Home Escuta Aí “Só garotos” – A noite pertence a Patti Smtih e seus garotos
“Só garotos” – A noite pertence a Patti Smtih e seus garotos
Escuta Aí
24 jan 2017 | Por Jornalismo Júnior

Uma harmonia de piano melancólica, de notas agudas, que premedita uma noite fria. Aproxime-se e tente entender, ela explica num sussurro, o desejo é faminto, é o fogo que respira; já o amor, é um banquete no qual se alimenta. Pegue sua mão, tente entender. O amor é um toque no telefone, é um anjo disfarçado de luxúria, é a sua cama até o amanhecer. Porque a noite pertence aos amantes, à luxúria. A noite lhes pertence.

Patti Smith lançou a música “Because The Night” em 1978, no disco Easter. Na realidade, Bruce Springsteen escreveu uma primeira versão, mas estava descartando-a quando foi convencido pelo produtor Jimmy Iovine, que estava trabalhando no Easter, a entregá-la para Patti Smith. Ela reescreveu a letra do seu modo e a canção caiu como uma luva. Virou hit e ainda é ovacionada. Pela letra é possível perceber que Smith é uma poetisa, uma humanista, dedicada às emoções – uma punk desajustada. Easter foi lançado quando ela estava namorando Fred ‘Sonic’ Smith, guitarrista do MC5, mas ela resume bem a relação de Patti com o amor, com a poesia, a arte e o rock. Elementos centrais do relacionamento dela com Robert Mapplethorpe.

De uma família humilde de Nova Jersey, após colocar seu primeiro filho para adoção, Patti Smith parte para Nova York, com vinte anos, um livro do Rimbaud e nenhum tustão no bolso. Por um tempo dividiu comida com mendigos, morou na livraria que trabalhava, roubou colegas de trabalho, até que conheceu outro aspirante da arte – um garoto de cabelos cacheados, chamado Robert Mapplethorpe. Seu primeiro amor, seu melhor amigo, o qual prometeu, no leito de sua morte, que escreveria um romance sobre os dois. E assim nasceu “Só Garotos”, lançado em 2010 pela Companhia das Letras no Brasil.

O livro é uma narração não apenas do romance do casal, mas também de sua jornada pela arte, pela ascensão cultural, além de ser uma historiografia da subcultura dos anos 60 e principalmente 70. O percurso desde a amizade até a morte de Robert é uma história tocante, hiperealista, que nos coloca como a terceira pessoa do romance. Como um amigo que os acompanha, que os conhece como ninguém e que torce a todo momento para que ambos se realizem, sejam juntos ou separados fisicamente e amorosamente. A conexão estabelecida entre eles é tão surreal que parece não existir um sem o outro, que Patti nunca seria “Patti Smith” sem Robert, e Robert nunca seria “Robert Mapplethorpe” Sem Patti. Eles podem não ter permanecidos juntos como um par romântico, mas continuaram como uma força inseparável.

Robert Mapplethorpe e Patti Smith, fotografados por Norman Seeff em 1969. Imagem: Divulgação

Ambos tinham não apenas uma veia artística, mas todo seu sistema cardíaco voltado para a arte. Porém, cada um tinha aquilo que os destacava: Patti com sua poesia e performances, e Robert com sua fotografia. Um inspirava ao outro e o incentivava para continuar sempre trabalhando e criando. Mesmo que não tivessem dinheiro nem para comer, eles continuavam juntos, fortes, pintando, desenhando e escrevendo. Durante este percurso, conheceram muitas pessoas influentes, fizeram amizades e adentraram no mundo subversivo e rebelde da contracultura.

A narração, além de ser cheia de poética, é uma excelente fonte de referências para conhecer e entender quem eram as figuras influentes da subcultura – do punk, do rock, da literatura, das artes, do teatro, da poesia, da fotografia, enfim. Ao final do livro há um índice onomástico com todas as referências citadas pela autora em ordem alfabética. Inspirada nesta experiência cultural, pesquisei os músicos citados e compilei uma playlist, que mistura jazz e blues com punk, rock, e folk. Uma playlist que vai desde The Rolling Stones, Bob Dylan, The Beatles, até James Brown, Joan Baez, Neil Young, e claro, muita Patti Smith.

Por Lidia Matos
lidiamcapitani@gmail.com

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