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Rock in Rio: eclético como o povo quer
Escuta Aí
06 out 2019 | Por Júlia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br) e José Higídio (zehigidio@usp.br)

Todos numa só direção, uma só voz, uma canção. Foi assim que começou o Rock In Rio VIII, no dia 27 de setembro. E embalado por um sonoro “uou, uou, uou” presente no imaginário de quase todos os brasileiros há 34 anos, o festival permanece sendo um sucesso dentro e fora do Brasil. Mas, se antes as bandas de rock atraíam multidões, hoje são nomes como Drake que fazem os fãs esgotarem os ingressos em poucas horas. Ainda que as polêmicas envolvendo o nome do rapper incluam cancelamento da transmissão de seu show e reclamações a respeito da infraestrutura, o evento é muito marcante para todos que nele se apresentam.

O início do festival se confunde com o ressurgimento da democracia no Brasil. No mesmo período de nascimento do Rock In Rio, entrava nos palcos da política brasileira Tancredo Neves: era o primeiro presidente civil a ser eleito após uma ditadura de 21 anos no país. Idealizado pelo publicitário e empresário brasileiro Roberto Medina, o evento foi realizado pela primeira vez entre 11 e 20 de janeiro de 1985. A relação entre a mudança de panorama político e o evento foi imortalizada na famosa frase do cantor Cazuza, dirigida ao público durante o histórico show da sua banda Barão Vermelho naquela ocasião: “Que o dia nasça feliz para todo mundo amanhã. Em um Brasil novo, uma rapaziada esperta”.

A multidão de cerca de 1,4 milhão de pessoas vibrava não só com as 14 atrações nacionais e 15 internacionais que se apresentaram, mas com o sentimento de esperança renovado. A primeira edição do que se tornou o maior festival de música do mundo foi embalada por grandes apresentações e sucessos incontestáveis: abrindo com Ney Matogrosso e passando por Iron Maiden, Queen, Os Paralamas do Sucesso, AC/DC, Ozzy Osbourne entre tantos outros. 

  Naquele ano, a Cidade do Rock ainda era localizada em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. De lá pra cá, o festival mudou de cenário diversas vezes dentro da cidade maravilhosa, e atualmente ocorre no Parque Olímpico. Além disso, o Rock In Rio já ultrapassou fronteiras, tendo oito edições realizadas em Lisboa, três em Madri e uma em Las Vegas. Entre os anos de 2004 e 2010, inclusive, ocorreu exclusivamente fora do Brasil.

Em seus 34 anos de história, o Rock In Rio permitiu que artistas, hoje consagrados, se tornassem ainda mais idolatrados e deu visibilidade àqueles nem tão conhecidos. “O Rock in Rio teve um papel fundamental para o aperfeiçoamento do mercado, ele coloca o rock e o público jovem na TV e bancas de revista. No caso das bandas brasileiras, ele serve como atestado de amadurecimento de profissionalismo”, explica o jornalista e crítico musical Ricardo Alexandre. O festival é famoso por imortalizar atuações memoráveis e emocionar tanto bandas quanto os milhões de espectadores que acompanharam suas dezenas de edições.

 A performance da banda americana Guns N’ Roses em 1991, por exemplo, ficou marcada por ser a primeira do grupo no Brasil, e por trazer músicas inéditas que se tornariam clássicos. Já James Taylor, cuja carreira parecia chegar ao fim em 1985, conseguiu reerguer-se depois de sua aclamada apresentação no festival. A massa de espectadores também já delirou ao som de artistas nacionais, como o próprio Barão Vermelho na primeira edição, Cássia Eller em 2001 e Capital Inicial em 2011.

Mas, talvez o show mais icônico da história do Rock in Rio tenha sido o da banda inglesa Queen em 1985, lembrado também como um dos melhores do próprio conjunto. Nesta ocasião, o vocalista Freddie Mercury chegou a parar de cantar e apontar o microfone para a multidão durante a canção Love of My Life, cena considerada lendária na indústria fonográfica.

O evento é também uma revolução na agenda de apresentações do país. Ricardo Alexandre explica que até 1985, o Brasil era malquisto no cenário internacional de venda de shows, e o Rock in Rio mudou essa situação. Além disso, foi o primeiro circuito em um país que até então só contava com apresentações separadas de cada artista nacional. “Hoje, a experiência do Rock in Rio é mais importante do que os shows em si”.

“Mas cadê o rock?”

A aclamação do Queen logo na primeira edição mostra a força e popularidade do rock à época. De fato, o evento que tem Rock no nome ganhava o público principalmente com esse gênero. Mas com o tempo, o festival passou a receber constantes críticas por supostamente ter negligenciado o protagonismo desse estilo em prol de outros.

Porém, não é isso que os números mostram. Uma análise de 2017 do blog Telhado de Vidro revela que a porcentagem da participação de bandas de rock no festival cresceu ao longo do tempo. Se nas primeiras três edições cerca de 50% do artistas eram desse gênero musical, em 2015 eles passaram dos 60%. Já o balanço do site Collectorsroom_ aponta um equilíbrio histórico entre pop e rock no festival.

Freddie Mercury regendo o público no show do Queen, em 1985 [Imagem: Pinterest]

Os dois levantamentos convergem em um aspecto: mostram uma tendência à diversificação de estilos, principalmente a partir de 2011. Desde a primeira edição, o Rock in Rio já contemplava diversos tipos de música – o primeiro line-up contava com Gilberto Gil, Lulu Santos e George Benson. Mas enquanto os principais shows eram nitidamente reservados para bandas de rock, recentemente, atrações não consideradas como rock têm sido os carros-chefes de algumas edições, dias e palcos do festival.

Um exemplo desse crescimento de interesse por shows de outro gêneros musicais fica evidente na própria edição de 2011, com a apresentação de Stevie Wonder.  A primeira – e única – participação do músico estadunidense no Rock In Rio foi uma das mais aguardadas e aclamadas daquele ano. Não foi diferente com as divas do pop Beyoncé e Katy Perry nas duas edições seguintes, respectivamente. Ambas fecharam a programação dos dias em que se apresentaram e, assim como Stevie Wonder, envolveram todos com seus maiores hits e com shows extremamente bem produzidos.

Luiz Felipe Carneiro, também jornalista e escritor do livro “Rock In Rio: a História do Maior Festival de Música do Mundo”, aponta uma mudança no festival exatamente com o retorno ao Rio em 2011. Ele vê muita influência de empresários nos bastidores, o que acarreta em shows de artistas pop mais novos, favorecimento de bandas associadas às atrações principais e uma repetição de headliners. “O que a galera pede é o que eles querem. O mais pedido é o que vai ter público, então eles chamam. O Rock in Rio meio que se transformou em uma planilha”.

Relembrando o caso de 1991 – quando a plateia compareceu devido principalmente ao Guns N’ Roses e lá muitos se tornaram fãs da banda Faith No More – Carneiro acrescenta que o festival também perdeu esse efeito de regente do mercado fonográfico: “O Rock in Rio hoje não vai ser o palco para ditar novas tendências e novos artistas, com poucas exceções. O artista emergente pode até ter um boom, mas com curto efeito”.

Na edição atual não tem sido diferente. Bandas de rock consagradas como Red Hot Chilli Peppers – que chega a seu sexto Rock in Rio em 2019 – acumulam participações no festival por atraírem sempre um público fiel. Por outro lado, nada de roqueira tem a artista que mais marcou presença no evento. Ivete Sangalo atinge a marca de 15 participações com seu show no primeiro fim de semana desta edição.

Além das já citadas polêmicas envolvendo Drake, o Rock in Rio VIII já contou com performances cativantes de Foo Fighters, Bon Jovi e Dave Matthews Band no palco principal, Iza e Elza Soares roubando a cena no Palco Sunset e a tão comentada participação do baixista brasileiro Júnior Bass Groovador no show de Tenacious D. E o festival ainda prepara uma noite de rock pesado/heavy metal, outra mais voltada para o pop/R&B e um encerramento com pop rock.

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