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Resistir com arte: Violência doméstica e estigmatização
Eu Fui
04 ago 2016 | Por Jornalismo Júnior

Continuando o debate a respeito das mulheres, o segundo dia da 1º Mostra de Mulheres e Cinema deu enfoque ao tema Estigmas e Libertação: discutindo a violência contra a mulher e sua representação. Com a exibição de três curtas-metragens abordando diversos assuntos sob o ponto de vista das mulheres, foi dado destaque, principalmente, à violência doméstica e à naturalização dos estigmas.

O curta “Viver de Mim”, de Juily Manghirmalani, apresenta cinco vozes femininas que mostram o que é ser mulher sob diferentes aspectos. Dando voz à mulheres negras, trans, lésbicas, de diferentes idades e classes sociais, o filme quebra esteriótipos ao mostrar essas mulheres comentando sobre temas, ainda hoje, considerados “tabus”, como sexo, orgasmo e masturbação. Além disso, falam sobre casamento, maternidade e o que é ser mulher na sociedade atual.

Em “Quem matou Eloá?”, de Livia Perez,  o caso que repercutiu o Brasil em 2008 é abordado sob a ótica da mulher, do feminismo e da violência contra a mulher. Criticando a espetacularização realizada pela grande mídia, o curta denuncia a estigmatização da representação feminina e ressalta como elas são construídas pelos olhos dos outros: apesar de tudo, sempre serão as culpadas, até mesmo pela própria morte.

Por fim, “Atadas”, da curadora do evento Tarsila Nakamura, apresenta o depoimento de duas mulheres que foram alvo da violência doméstica. Apesar de curto, tem apenas seis minutos, o filme consegue transparecer o que essas mulheres sentiram. Mesmo acuadas, desvalorizadas e com a alto estima baixa, elas mostram que sempre há uma saída, mesmo o quão difícil isso possa parecer.

 Esteriótipos: construção da sociedade machista e patriarcal

Mesa discutiu também as leis que protegem as mulheres: Lei Maria da Penha e Lei do Feminicidio. Imagem: Beatriz Arruda

A mesa foi composta pelas diretoras dos curtas apresentados: Tarsila Nakamura, Livia Perez e Juily Manghirmalani. Além disso, contou com Marina Ganzarolli, advogada e co-fundadora da DeFEMde – Rede Feminista de Juristas; Camila Caringe, jornalista e editora do site Versa Maria; e a mediação da cientista social e jornalista, Mônica Duarte Bulgari.

Marina abordou aspectos jurídicos da violência contra a mulher. Comentou sobre a Lei Maria da Penha, um dos marcos mais avançados na luta contra a violência doméstica, que completa 10 anos no domingo e abarca cinco tipos de violência: moral, física, sexual, psicológica e patrimonial. Ressaltou que, diferentemente da Lei Maria da Penha que abarca a violência no âmbito familiar e afetivo, a Lei do Feminicidio, de 2015, vai além, já que não envolve apenas as relações do ambiente doméstico. Destacou ainda que ambas as lei são avançadas no plano formal, mas a realidade é bem diferente. Juízes, policiais, promotores e delegados ainda fazem pouco caso de muitas denúncias e situações que envolvem a violência contra a mulher, além das penas serem menores nos chamados “crimes passionais”, como se eles se enquadrassem numa posição diferente de outros assassinatos. Segundo ela,  isso decorre da sociedade machista e patriarcal em que vivemos: “O machismo e o patriarcado não são só estruturais, eles são estruturantes”. E afirmou: “Ninguém mata por ciúmes, ela é assassinada por ser mulher”.

Já Camila representou as mulheres que já estiveram em um relacionamento abusivo e que sofreram com a violência física. Contou sobre a vez em que se recusaram a registrar a sua queixa em uma Delegacia da Mulher e destacou que quando uma mulher resolve fazer a denúncia é por já ter sofrido demais. Também chamou atenção para o fato de que quando se fala de representatividade na política ou na ciência, por exemplo, acham que se está falando de números: “Não é só a quantidade, nós precisamos de mulheres empoderadas ”. Afinal, de que adiantaria 51% de mulheres machistas? E ressaltou que é preciso olhar para todas as mulheres: lésbicas, bissexuais, negras, indígenas e trans. Não apenas para as brancas, cisgêneras e heterossexuais.

As convidadas também evidenciaram que não há um perfil de agressor. Relembraram que Johnny Deep, Woody Allen e Polanski também já estiveram neste papel. Livia e Juily afirmam que, nesses casos, não conseguem separar a pessoa do seu trabalho.

A discussão também envolveu esteriótipos que existem desde a infância e que constroem um discurso muito difícil de quebrar. Ganzarolli, ressaltou que os meninos são ensinados, desde crianças, que podem bater e as meninas, que precisam ser “belas, recatadas e do lar”. A romantização do estupro foi outro ponto importante, evidenciando que a mídia tem uma papel fundamental na formação do pensamento da sociedade.

Projeto Atadas

Em conversa com o Sala 33, Tarsila contou que a ideia do curta “Atadas” surgiu quando frequentava encontros coletivos no Centro de Referência da Mulher (CRM). O principal objetivo é mostrar que qualquer mulher pode sofrer com a violência doméstica, já que se tem um esteriótipo de que apenas mulheres negras, pobres e periféricas sofrem com isso. “Toda e qualquer mulher, independente de classe social ou de nível acadêmico, pode viver algo assim”. O Projeto Atadas vai virar uma web série até o final do ano, retratando outros casos que não couberam no curta-metragem. A finalidade é impactar o maior número de mulheres e fazer com que elas se sintam representadas e tocadas com a questão da violência.

Curadora do evento, a escolha dos filmes partiu do edital Carmen Santos, do Ministério da Cultura, de 2013. O edital promovia filmes dirigidos por mulheres, com uma equipe feminina e que abordassem algum tema relacionada aos direitos da mulher e direitos humanos. Além de selecionar filmes do edital, ela também procurou por filmes que englobassem outras pautas, como o Movimento Negro. Sobre ações como o Resistir com Arte, Tarsila acredita que esse é o momento certo para que elas aconteçam: “Agora é o momento de nós aproveitarmos que está todo mundo muito a fim de discutir, de falar, de ouvir. É repetir, é fazer pensar e discutir para que isso se espalhe cada vez mais.”

Quem matou Eloá?

A ideia de “Quem matou Eloá” surgiu da indignação de Livia Perez com a cobertura da mídia na época do crime, que não conseguia se sentir representada por nenhum dos jornais ou matérias da imprensa. Após oito anos e alguns avanços, ela acredita que a imprensa ainda explora muitos casos de violência contra a mulher, principalmente quando se trata das minorias: “Os crimes de violência continuam sendo muito explorados nos programas de televisão e nos jornais, dependendo do aspecto de raça, de etnia e de classe social das vítimas.”

Acredita que filmes que tratem da mulher são essenciais, mas filmes que tragam o ponto de vista da mulher já ajudam na pluralização das visões de mundo: “Mesmo que sejam filmes que, aparentemente, não abordem a questão da mulher, mas que sejam feitos por mulheres, vão trazer uma série de códigos estéticos e de escolhas de narrativas que vão, de alguma forma, representar ou contemplar as questões femininas.”

Programação do ciclo de encontros Resistir com Arte

04/08 – Pra lá das formas prontas: o empoderamento de crianças, gêneros e feminismos

05/08 – Empoderamento e Raça: o protagonismo da mulher negra na produção audiovisual

06/10 – Mulheres e Dança

Por Beatriz Arruda
beatriz.arruda12@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
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