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Sacrifício animal: crueldade ou expressão religiosa?

Uma comparação entre dados do abate religioso e do abate industrial

JPRESS
17 jun 2019 | Por Natasha Teixeira (natashatp@usp.br)

No fim de março, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou constitucional uma lei do Rio Grande do Sul que autoriza o sacrifício de animais em rituais no candomblé. Essa decisão gerou polêmica nas redes sociais pois muitas pessoas, alegando defesa aos animais, se posicionaram contra o veredito.

Comentários em publicações feitas no Facebook sobre a decisão do STF. [Imagem: Reprodução]

O pai de santo Sam de Odé, que está no candomblé há 33 anos, disse que não é a primeira vez que essa discussão vem à tona. Por diversas vezes o assunto ressurge e é utilizado como forma de atacar a religião. No entanto, é comum que as pessoas se coloquem contra esse ritual por terem visões incorretas sobre ele.

Outro ponto que surge nessa discussão é: se as pessoas estão realmente preocupadas com os animais, por que não as vemos se posicionando contra os abatedouros da indústria alimentícia? É comum ver até mesmo pessoas que consomem carne normalmente em sua dieta, mas ficam espantadas com o sacrifício religioso de animais.

Muitas vezes, o posicionamento contra o ritual do candomblé, quando acompanhado do não posicionamento contra a indústria da carne, vem da falta de conhecimento sobre esses processos. Por isso, essa reportagem traz uma comparação entre os dois, na intenção de evitar essa contradição.

As informações a seguir sobre o candomblé foram dadas por Sam de Odé, que é de nação Ketu, uma das mais tradicionais da religião, e as informações sobre o abate de animais na indústria foram retiradas do documentário Terráqueos.

 

Preparação

Religiosa praticando o candomblé [Foto: Roger Cipó/Olhar de um Cipó]

No candomblé, após a escolha do animal que deve ser, de preferência, livre de hormônios e criado de forma mais natural, o processo de preparação demora pelo menos 24 horas. Nesse tempo, ele deve descansar e comer a comida e a água fresca oferecida pela casa de santo. O bicho deve ser bem cuidado, evitando qualquer tipo de estresse, pois acredita-se que tudo que acontece com o ele será passado para a oferenda.

Já na indústria, o processo não costuma ser o ideal. Ainda que hajam diversas recomendações médicas que procurem evitar o sofrimento do animal, documentários produzidos por câmeras escondidas e investigações de organizações ativistas provam que nem sempre isso é colocado em prática.

Bovinos têm seu corpo marcado com ferro quente para identificação e chifres arrancados sem anestesia. Processo semelhante ocorre com os porcos, que têm orelhas, dentes e rabo arrancados para evitar o canibalismo, também sem anestesia. Com a mesma finalidade de evitar o canibalismo, as galinhas também têm seus bicos cortados.

 

Ambiente

O local onde é realizado o ritual religioso deve ser preparado previamente, sacralizando-o o máximo possível. A intenção é que o lugar fique com seu sistema energético positivo. O bicho passa, no máximo, dois dias no local e, na maioria das vezes, sem a presença de muitos outros animais.

Na pecuária, no transporte para o abatedouro, animais são colocados em caminhões tão cheios que ficam praticamente uns sobre os outros. Calor, temperaturas muito baixas, cansaço, traumas e duras condições matam alguns no caminho.

Vacas leiteiras ficam o dia inteiro presas. Suínos vivem em ambientes sujos e apertados. Porcas reprodutoras são colocadas em “gaiolas de gestação”, espaços muito pequenos em que elas não conseguem se movimentar. Galinhas poedeiras vivem em gaiolas tão apertadas que não conseguem realizar seus instintos naturais mais básicos. Muitas perdem suas penas e desenvolvem feridas por ficarem roçando contra o arame das gaiolas. As aves destinadas à alimentação vivem em galpões com algo entre 60 e 90 milhões de pássaros.

Galinhas em um galpão superlotado antes de serem abatidas [Imagem: reprodução/Dominion]

Essas condições fazem com que os animais fiquem estressados e, muitas vezes, desenvolvam doenças e problemas psicológicos.

 

O abate

No ritual, os religiosos evitam que o animal veja a faca com que será abatido e cantam cantigas para ele. Muitas vezes, o animal dorme com as canções. O abate é feito com facas específicas e por pessoas específicas, que sabem como minimizar o sofrimento. Assim, o animal é morto sempre com o menor sofrimento possível.

Como o abate industrial é feito em grande escala, a chance de erro é muito maior. Não é incomum que o animal permaneça consciente após o corte, se contorcendo.

Para o abate de peixes, não há legislação. Eles são retirados da água com redes enormes e morrem ou sufocados ou por causa da despressurização.

Vacas leiteiras são abatidas quando caem em exaustão. Isso acontece mais ou menos aos 4 anos de idade. Vacas criadas em ambientes propícios vivem até 20 anos.

 

Depois do abate

Venda de carnes no mercado [Imagem: Omar Freitas/Agência RBS]

No candomblé, depois do sacrifício, cantam para o corpo do animal, agradecem, pedem perdão à mãe terra e fazem orações. Em seguida, algumas partes do animal são ofertadas aos deuses e outras ou servem de alimento para toda a comunidade naquele momento ou são guardadas na geladeira para serem preparadas depois.

Esse fim não é muito diferente do destino do animal morto industrialmente, que vai parar nos mercados para servir de alimento a diversas famílias.

 

Quantidade de animais envolvidos

Mesmo com os dados, há quem duvide que exista sofrimento no abate industrial. No entanto, não se pode negar um fator: a quantidade de animais envolvidos em cada um desses processos.

No abate religioso, não há um número certo, pois isso depende do que é determinado pelo jogo de búzio realizado anteriormente. Em um ritual que acontece anualmente, são mortos aproximadamente 20 ou 30 animais. Nos demais rituais, que acontecem com baixa frequência, os números não saem da casa das unidades.

Já no abate industrial, os números são muito maiores.

Para que o candomblé alcançasse esses números, seriam necessárias mais de 100 milhões de casas de santo no Brasil. Segundo o censo do IBGE de 2010, somados, os praticantes da umbanda e do candomblé são 0,3% da população brasileira, ou seja, aproximadamente 600 mil pessoas.

 

A sociedade e os abates

Depois de todos esses dados, pode restar a dúvida sobre animais encontrados agonizando em portas de cemitério ou encruzilhadas. Sam de Odé enxerga nisso um possível motivo para se colocar contra o ritual do candomblé.

“A sociedade não está totalmente equivocada. Eu mesmo critico quando vejo uma galinha no meio de uma encruzilhada. Eu mesmo não aceito isso, e eu sou do candomblé. Imagina uma pessoa de origem cristã, ou de outra fé, ou mesmo que não tenha fé nenhuma. A rejeição por aquilo se potencializa.”

Segundo o pai de santo, isso não faz parte de um ritual limpo e de um candomblé tradicional. Ele ainda diz que não há orixá ou entidade que indique que se despache o corpo de um animal em locais como esses. Ele também acredita que há quem utilize esse ritual realizado de forma incorreta como brecha para praticar a intolerância religiosa.

Há, além disso, diversos grupos não necessariamente vegetarianos que utilizam o argumento de defesa dos animais para atacar o candomblé. Milton Bortoleto, aluno de pós-graduação do Departamento de Sociologia da FFLCH e doutourando em sociologia das religiões afro-brasileiras, acredita que esses grupos agem com convicção, defendendo o que realmente acreditam ser certo.

O pesquisador destacou alguns dos principais grupos contrários ao ritual. Para determinados segmentos religiosos não importa o canal pelo qual ocorre o ataque à religião diferente, o importante é converter. Essa conversão se dá de várias formas, até mesmo querendo proibir rituais. Ainda que seja usado o argumento de proteção aos animais, para Milton, eles agem para acabar com essa outra expressão religiosa pois possuem uma ideia de que sua religião é a única versão correta.

Ele explica essa ideia. Pesquisadores apontam que o pluralismo religioso no Brasil se constituiu por meio do modelo hegemônico cristão. Ainda que o catolicismo tenha deixado de ser religião oficial do Estado no século 19, até hoje o modo de se pensar o que é religião é o da igreja católica. Algumas como o judaísmo e o protestantismo tiveram mais facilidade em se encaixar nesse modelo e em ser aceitas por possuírem maior semelhança com o catolicismo. Em contrapartida, religiões de matriz africana, como tudo que foge do modelo hegemônico, são vistas com estranheza. O abate religioso é um dos principais pontos do candomblé que destoa da noção europeia de religião.

Além dos religiosos, há também um outro grupo de destaque que se coloca contra o sacrifício no candomblé: políticos que se dizem defensores dos animais. Em sua maioria não vegetarianos, eles utilizam o argumento para ganhar votos.

O pesquisador também citou o grupo dos ativistas veganos que se colocam contra esse ritual, como é o caso de Luisa Mell, que afirmou que a constitucionalização do abate religioso é uma barbaridade. Bortoleto disse que, pelo fato de o candomblé ser um grupo mais fraco, é uma área de atuação mais fácil para esses ativistas. A pauta de defesa dos animais não reverberaria tanto contra a JBS como reverbera  contra as religiões de matriz africana.

No entanto, é importante ressaltar que, no movimento vegano, apesar de todos serem contra o sacrifício animal, nem todos são a favor da criminalização do ritual. O ativista conhecido na internet como Vegano Vitor, por exemplo, não é. Ele afirma que esse ritual é realizado por uma religião, o candomblé, que já sofre preconceito histórico, não só por ser praticada por uma minoria numérica, como também por originar de uma minoria social, os negros.

“Essa população já é perseguida, já sofre preconceito, já é encarcerada, já sofre violência da polícia e do Estado há centenas de anos. Uma lei dessa provavelmente só ia aumentar o sofrimento dessa população minoritária. E não acredito que ela ia acabar com o sacrifício de animais. A gente sabe que proibição por proibição não resolve problema complexo nenhum.”

Além disso, o ativista se posicionou sobre pessoas que consomem carne e atacam o sacrifício religioso de animais. Ele acredita que matar um animal em um ritual religioso é tão desnecessário quanto matar um animal para comer. Porém, para ele, antes de apontar o dedo aos religiosos, é preciso apontar para si mesmo e se perguntar o que se está fazendo para diminuir o sofrimento desses animais.

 

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