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Tarantino e Samuel L. Jackson: uma dupla marcante
CINÉFILOS
27 dez 2019 | Por Arthur Nascimento (arthur.gm.nascimento@usp.br)

Alguns diretores de cinema se identificam com determinados atores ao longo de seus trabalhos. Seja pela ética de trabalho, pelo talento na atuação ou por outras questões, o contrato que seria válido somente para uma obra se estende para outros projetos.

O renomado diretor Quentin Tarantino é um dos que gostam de utilizar os mesmos atores em sua obra mais de uma vez. No recém-lançado Era uma vez em… Hollywood (Once Upon a Time in Hollywood, 2019), Leonardo DiCaprio e Brad Pitt realizaram seu segundo trabalho com o diretor. E outros atores, como Tim Roth e Uma Thurman, também são figurinhas carimbadas nos elencos de Tarantino.

Mas nenhuma dessas parcerias se repetiu tanto quanto a que há entre Tarantino e Samuel L. Jackson. Presente na filmografia do cineasta desde 1994, o ator é responsável por interpretar personagens marcantes, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes.

O Cinéfilos vai traçar o perfil das versões de Samuel L. Jackson sob a direção de Tarantino. Ele participou de seis dos nove longa-metragens do diretor, mas em Kill Bill – Volume 2 (Kill Bill Vol. 2, 2004) e em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) foi apenas figurante e narrador de uma cena, respectivamente. Os papéis detalhados serão dos outros quatro personagens, em que teve protagonismo na trama.


Jules Winnfield: o primeiro e mais marcante

Vincent Vega (John Travolta, esquerda) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson, direita): uma parceria inesquecível em Pulp Fiction [Foto: Miramax Films]

Pulp Fiction: Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1994) é considerado por muitos o melhor e mais importante filme da carreira de Quentin Tarantino. O longa-metragem se caracteriza pela estrutura não-linear, pela divisão em capítulos e pelas diversas tramas que compõem a narrativa.

E um dos personagens centrais nesse filme foi interpretado por Samuel L. Jackson. O ator deu vida a Jules Winnfield, um homem que trabalha para Marsellus Wallace (Ving Rhames), o grande chefe do crime de Los Angeles.

Jules é leal às ordens de seu chefe, e não possui receio de matar em nome de Marsellus. Ele é um dos coadjuvantes mais importantes de todo o filme.

A primeira aparição do personagem na obra se dá em uma conversa com o parceiro de crime Vincent Vega, que sempre o acompanha no seu usual terno. O amigo lhe conta curiosidades sobre a Europa, continente em que morou por três anos, e o assunto dessa conversa revela uma das paixões de Jules: hambúrguer. Eles passam minutos falando sobre a diferença dos nomes que esses lanches apresentam nos Estados Unidos e na França, em um diálogo banal que é lembrado pelos fãs de Pulp Fiction até hoje.

Essa conversa dá uma amostra sobre a tônica do filme. Afinal, Jules e Vincent têm um papo amigável enquanto caminham para cobrar um grupo de jovens em dívida com Marsellus Wallace.

No momento em que Jules realiza seu trabalho, fica perceptível que se trata de um criminoso diferente de qualquer outro já visto. Ao invés de ameaçar suas vítimas de maneira tradicional, ele conversou sobre o sabor dos hambúrgueres da lanchonete Big Kahuna ー marca fictícia presente em diversas obras da filmografia de Tarantino. E na hora em que perdeu a paciência e disparou sua arma contra o desafeto de seu chefe, Jules gerou o seu momento mais marcante no filme. Ele realiza seu ritual antes de matar alguém e cita uma suposta passagem bíblica, Ezequiel 25:17. Entretanto, as palavras que ficaram na memória dos fãs de Pulp Fiction não está presente na Bíblia, combinando trechos originais com outras passagens bíblicas.

Esse momento marca o fim do Prelúdio para “Vincent Vega e a esposa de Marsellus Wallace”, um dos capítulos do filme. Mesmo com apenas alguns minutos em cena, Jules demonstrou traços de sua personalidade e de seu destino na trama. Criminoso, apaixonado por hambúrgueres, religioso, elegante, leal e destemido são palavras que ajudam a definir esse personagem.

Mesmo sem o protagonismo de Vincent e sem participar das histórias que envolvem Mia Wallace e o lutador Butch na trama de Pulp Fiction, Jules foi um dos personagens de maior destaque no filme. Isso rendeu a Samuel L. Jackson sua única indicação ao Oscar na carreira, concorrendo pela categoria Melhor Ator Coadjuvante na edição de 1995. 

Assim como os outros intérpretes do filme, ele não venceu a premiação da Academia. Mas Samuel L. Jackson conquistou em Pulp Fiction o papel mais marcante de sua carreira, abrindo caminho para outras parcerias com Tarantino.


Um peão no jogo de Jackie Brown

Ordell Robbie, o todo poderoso traficante de Jackie Brown. [Foto: Miramax Films]

Três anos depois de fazer parte do elenco de Pulp Fiction, Samuel L. Jackson novamente atuou em um filme de Tarantino. O ator deu vida a Ordell Robbie, um dos personagens mais importantes na história de Jackie Brown (1997).

Ordell é um traficante de armas influente. Ele era responsável não só por transações ilegais na sua cidade, Los Angeles, como também por negociações internacionais. E para realizá-las, o traficante contava com o auxílio da aeromoça Jackie Brown (Pam Grier), protagonista do filme.

Jackie trabalhava para uma pequena companhia aérea mexicana e utilizava suas viagens constantes para levar e trazer o dinheiro de Ordell. Esse esquema, que funcionava sem suspeitas até então, foi parcialmente delatado por um funcionário do traficante, Beaumont (Chris Tucker). Por saber que ele poderia entregar ainda mais informações, Ordell pagou a fiança e o tirou da cadeia, e em seguida o executou.

Mas a polícia, que já havia sido informada, capturou Jackie com dinheiro não declarado e cocaína. Ela foi presa e, com isso, Ordell planejou executar o mesmo plano que deu fim à vida de Beaumont: pagar a fiança de seu parceiro e assassiná-lo. Mas o controlador traficante não conseguiu surpreender Jackie, que esperava a tentativa de homicídio e se protegeu

No instante em que Ordell falha em seu plano, ele é envolvido em uma negociação de via tripla. O traficante e a polícia foram conduzidos por Jackie a acreditarem que ela seria o meio de fazê-los chegar a seus objetivos, mesmo que fossem antagônicos. Ela aceita realizar um transporte de 500 mil dólares para Ordell, mas diz para as autoridades que vai entregar o traficante.

Ao fim de tudo, Ordell descobre que, assim como os policiais, foi enganado por Jackie. Além de perder o dinheiro que estava sendo transportado, ele perdeu a namorada Melanie (Bridget Fonda), que foi assassinada por Louis (Robert De Niro), ex-parceiro de cela e amigo de Ordell. O traficante matou seu parceiro ao saber da notícia.

O desenrolar da trama colocou Ordell em uma situação que se opõe àquilo que ele demonstrou gostar ao longo de todo o filme: ter o controle da situação. Desde sua impaciência com Melanie até a maneira como reagiu à postura de Beaumont demonstram que ele gosta de estar no comando.

Jackie é a responsável por tirá-lo da zona de conforto. Ao buscar o próprio interesse, ela dificultou as transações de Ordell e o colocou numa situação adversa, levando-o a matar até um velho amigo. Samuel L. Jackson interpretou em Jackie Brown um peão no jogo da protagonista do filme.


O servo leal de Calvin Candie

Stephen, um dos vilões de Django Livre. [Foto: The Weinstein Company]

Esta parte do texto contém spoilers do final de Django Livre 

Durante a década de 2000, Samuel L. Jackson participou novamente de projetos com Quentin Tarantino. Ele foi o pianista na cena do ensaio de casamento em Kill Bill – Volume 2 e narrou a introdução de alguns personagens em Bastardos Inglórios. Mas foi em 2012 que a parceria voltou a ter destaque.

O ator fez parte do elenco de Django Livre (Django Unchained, 2012), o filme de Tarantino com mais vitórias no Oscar ー vencedor nas categorias Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante, com Christoph Waltz.

O personagem de Samuel L. Jackson, Stephen, aparece no filme aproximadamente 90 minutos depois do início da obra, mas isso não o impede de ser marcante e de possuir relevância para a trama.

Stephen é um escravo muito próximo ao seu senhor, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Responsável por fiscalizar as outras pessoas designadas a realizar trabalho compulsório e a cuidar da mansão de seu patrão, ele vive em condições melhores do que os outros acometidos pela escravidão.

Ao longo do filme, Stephen toma diversas atitudes que dão uma amostra das razões pelas quais ele chegou a essa condição em Candyland, maneira como Calvin chama a sua propriedade. Stephen impõe castigos físicos a escravos, se mostra conivente com as brutalidades cometidas pelo patrão e é o responsável por revelar o plano de Django (Jamie Foxx) e Dr. Schültz (Christoph Waltz).

Essa lealdade a Calvin Candie demonstra um traço diferente na personalidade de Stephen. Afinal, mesmo sendo negro e escravizado por toda a sua vida, em momento algum ele demonstra compaixão aos seus semelhantes que sofrem na Candyland. Assim, Stephen pode ser considerado uma figura de oposição a Django, o homem livre que buscava libertar sua esposa da escravidão.

Essa serventia está tão enraizada no comportamento de Stephen que, mesmo após o assassinato de Calvin, ele mantém a mesma postura de sempre. O personagem de Samuel L. Jackson é o responsável por conduzir a negociação que fez Django se render para salvar a vida da amada Broomhilda (Kerry Washington).

A crueldade de Stephen no trato com os escravos da Candyland fez com que ele fosse o único negro assassinado por Django no final do filme. O destino do personagem de Samuel L. Jackson foi o mesmo de todos os membros da família Candie.

Stephen pode ser considerado um dos grandes vilões da trama de Django Livre. O papel do escravo que dá suporte a posturas cruéis contra seus semelhantes gera antipatia ao personagem. E Samuel L. Jackson ampliou esse sentimento com uma grande atuação, que o tornou uma figura odiada nesse filme.


O mais odiado

Major Marquis Warren, o protagonista de Os Oito Odiados. [Foto: The Weinstein Company]

Em sua última participação (até agora) nos filmes de Quentin Tarantino, Samuel L. Jackson foi o protagonista da trama de Os oito odiados (The Hateful Eight, 2015). O ator interpretou o caçador de recompensas Major Marquis Warren, um ex-combatente na Guerra de Secessão.

O personagem é introduzido no filme já na primeira cena, em que ele pede carona para outro caçador de recompensas, John Ruth (Kurt Russell). Os dois, que já se conheciam desde antes dessa ocasião, caminhavam em direção ao mesmo lugar, o Armazém de Minnie (Dana Gourrier), e lá iriam se hospedar para fugir de uma nevasca.

Tanto Marquis como John transportavam criminosos que valiam recompensas em dinheiro. Mas, enquanto o personagem de Samuel L. Jackson levava quatro pessoas mortas, John levava consigo uma mulher viva: Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh). A captura dela seria recompensada em dez mil dólares pelo Estado, quantia mais alta do que a soma de todos os cadáveres levados por Marquis.

Durante a viagem até o Armazém da Minnie, outra pessoa cruzou o caminho deles pedindo carona. Chris Mannix (Walton Goggins), homem que afirmava ser o novo xerife de Red Rock, também pede carona para John Ruth. O caçador de recompensas, apesar de indisposto a aceitar mais um passageiro, cedeu ao pedido, já que a pessoa responsável por recompensá-lo pela captura de Daisy seria o xerife de Red Rock.

A partir da entrada de Mannix na trama, as marcas da Guerra de Secessão passam a ser um elemento que cria tensão no filme. O xerife, que lutou pelos estados do Sul nesse conflito, representava um desejo de manutenção da escravidão na sociedade estadunidense. Isso tornou o primeiro contato entre Mannix e Marquis tenso, gerando uma discussão acalorada que quase resultou na morte do xerife.

Mas não é só o novo passageiro que demonstra traços racistas contra Marquis Warren. Daisy Domergue, a criminosa transportada por John Ruth, se dirige ao personagem de Samuel L. Jackson diversas vezes como se falasse a um escravo. Ela o considera muito ousado por agir como um homem livre, utiliza o termo “crioulo” e outros similares de maneira pejorativa para se referir a ele.

Após essa viagem conturbada, Marquis e os outros passageiros enfim chegam ao Armazém da Minnie. Apesar de chegarem antes da nevasca prejudicar a viagem, eles não encontraram o que esperavam no local: Minnie e seu marido Sweet Dave (Gene Jones). Segundo um dos homens que lá estava, o mexicano Bob (Demián Bichir), eles foram visitar a mãe de Minnie.

Marquis suspeitou desde o princípio dessa história, por conhecer Minnie e saber que ela não mantém contato com a mãe. Além disso, os homens estavam de chapéu dentro da casa, o que é terminantemente proibido pela dona do estabelecimento.

Assim se inicia o momento de tensão no filme. Marquis e seus companheiros de viagem não sabem se devem confiar nos homens que chegaram antes deles. E a tensão foi novamente ressaltada por componentes raciais, pois um ex-general que representou o Sul na Guerra de Secessão estava entre esses homens.

O clima de desconfiança tomou conta e Marquis foi um centro disso. Descrente daqueles que conheceu recentemente, ele foi alvo de ódio por parte de quase todos os outros personagens, seja pela sua postura dentro da casa ou pelo simples fato de ser negro. O protagonista do filme é o mais odiado dentre todos aqueles que passam a nevasca no Armazém da Minnie.


Sucesso para todas as partes

Depois de se repetir tantas vezes, fica claro que a parceria entre Quentin Tarantino e Samuel L. Jackson é um sucesso para ambos. Não há como pensar nos grandes momentos de um desses nomes no cinema sem associá-los um ao outro.

Para Tarantino, o ator entregou personagens marcantes. É impossível lembrar de Pulp Fiction, possivelmente o maior clássico do diretor, sem se recordar de Jules Winnfield proferindo Ezequiel 25:17. Ou pensar em Django Livre sem sentir tristeza pelo que Stephen proporcionou aos heróis do filme.

E, da mesma forma, pensar em grandes atuações de Samuel L. Jackson é pensar em seus personagens na filmografia de Tarantino. Além da única indicação ao Oscar na carreira do ator, alcançada em Pulp Fiction, é inegável o destaque que ele possui nas tramas de Jackie Brown e Os Oito Odiados, sendo beneficiado pelos aclamados roteiros escritos pelo diretor.

Portanto, só resta aos fãs do diretor e do ator torcer para que o décimo ー e possivelmente último ー filme escrito e dirigido por Quentin Tarantino traga mais uma vez essa dupla para os cinemas.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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