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Qual o valor do Funk?
Escuta Aí
02 dez 2020 | Por Guilherme Gama (guilhermegama@usp.br)

O som produzido nas periferias brasileiras incomoda a vizinhança mais privilegiada que é insistente em associar a cultura do funk à criminalidade. Sob essa lógica da classe média, o funkeiro é “bandido”, a música é de “favelado”, as roupas são de “marginal” e a favela seria lugar desprovido de cultura e marcado pelo crime. Porém, essa associação não vem de graça. Ela parte de uma estrutura social moldada pelos preconceitos e estereótipos.

O interessante é que, apesar disso, a música de favelado, nos últimos anos, tem tido suas exceções. Ela tomou as caixas de som e os fones de ouvidos dos bairros mais ricos, até dos mais distantes da periferia. E não, não foi assalto. A arte das comunidades se popularizou de maneira generalizada no Brasil, sendo mais aceita pelos grupos que não vivem a realidade que molda essa manifestação. De mesmo modo, essa desassociação não vem de graça. Ela tem um preço e para consultar o valor do funk, na sua realidade e fora dela, no morro e nos palcos do Rock in Rio, vozes desse contexto analisam a questão. 

 

Dentro da Favela

“O funk é cultura periférica, mais especificamente, negra”, diz Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, funkeiro, periférico e estudante de ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP). O caráter cultural do funk está na manifestação dada por meio da música, como forma de expressar um conjunto de hábitos, costumes e tradições, em um contexto de produção social. “Muitas vezes você ouve e é natural para você, todo mundo ao seu redor está ouvindo”, completa Thiago.

Mas, porque periférica e negra? Esse gênero musical tem origem na periferia carioca, na década de 1980, derivado da ruptura com o que se entende como funk tradicional. Porém, as raízes da música estão em solo africano. A batida base da composição é original dessa região. Chavoso diz que “ela mantém viva um pouco da cultura africana no nosso país, isso é símbolo de resistência da cultura negra nas periferias, que têm maioria da população negra, sendo uma conexão ancestral que se reflete também nas danças”. 

O estilo se moldou ao cenário suburbano do sudeste brasileiro e passou a caracterizar a cultura da favela. “O funk tem um papel muito grande de trazer ânimo para nossas vidas”, conta o estudante. Para ele, trata-se de um estilo musical comemorativo, festivo e alegre, e destaca que até “o funk consciente” — uma vertente do estilo mais direcionado a críticas sociais — traz positividade, esperança e força. “É um estilo muito para cima”, reitera.

MC Lynne, cantora e compositora, diz que vê o funk consciente como “uma ferramenta que dá voz aos segregados, trazendo o favelado para os holofotes e transformando vidas”. Ela afirma que, através dele, canta sua história. A MC, criada na comunidade, afirma que o funk lhe deu oportunidade na vida e seu exemplo é dado como esperança; “inspirando e mostrando as possibilidades nesse contexto tão desigual”. Além disso, ela diz que pelas letras, conta a vida e a luta da comunidade, não apenas como forma de denúncia, mas também como protesto.  

O último clipe da MC Lynne, 'Tenera', da produtora Kondzilla, com dois dias de lançamento já ultrapassava  90 mil visualizações. [Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal - Mc Lynne]

O último clipe da MC Lynne, ‘Tenera’, da produtora Kondzilla, com dois dias de lançamento já ultrapassava 90 mil visualizações. [Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal – Mc Lynne]

Quando o assunto é o alcance desse gênero, Chavoso ainda diz que “o funk chega em muitos lugares, e ter essas vozes chegando em ‘lugares abandonados’ é muito importante, seja para levar esperança, um mínimo de alegria para vidas tão sofridas, seja para refletir sobre a realidade social difícil”. Para ele, o funk é extremamente importante em todos esses sentidos.

 

O funk fora da favela

Há alguns anos o funk não se limita às periferias. Desde sua origem, na verdade, o som da favela já chega aos ouvidos dos grupos centrais e privilegiados. Ele carrega um estigma de inferioridade, atribuindo à batida, ao bonés e aos óculos Juliet a ideia subordinada de associação à criminalidade, o que sustenta uma imagem depreciada da música.

Levi Kaique Ferreira, militante do movimento negro e criador de conteúdo, defende que o racismo é responsável pela associação do gênero com a criminalidade, o que leva à sua marginalização. Por conta do preconceito racial, não só o funk, mas como toda cultura que tem origem preta é demonizada de diversas formas, explica Levi. “Teve criminalização do samba, da capoeira, do rap etc. Todas as culturas marginalizadas sofrem repressão pela necessidade de rebaixar tudo que vem do preto, parte dela é não enxergar isso como cultura”, diz. 

De todo modo, como diz Thiago, o som que antes era de preto e favelado, mal visto fora do seu contexto, hoje é mais aceito. Em concordância, Levi vê o ritmo alcançando cada vez mais públicos. Ele cita projetos como a Kondzilla, produtora de vídeo relacionada ao funk, que produziu com a Netflix uma série de cunho internacional. Sintonia (2019) fala sobre a realidade da periferia e a realidade dos jovens que usam a manifestação cultural do funk também como uma denúncia, uma forma de mostrar a realidade, afirma Levi.  

Protagonistas da série 'Sintonia', da Netflix em parceria com da produtora Kondzilla, primeira a tratar do funk no Brasil. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Protagonistas da série ‘Sintonia’, da Netflix em parceria com da produtora Kondzilla, primeira a tratar do funk no Brasil. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Em 2019, pela primeira vez o funk tocou no palco do Rock in Rio, pela voz da cantora Anitta. De todo modo, a valorização dessa cultura, que vem ocorrendo com o aumento da visibilidade dos MCs e a internacionalização do funk como cultura brasileira, como diz Thiago, não é bem vista por ele. “Não vejo bem o funk crescendo através de um esvaziamento das essências das origens dele”, e destaca a própria Anitta nesse meio. 

“Anitta transforma Rock in Rio em baile funk e explode internet” foi a manchete da Revista Fórum. [Imagem: Marta Ayora/TMDQA!]

“Anitta transforma Rock in Rio em baile funk e explode internet” foi a manchete da Revista Fórum. [Imagem: Marta Ayora/TMDQA!]

Essa popularização teve um custo. De acordo com Levi, a aceitação nacional do funk se deu quando a branquitude passou a ver nele um interesse lucrativo. A isso, Chavoso chama de mercantilização do funk, entendido como um processo industrial, no qual os grupos dominantes na sociedade se apropriam de uma produção de grupos subalternos e fazem dinheiro com isso. 

Ele exemplifica com a produtora Kondzilla, a qual vê com olhos diferentes de Levi. De acordo com Thiago, ela faz parte do conjunto de grandes indústrias musicais que, no caso do funk paulista, o higieniza, ao retirar palavrões, conteúdo erótico, sobre drogas e crime, e optar por mascarar e maquiar os problemas, fingindo que não existem. “Vão falar sobre dança, roupas, bebidas, motos, e pronto, dá para vender”, critica. 

MC Lynne, que é artista da produtora criticada por Thiago, diz que entende as críticas e a complexidade do assunto e que a representatividade que o funk traz não pode ser esquecida. “Falo sobre o meu lugar de fala no funk. Apesar de branca, sou mulher e periférica”, afirma a cantora, e deixa claro que prefere não se pronunciar quanto à empresa. A produtora Kondzilla foi procurada, mas não retornou o contato. 

 

Cultura quando convém

Quando o assunto é lucro por arte e cultura, destaca-se o conceito de Indústria Cultural dos filósofos alemães Adorno e Horkheimer. Sob essa ideia, o funk pode ser visto como algo que é cultura apenas quando convém, ou seja, quando há consumidores dispostos a pagar por isso. Thiago destaca que não é culpa da classe média consumir o funk, usar óculos juliet ou fazer “risquinho” na sobrancelha, pois, na verdade, apropriar-se dessa manifestação é um esforço dos grupos dominantes. Mas, alerta: “Não adianta, você pode tentar se aproximar, mas é uma cultura carregada de vivência. Toda cultura é reflexo da realidade de um povo, o funk é retrato da favela”.

Além disso, o estudante afirma que a maioria dos MCs que fazem sucesso nacional são brancos, quando, na realidade, a periferia é negra, e os artistas que são ouvidos nela também: “Os que fazem sucesso fora dela dificilmente fazem sucesso dentro, o rosto negro não é vendível no mercado.” Segundo ele, a questão é comparável a grandes indústrias que se apropriam de turbantes e estampam mulheres brancas com o produto em capas de revistas. Do mesmo modo, cantores e dançarinas brancas compõem os clipes de funk pop. À medida que esse subgênero cresce, ele também de distancia do que é a favela. Para Levi e Chavoso, ocorre um esvaziamento da cultura do funk, sua roupagem é customizada às demandas do mercado, o que retira sua essência e origem a troco de lucro. 

Mas, o que precisa mudar? “O funk precisa urgentemente dar uma pausa nesse embranquecimento da cultura. Não tem que rolar essa do funk como um produto da indústria cultural. E respeito, nossa cultura é muito desrespeitada, tratada como coisa de bandido, como inferior, como não cultura”, pontua o Chavoso.

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