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The Deuce: uma nova leva de bolhas rompidas
Controle Remoto
08 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: HBO / Divulgação

“É 1978. Punk, disco e pornô. A cidade nunca dorme.”

O episódio começa com jazz e um quê de rap. Intimista. Provocativo. Vem junto a uma voz masculina aveludada e uma paleta cromática tendendo ao vermelho terreno, com luzes baixas acompanhando o andar balançado de Candy (Maggie Gyllenhaal). Desde os instantes iniciais, o piloto da segunda temporada de The Deuce dita o tom que permeia todos os 58 minutos de duração – e, provavelmente, o de todos os próximos oito episódios.

A série dramática da HBO se passa em meados dos anos 1970 em Nova Iorque e apresenta um mundo velado por um invólucro opaco que, ao mesmo tempo que se mostra ostensivo e perene, é pouco nítido e, na maior parte das vezes, visto com olhos tortos e narizes torcidos pela “moral e bons costumes”. É o da prostituição, da indústria pornográfica, das drogas, da música disco e punk, da cafetinagem e da corrupção policial. Mais do que apenas tratá-lo, ela revela suas facetas mais cruas e cruéis, regadas a violência, racismo e machismo, engendrados na estrutura desse sistema bilionário.

É aí que reside a genialidade dos diretores David Simon e George Pelecanos (criadores da também genial The Wire): The Deuce não é uma série fácil de assistir. Claro, apresenta belíssimas filmografias e jogos de cena, personagens complexos, trilha sonora instigante e atuações impecáveis, e essa combinação de pormenores a compõe com maestria e ajudam o espectador a sorvê-la a longos goles. Mas não torna tal universo mais palatável.

Talvez essa seja justamente a intenção.

A série se propõe a escancarar uma realidade que pode não ser a melhor história para se contar, mas que é a necessária, a que roga por ser ouvida e desmistificada com urgência, dotada de um realismo absoluto, de um grau de profundidade denso, humano, imediatamente relacionável e verossímil. E esse viés se mostra presente integralmente em The Deuce – inclusive nos mesmos pormenores que corroboram para uma assimilação mais fácil da realidade abarcada por ela.

No episódio inaugural da segunda temporada, não seria diferente.

Para além de seu andar gingado, Candy se move como protagonista – e não apenas da série, mas de uma luta secular de se fazer protagonista da própria vida e do próprio corpo. Com uma atuação tão boa quanto a de Elisabeth Moss, vencedora do Emmy de Melhor Atriz de Série Dramática, Maggie Gyllenhaal introduz o universo da prostituição e dos bastidores da indústria de filmes pornográficos, e é por meio dela que é possível adentrar nos meandros desse invólucro tão bem protegido e intocável dos dias de hoje. É impossível não sentir o mínimo de empatia por ela.

Na tentativa de fazer pornôs “feministas” – se é que de fato existam pornôs feministas – seu papel como mulher e diretora é constantemente posto à prova e descreditado, em especial no que tange os questionamentos da personagem acerca da normatividade desse tipo de produção. Por que o enfoque é no prazer masculino? Por que não mostrar o que se passa na cabeça de uma mulher no momento do orgasmo, por exemplo? Por que mulheres se sujeitam a isso? É possível tornar o que é degradante em algo minimamente humanizado? São algumas das perguntas que circundam a atmosfera de The Deuce, e, vindas de uma prostituta sem cafetão de Manhattan, elas se tornam ainda mais urgentes e passíveis de discussão.  

James Franco interpreta dois dos outros protagonistas da série: os gêmeos Vincent “Vince” Martino e Frankie Martino. O primeiro é pintado como um dono de bar frustrado, traído pela mulher e recém separado. O segundo, inconsequente, viciado em jogos de azar e carismático. Neste núcleo, o olhar é voltado para a empreitada mafiosa de “conquistar a noite” da cidade que nunca dorme, imperando vagarosa e certeiramente o oneroso mercado de prostituição e da crescente indústria pornográfica.

Eu normalmente torcia o nariz para filmes com gêmeos desempenhados pelo mesmo ator, mas a série convence – e muito – na temática, com o uso de cortes inteligentes, estilos estéticos diferentes e até mesmo timbres vocais distintos, algo muito melhorado da primeira temporada. Apesar de talentoso, seguro e em uma de suas melhores performances de toda sua carreira, James Franco é acusado de assédio – e acho no mínimo contraditório tê-lo como protagonista e produtor executivo de uma série que, mesmo não sendo apelativa, trata de um tema tão íntimo, controverso e que tenta humanizar o que já visceralmente desumano.

A terceira ponta narrativa concerne à investigação jornalística de Sandra Washington, interpretada por Natalie Paul, sobre a vivência dentro do universo da prostituição e que logo evolui para algo mais: o da corrupção policial. Em uma abordagem detetivesca, conta com a ajuda do policial Chris Alston (Lawrence Gilliard Jr), um personagem que objetiva galgar cargos no meio policial, mas que, por ser negro, tem pouco sucesso na investida.

De maneira alguma a multiplicidade de pontos focais de The Deuce constrói uma narrativa difusa, bagunçada. Na verdade, Simon e Pelecanos se mostram – novamente – gênios de roteiro, de entroncamento de ideias, de veiculação de mensagens. Apenas com o panorama dos três núcleos principais é que se torna possível ter uma visão íntegra do todo, costurado com esmero e veículo de temas que transcendem o “arroz e feijão” desta série (o do mundo da prostituição, pornografia, máfia e corrupção policial). Cada núcleo da série é como um bloquinho de tijolo, edificando o masterpiece em que consiste o drama da HBO, e o cimento que une organicamente esses tijolos é o conjunto de personagens secundários que colorem as ruas do quadrilátero formado pela Rua 42 entre as Sétima e Oitava Avenidas – o Deuce.

Para além dessas narrativas urbanas e mais imediatas, a série resvala mensagens que saltam aos olhos quase que imediatamente. Apesar de recheada de bom humor e trajes coloridos, ela introduz com excelência temas como machismo, misoginia, homofobia, racismo e os concebe sem maquiagem alguma. Simon e Pelecanos capturam essa realidade e a desnudam diante de nossos olhos, nos fisgando por meio de armadilhas incríveis de narração. É um verdadeiro passeio por Nova Iorque dos anos 1970 – ou ainda pelo mundo atual, mostrando o quão devagar estamos caminhando há mais 40 anos.

A direção de arte da série também é impecável. Ruas sujas, mergulhadas em jornais rasgados, papéis descartados, preservativos usados, bitucas de cigarro, e recheadas de bares, lojas minguando, becos escuros, letreiros coloridos desorganizados. Todo o cenário constrói Nova Iorque como uma personagem única, que ao mesmo tempo em que é palco para vidas pulsantes e eletrizantes, também tem a sua própria. Mais do que isso, The Deuce é uma verdadeira aula de escolha de cenário, figurinos, maquiagens, intencionalidade e experiência sensorial. Enquanto assistia, minha mente podia, quase que literalmente, sentir os cheiros e aromas das cenas que dançavam em minha frente – o pungente das ruas, o característico de cerveja nos bares, o intoxicante de cigarro e o inebriante de cafés e mobília de couro. E reitero: todos esses detalhes corroboram, e muito, para tornar a narrativa pesada e densa mais palatável, mais fácil de ser consumida.

Sem sombra de dúvidas, The Deuce é um primor de série. Atuações ilustríssimas, roteiro farto, suntuoso e que inocula consciência social, composições técnicas e estéticas deslumbrantes e complexidade temática latente.

A verdade é que, se na primeira temporada o terreno estava sendo preparado, podemos ver, com certeza, que nesta segunda ele está muito bem assentado e pronto para encher os olhos de quem quiser se aventurar pelas ruas sujas e fascinantes de Manhattan.

Afinal, “é 1978. Punk, disco e pornô. A cidade nunca dorme.”

A segunda temporada de The Deuce estreia no domingo, 9 de setembro. Todos os episódios da anterior estão disponíveis pelo serviço de streaming da HBO.

Por Tamara Nassif
tams.nassif@gmail.com

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