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Terrorismo em pauta: o terror na indústria cinematográfica
CINÉFILOS
18 set 2020 | Por Carlos Eduardo S. Everton (carloseverton@usp.br)

Embora a temática do terror esteja na cinematografia há bastante tempo, foram nos últimos anos que esse tema recebeu maior notoriedade, especialmente pelo fato de acontecimentos como o 11 de setembro e os atentados a Paris em 2015. No entanto, a sétima arte tem abordado o terrorismo com a mesma intensidade que a mídia o noticiou, explorando a violência e ignorando a reflexão.

 

[Imagem: AP Photo/Gulnara Samoilova]

O ataque da segunda torre gêmea do World Trade Center foi televisionada ao vivo para o mundo inteiro. [Imagem: AP Photo/Gulnara Samoilova]


Muito antes do ataque às torres gêmeas

O terrorismo existe muito antes dos acontecimentos do 11 de setembro. No período de dominação romana, um grupo de judeus radicais, chamados de sicários (Homens de punhal), atacava cidadãos judeus e não judeus que eram considerados a favor do domínio romano. O terrorismo também esteve presente na Revolução Francesa, quando atos de terror foram feitos na Tomada da Bastilha e, por fim, expandiu-se no século 20 com movimentos separatistas e de cunho racial. 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, o Mestre em História da Educação, Paulo Gereba, explicou que existem quatro tipos de terrorismo:  revolucionário, nacionalista, de Estado e de organizações criminosas. Segundo o historiador, ater-se somente a este último, que possui cunho econômico e religioso, ― como a maioria dos filmes faz ― é ter uma visão limitada sobre o tema.


O Cinema Pós-11 de setembro

Logo após o trágico atentado ao World Trade Center, o assessor do presidente G. Bush convocou 40 executivos de Hollywood para discutir como o cinema poderia contribuir com o governo na guerra ao terrorismo. Diante disso, a indústria cinematográfica americana passou a abordar vigorosamente os impactos que os Estados Unidos sofreram com os ataques e aumentaram as produções de filmes com o tema.   

A figuração do terror dos ataques organizados repercutiu em escala global. A divulgação das cenas de terrorismo  se fez presente em diversas produções hollywoodianas, como: Vôo United 93 (2006) e As Torres Gêmeas (2006). Outros filmes receberam grande reconhecimento das principais premiações. Guerra ao Terror (2009), que relata a invasão americana ao Iraque, recebeu nove indicações ao Oscar e faturou seis estatuetas, superando até mesmo o gigante Avatar (2009), que havia quebrado o recorde de maior bilheteria da história. 

 

Terroristas ameaçam passageiros no filme Vôo United 93. [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

Terroristas ameaçam passageiros no filme Vôo United 93. [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

Ator Guy Pearce em cena do filme Guerra ao Terror [Imagem: Reprodução/Summit Entertainment]

A Academia notoriamente se empenha em valorizar obras com temáticas  relacionadas ao  terrorismo”. Outro exemplo disso é a produção A Hora Mais Escura (2013), que aborda o assassinato de Osama Bin Laden. Embora tenha levado apenas uma estatueta, o filme recebeu cinco indicações ao Oscar e foi vencedor em outras premiações, como o Globo de Ouro e o New York Film Critics Circle Award.


Violência que gera lucro

A fabricação, consumo e prestígio da violência tornou-se quase regra nas grandes produções do mundo cinematográfico. No entanto, as abordagens sobre esse assunto não são tão enriquecedoras, elas abordam o terror pelo terror e não pela reflexão. O conjunto de cenas com explosões, violência, armamentos e mortes geram impacto no público. Elas prendem a atenção, porém, não vão além da superfície. 

Todavia, esses aspectos são uma forma de entretenimento que geram bastante lucro. Das 10 maiores bilheterias da história do cinema, 7 exploram massivamente a violência em seus enredos: Velozes e Furiosos 7 (2015); Os Vingadores (2012); Jurassic World (2015); Vingadores: Guerra Infinita (2018); Star Wars: O Despertar da Força (2015); Avatar e Vingadores: Ultimato (2018). 

 

Avatar e Vingadores Ultimato, as duas maiores bilheterias mundiais, exploram cenas de armamento e violência em seus enredos [Imagens: Reprodução/20th Century Studios e Reprodução/Marvel Studios]

Avatar e Vingadores Ultimato, as duas maiores bilheterias mundiais, exploram cenas de armamento e violência em seus enredos [Imagens: Reprodução/20th Century Studios e Reprodução/Marvel Studios]

Certamente, é necessário entender as razões pelas quais o terror está presente na sociedade, sua origem e suas consequências. Jogos de oposições, colocando sempre um lado como herói e outro como vilão geram um entendimento raso sobre o tema, criam estereótipos e abrem precedentes para aparecimento de outras problemáticas, como a xenofobia.


Os filmes podem incitar a xenofobia?
 

É comum o cinema norte-americano colocar em seus filmes a Rússia e países árabes como vilões, enquanto os Estados Unidos como vítima que se sobressai de forma heroica no final do enredo.  Essa perspectiva, segundo a cientista social pela UFMA, Thayná Rosa, certamente incita a xenofobia, mas seu poder de influência não é tão forte quanto em outros momentos da história. 

A cientista e professora explicou em entrevista à Jornalismo Júnior  que no século 20, pelo menos até os meados da década de 1960, as produções de mídia, sejam elas cinematográficas ou não, estavam bastante voltadas para o interesse do Estado. Diante disso, as ideologias e interesses políticos penetravam mais facilmente na população. Os governos tinham maior controle sobre o povo. 

Contudo, a partir da liberalização da economia, o processo de construção da informação se tornou mais privado. Nesse sentido, os meios de comunicação passaram cada vez mais das mãos do Estado para pessoas jurídicas, o que ampliou as fontes de informação. Além disso, a globalização e o surgimento da internet permitiram que a população tivesse acesso ao conhecimento por meios alternativos. Dessa forma, a influência da imprensa tradicional (rádio e tv) e das produções hollywoodianas passou a ser compartilhada com as mídias contemporâneas (internet: sites, blogs, redes sociais) o que, portanto, diminuiu o poder de influência de Hollywood. 

O discurso e ações xenófobas ainda estão presentes na indústria cinematográfica, mas a globalização e a regionalização do cinema vem permitindo a ascensão de filmes independentes, com custos menores e visões diferentes. Os gigantes de Hollywood ainda dominam as bilheterias, porém, outras produções ganham mais notoriedade a cada dia que passa. 

 

Cena do filme Parasita  [Imagem: Reprodução/CJ Entertainment]

Cena do filme Parasita  [Imagem: Reprodução/CJ Entertainment]

Exemplo disso são os filmes Parasita (2019), sul-coreano de suspense e humor-ácido, que se tornou a primeira obra estrangeira a ganhar o Oscar de melhor filme, e Milagre na Cela 7 (2019), uma produção da Turquia, país de maioria islâmica, que se tornou um dos mais vistos por streaming no Brasil.

Assim, fica evidente que o cinema não ocidental tem ganhado visibilidade, o que é extremamente importante, pois permite ao público uma visão menos dicotômica da sociedade, contudo, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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