão inovador o clássico de Orson Wells foi para a sétima arte.

Para entendermos melhor a importância cinematográfica de Cidadão Kane, Max Valarezo, do canal Entre Planos, comenta: “uma das coisas que faz Cidadão Kane ser um filme tão celebrado até hoje é justamente sua inovação de linguagem, a forma como ele trouxe enquadramentos ou planos longos. Não que tivesse inventado, mas ele conseguiu unificar diversas ideias que ainda não eram prevalecentes. A linguagem cinematográfica que nós já vimos diversas vezes deve muito ao que Cidadão Kane fez no começo”.

 

O longa de 1941 nos conta a história de Charles Kane e sua ascensão como magnata da imprensa [Imagem: Reprodução]

O longa de 1941 nos conta a história de Charles Kane e sua ascensão como magnata da imprensa [Imagem: Reprodução]

A parte técnica não foi destacada por acaso. A fotografia de Gregg Toland é revolucionária ao desenvolver o método de profundidade de campo, o qual possibilita que o olho do espectador se fixe em qualquer ponto da imagem. Com uma história brilhante, o longa ainda cativou seu público por muito tempo: em 1998, 57 anos após seu lançamento, o American Film Institute o considerou como melhor filme já produzido.

Mais tarde, era lançada outra obra icônica das telonas. Cantando na Chuva é lembrado com símbolo máximo dos musicais na sétima arte. O ar nostálgico combinado a um enredo metalinguístico aqui são usados para remontar a ascensão de uma era glamourosa em Hollywood. Como resultado, uma obra essencialmente única, com sequências musicais difíceis de esquecer.

Assim, o longa de 1952 alcançou dois feitos fundamentais para se tornar um clássico do cinema: consolidou-se à sua época e ecoou em produções posteriores. Uma delas chegou às salas de cinema em 2016. Dirigido pelo novato Damien Chazelle, La La Land: Cantando Estações (2016) foi tido como uma verdadeira homenagem aos clássicos da era musical em Hollywood. A atmosfera otimista, leve e inspiradora não apenas contribuiu para a escolha do filme como favorito ao Oscar de 2017, mas também se mostrou como um elemento bom o suficiente para transformar o filme em clássico moderno.

Ainda assim, é difícil ter certeza de que uma obra cinematográfica irá consolidar-se como clássica pelos anos posteriores. Sobre isso, Max afirma: “eu não acredito nessa expressão ‘clássico instantâneo’, porque quando se fala em clássico, é preciso ter um certo distanciamento temporal do filme. A questão é: quanto tempo? 5, 10, 15 anos? Não existe uma fórmula certa”. Ao mesmo tempo, é impossível não notarmos o potencial que um longa tem para se eternizar na história.

Entre os grandes fatores que podem atribuir a um filme a alcunha de clássico temos os já tradicionais reboots e remakes. Nos últimos anos, o que não faltam são casos assim. Star Wars, Indiana Jones e Exterminador do Futuro são só algumas franquias populares revividas neste século. Contudo, ainda há duas histórias que se destacam nesse cenário.

Desde seu lançamento, Blade Runner 2049 (2017) já se mostrou como grande surpresa. Continuação de um dos maiores símbolos da ficção científica nos cinemas, Blade Runner: O Caçador de Andróides (1982), o longa de 2017 conseguiu alcançar rara proeza entre tantos casos de rememorações de clássicos: honrou os fatores que fizeram o original de 1982 se consagrar como único e encontrou originalidade ao unir novas tecnologias a uma história essencialmente interessante. 

 

A relação entre o replicante K (Ryan Gosling) e Joi (Anna de Armas) é destacada pela fotografia de Roger Deakins [Imagem: Reprodução]

A relação entre o replicante K (Ryan Gosling) e Joi (Anna de Armas) é destacada pela fotografia de Roger Deakins [Imagem: Reprodução]

Outro caso de continuação consagrada nas telonas foi lançado poucos anos antes. Em 2015, além de forte candidato a filme do ano, Mad Max: A Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015) ganhou rapidamente sua audiência com sequências de ação de tirar o fôlego e personagens no mínimo memoráveis. “É um filme que conseguiu impressionar muito pela sua qualidade técnica, pela sua qualidade de storytelling visual e pela sua energia. É um grande filme de ação. E é a continuação de uma franquia que se estabeleceu décadas atrás, isso não impede de se tornar um clássico”, opina Max lembrando dos outros três filmes da saga Mad Max lançados entre 1979 e 1985.

Ao longo da última década, com a ascensão de produções cinematográficas cada vez mais modernas, também se destacaram tecnologias milionárias para a criação de mundos. Porém, será que todos eles são lembrados até hoje? “Não acho que a inovação pela inovação seja o suficiente para fazer um filme ser clássico, porque às vezes você tem filmes que são pioneiros em aspectos técnicos, mas que ainda não tem um status, não são relembrados”, responde Max Valarezo.

De fato, longas como Projeto Gemini (Gemini Man, 2019) — com o dublê digital — ou O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012) — com 48 frames por segundo — tendem a não ser tão longevos quanto obras como Avatar (2009), por exemplo. Comandada por James Cameron, a produção de 2009 revolucionou a forma na qual os efeitos especiais inserem-se em um filme.

Assim como Avatar revigorou certas formas de se fazer cinema, a clássica saga Star Wars, por exemplo, com o primeiro longa lançado em 1977, mostrou que, nas telonas, não há limites quando se quer contar uma história. 

As pequenas revoluções, porém, não se limitam às tecnologias. Um desses casos foi Boyhood: Da Infância à Juventude (Boyhood, 2014), que impressionou os críticos por conta da forma pela qual foi realizado. Acompanhando um mesmo elenco durante uma gravação de 12 anos, o filme chegou como um dos principais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme, sendo lembrado até hoje pelo seu encanto e simplicidade.

Mais do que histórias fascinantes, uma obra da sétima arte jamais desconsiderou contextos de cultura e sociedade. E é nesse cenário que o cinema brasileiro sabe se destacar. Neste século, fizeram história Cidade de Deus (2002), Tropa de Elite (2008), Que Horas Ela Volta (2015) e Aquarius (2016), mas há um longa ainda mais recente que será bastante lembrado nos próximos anos. De 2019, Bacurau não impressionou somente pela sua estética e narrativas inovadoras, mas também pelos temas abordados.

“É um filme que vai ser lembrado pelo seu impacto e pela forma como ele capturou os tempos que estamos vivendo hoje no Brasil. Mas ele também vai dialogar com outras épocas, com outros contextos históricos, porque isso também ajuda um filme a ser um clássico: se manter constantemente atual, independentemente da época em que ele foi feito. Bacurau tem uma certa linha de crítica à xenofobia e ao imperialismo, essas são coisas maiores que podem nunca ir embora ou podem ir embora e voltar, porque às vezes, na história, as coisas funcionam de forma cíclica”, pontua Max.

 

As performances dos moradores de Bacurau refletem o melhor do cinema brasileiro [Imagem: Reprodução]

As performances dos moradores de Bacurau refletem o melhor do cinema brasileiro [Imagem: Reprodução]

Ainda no tom social que um filme pode estabelecer, por que não lembrar de obras que abordam essa questão de maneira menos explícita? Responsável por revelar o nome de Jordan Peele para a indústria de filmes, Corra! (Get Out, 2017) combinou elementos do terror clássico com críticas sociais ao racismo institucionalizado e um toque de humor ácido para criar uma das obras mais arrebatadoras da década. 

Se por um lado Hitchcock revolucionou a sétima arte ao mostrar como prender o espectador ao espetáculo pelo suspense e terror, Corra! apresentou um outro lado social do cinema como arte. Mais um forte concorrente a clássico moderno. “Essa permanência temática do filme, independente do contexto no qual ele foi feito, se ele continua dialogando com os tempos, isso o ajuda a ter uma permanência como um clássico também”, comenta Max.

Já podemos concluir que para um filme se eternizar, não bastam somente suas características intrínsecas, mas também a forma pela qual que ele é recebido.

Em 1971, chegava aos cinemas Laranja Mecânica (A Clockwork Orange). Obra prima de um dos maiores diretores da história, Stanley Kubrick, o longa não abriu mão de chocar sua audiência. O resultado, em meio à hostil ordem bipolar da Guerra Fria, não podia ser outro: a pedido do próprio Kubrick — irritado com críticas à atmosfera ultraviolenta de seu filme — a obra saiu de cartaz na Inglaterra, só voltando a ser exibido em 1999, após a morte do cineasta. Em um Brasil imerso no regime militar, uma história semelhante: Laranja Mecânica só fora liberado em 1978, sendo alvo de omissões propositais.

 

Alex (Malcom McDowell) e sua gangue antes de uma noite de ultraviolência [Imagem: Reprodução]

Alex (Malcom McDowell) e sua gangue antes de uma noite de ultraviolência [Imagem: Reprodução]

“Você tem diretores que todos os seus filmes vão se tornar clássico”, afirma Max. Certamente a forma única com a qual Stanley Kubrick lidou com a distopia de Burgess (autor do livro homônimo que deu origem ao filme) nas telonas contribui para que Laranja Mecânica seja, até hoje, lembrado como ícone do cinema. Porém, os fatores externos às telas simultaneamente impulsionam esse processo.

“O filme também tem que ter uma ressonância com o público para se tornar memorável”. À primeira vista, a tal “ressonância com o público” citada por Max Valarezo pode ser alcançada pela autenticidade deste filme. Como fazer com que ele continue sendo visto e revisto por muito mais tempo? Um final chocante? Uma trama ambígua? Combinar alguns desses elementos pode ser uma boa aposta.

Nesse caso, vale a pena lembrar do cultuado Clube da Luta (Fight Club, 1999), do famigerado Donnie Darko (2001) ou até de A Origem (Inception, 2010). Esses foram filmes que marcaram sua época e ainda são muito comentados pelos temas abordados e pelas provocações propostas a seus respectivos públicos.

“Um clássico é um filme que a gente coletivamente quer passar adiante, a gente ativamente acha importante preservar e passar para as próximas gerações, às vezes porque é um filme que representou muito bem a época na qual ele estava inserido, às vezes é um filme só pelo poder da sua narrativa, pela forma como ele construiu uma cena, ele cria um momento icônico e emblemático”, afirma Max.

Em meados da década de 90, por exemplo, O Rei Leão (The Lion King, 1994) e Toy Story (1995) revolucionaram o cinema pela forma como contaram histórias em animações. Anos depois, Wall-E (2008) manteve a Pixar no topo das produções animadas trazendo uma temática que reflete seu tempo: a conflituosa relação entre homem e natureza.

 

O carisma do robô Wall-E conquistou a audiência [Imagem: Divulgação]

O carisma do robô Wall-E conquistou a audiência [Imagem: Divulgação]

Há também casos de filmes que se consagram por serem verdadeiras homenagens à gêneros e obras de tempos mais antigos. Nesse caso, premiadas pela crítica, duas podem ser as obras de destaque. A primeira delas remontou o clima noir do cinema principalmente das décadas de 1950 a 1970. Ambientado na poética Los Angeles do século 21, Drive (2011) conversa diretamente com Taxi Driver (1976), clássico maestral de Martin Scorsese.

De outro lado, como falar de clássico moderno sem mencionar o nome de Tarantino? O cineasta norte-americano contribuiu para revigorar o gênero de western com Django Livre (Django Unchained, 2012). Na trama, Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto que busca salvar sua esposa das mãos do famoso fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Para isso, ele será acompanhado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Com um elenco estrelado e uma trama envolvente, que não abre mão de questões sociais abordadas ao melhor estilo tarantinesco, Django Livre certamente será lembrado como um marco para o cinema de faroeste.

“Um clássico é um filme que a gente coletivamente quer passar adiante, a gente ativamente acha importante preservar e passar para as próximas gerações”, afirma Max Valarezo. Assistir a um filme recente e imaginar como ele será recepcionado em seus anos seguintes é certamente um exercício interessante de se fazer para entendermos a natureza artística do cinema. Compreender como e porque ele representou a época na qual ele estava inserido igualmente. Nos últimos anos, são várias as mensagens que o cinema passou para seu espectador, e tentar captá-las é mais um passo para apreciarmos a sétima arte.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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