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The Handmaid’s Tale: Bendita seja a liberdade feminina
Controle Remoto
24 nov 2017 | Por Jornalismo Júnior

“Blessed be the fruit”. Bendito seja o fruto. Esse é um dos lemas religiosos usados para reforçar a opressão que as mulheres de “The Handmaid’s Tale” sofrem dentro de uma teocracia autoritária e extremista. Retratando um cenário distópico, pessimista e violento, a série existe justamente para levantar e discutir a importância dos direitos das mulheres – e consequentemente, os humanos. Mesmo por trás de todo o fanatismo religioso, existe uma mensagem de luta e resistência. Por isso, é bom dizermos e reforçarmos: bendita seja a liberdade de escolha das mulheres. Bendito seja o feminismo. Porque sem eles, estamos a um passo de uma sociedade como a da obra.

“The Handmaid’s Tale” é baseada no romance homônimo da escritora canadense Margaret Atwood, traduzido no Brasil como “O Conto da Aia”. O livro foi escrito em 1985 e, apesar de 32 anos passados, mantém-se plenamente atual. Na televisão, a história se passa na década atual, trazendo um aspecto moderno – e até mais assustador – para a obra. Vemos mulheres que já conquistaram a maioria dos seus direitos, depois de inúmeros anos de luta para trabalhar, votar, sair quando quiser, namorar quem for que seja, ter sua autonomia. Após atos terroristas de um grupo religioso extremista a República de Gilead é decretada e, com ela, foram-se todos os direitos fundamentais das mulheres.

Esse novo país resume o suposto papel que as mulheres foram designadas há séculos: servir, procriar e ser mãe. O mundo passa por uma onda de infertilidade, na qual as mulheres nunca conseguem engravidar ou os bebês nascem mortos. Por essa razão, aquelas que ainda são capazes de ter filhos tornam-se tão valiosas para o Estado, transformando-as em escravas sexuais. São separadas de seus filhos e parceiros para gerar filhos aos “Comandantes” (homens importantes dentro do governo, típicos “homens do bem”), já que suas esposas não o podem. As outras mulheres inférteis são designadas “Marthas”, empregadas domésticas a serviço dos membros importantes dessa nova sociedade rigidamente organizada em castas.

As aias tem sua liberdade cerceada por todos os lados. Não podem realizar qualquer tarefa sem o pedido de seus “patrões”, não podem sair sem autorização e nem mesmo a leitura é permitida. Ficam presas em seus pequenos quartos pelo tempo que for. Um símbolo de sua prisão constante é o adereço branco que usam na cabeça, uma espécie de chapéu que cobre totalmente sua visão periférica e limita o olhar somente para frente. Uma prisão literal e figurada. Elas perdem sua identidade: não são mais chamadas por seus nomes próprios. Agora, seus nomes são designados de acordo com o comandante que servem. Nossa protagonista, por exemplo, é chamada de Offred, ou seja, “de Fred”, literalmente sua propriedade.

Além disso, o governo teocrático conta com um grande aparato militar, truculento e onipresente. O exército encontra-se na rua, com armas pesadas, vigiando as aias e as Marthas, garantindo que nenhum ponto de resistência seja criado e ninguém tenha ideias contrárias ao regime. Essas mulheres passam por um tipo de lavagem cerebral para acreditarem que aquela situação é a única solução para a sociedade e tornam-se adeptas da religião dos Comandantes. Aquelas que mostrarem o mínimo de dúvida, questionamento e raiva, são punidas fisicamente. E quem mostra-se “sem volta”, é morto: seja fuzilado, enforcado ou exilado em “colônias” infestadas com radioatividade.

A distopia e o presente 

É nesse cenário que Margaret Atwood conseguiu criar uma distopia não tão distópica. A narrativa de “The Handmaid’s Tale” não parece ser tão impossível de acontecer e, por isso, a sensação de temor e inquietude são amplificadas. Até mesmo a leitura de “1984”, de George Orwell, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, não gera tamanho desconforto – principalmente em nós, mulheres. Sentimos na pele o sofrimento de Offred, sua resistência e força descomunal meio a essa sociedade, lutando internamente para se manter sã.

Tendo contato com a obra, seja pelo livro ou pela série, todas nós nos tornamos Offred. É uma afronta pessoal ver a tortura física e psicológica que todas essas mulheres são submetidas. Ver todos esses direitos duramente conquistados sendo extintos nos doí e nos relembram dos tantos outros que estão em ameaça ou ainda nem foram garantidos. Por isso, “The Handmaid’s Tale” é tão forte, difícil de engolir, fica preso na garganta e não faz questão de descer. Representa, em meio a tantos elementos, a luta contra o patriarcado.

Meio a esse cenário desesperador, temos um dos pontos centrais da obra: a importância dos direitos femininos – e também humanos. Tanto o livro quanto a série surgem em momentos críticos, com a expansão de uma onda ultraconservadora mundo afora. Cada dia mais, o discurso de ódio, violento e preconceituoso, ganha espaço na política, nas redes sociais e na mídia. E é nesse ponto que a obra torna-se tão profética: diversos acontecimentos extremistas que ocorrem atualmente são tratados no livro escrito 30 anos atrás.

Não estamos tão longe da República de Gilead. Eleições presidenciais colocaram Donald Trump no poder. Na França, quase que Marine Le Pen, uma candidata de extrema direita abertamente xenófoba, é eleita. No Brasil, a popularidade de Jair Bolsonaro só aumenta. Um cara que defende que “bandido bom é bandido morto”, quer o armamento da população brasileira, que tece opiniões machistas e homofóbicas. É esse político que é endeusado nas redes sociais, considerado por muitos a pessoa que “salvará o Brasil”. Pois é. Todos esses políticos ameaçam o pleno exercício da democracia e a garantia indiscriminável de nossos direitos como cidadãos.

Contudo, na política brasileira, temos milhares de outros problemas além de Bolsonaro. Apesar de configurarmos constitucionalmente como um Estado Laico, muitas das decisões políticas são tomadas com base na religião católica. Uma bancada evangélica possui demasiada voz nos direitos individuais, os quais devem seguir seus preceitos religiosos. Vivemos em uma teocracia católica e não sabemos. Ou pelo menos fingimos não saber. E “The Handmaid’s Tale” nos alerta para o perigo que esse tipo de governo representa às liberdades pessoais e das minorias, principalmente. Basta um passo em falso para sermos esta sociedade fundamentalmente regida pela religião.

 

O tabu feminino persiste

Pensemos nos direitos femininos novamente. A mulher sempre foi vista – e a religião contribuiu muito na consolidação desse perfil – como a dona de casa, mãe e esposa. Deveria ser devota à família. Onde já se viu mulher poder sair, se divertir e ter prazer? Qualquer relacionamento não condicionado pelo casamento já a conferia um posto de “vadia”, “vagabunda”. Daí vem a popular expressão “essa mulher não é feita para casar”. Onde já se viu sair sozinha? Transar sem casar? Pior, transar no primeiro encontro? Ainda mais, não querer casar ou ter filhos? Todas essas opções eram consideradas abomináveis, e até hoje persistem como um tabu.

Ainda estamos rodeados por uma cultura misógina, machista e que culpa as mulheres por terem sofrido assédio. Ainda não nos sentimos seguras para andar na rua sozinha. Ainda não estamos confortáveis de usar a roupa que quisermos por medo. Agora me diga: tirando a óbvia violência e configuração governamental oficializada de “The Handmaid’s Tale”, qual a diferença no princípio da prisão que elas sofrem na ficção e da que nós passamos na realidade? Quase nenhuma. Uma é reflexo da outra.  

Podemos vislumbrar certa liberdade sexual, principalmente após a popularização dos métodos contraceptivos. Podemos decidir com quem e quando transar, se e quando ter filhos. É. Podemos mesmo? Temos plena e total autonomia de nossos corpos? Mandamos em nós mesmas? Eis o questionamento. Porque, olhando de maneira geral, a resposta mais clara é não. Pensando, por exemplo, na legalização do aborto, parece que não.

Esta é outra questão condicionada por princípios religiosos. É um pecado, eles dizem. A Bíblia não permite. Mesmo na ilegalidade, milhares de abortos são realizados clandestinamente e milhares de mulheres morrem, principalmente mulheres pobres e negras. Uma pesquisa realizada pelo Estado revelou que quatro mulheres por dia morrem por complicações de aborto. E mesmo assim a política brasileira continua a ignorar esse problema de saúde pública, não dando voz às mulheres, mas sim a um grupo majoritariamente composto por homens brancos, héteros, de classe média alta e religiosos.

Isso sem contar outros grupos socialmente excluídos, como a comunidade LGBT+. Na série, pessoas homossexuais são consideradas anomalias perante a Deus e são punidas violentamente. Na vida real, não é tão diferente. Muitos são os indivíduos vítimas do preconceito por sua orientação sexual e de gênero. No Brasil, apesar do grupo ter conquistado certos direitos, muitos deles ainda não são garantidos pela Constituição. A homofobia não é tratada por leis específicas no país e é registrada como outro tipo de crime. Por isso, não existem dados oficiais para contabilizar o número de ocorrências desse  tipo de violência. Mesmo assim, a ONG “Grupo Gay da Bahia” constatou em pesquisa que uma pessoa LGBT foi assassinada a cada 25 horas em 2016.

 

A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Os números são alarmantes e o problema vai muito mais fundo do que parece. É fruto de uma sociedade conservadora, patriarcal, racista, homofóbica e com um abismo social gigante. Nos auto intitulamos “civilizados”, mas não sabemos viver em harmonia e respeito. Não entendemos o que é diversidade e escolhas individuais. Queremos nos meter na vida alheia, dar palpites e obrigar as pessoas ao nosso redor a viver de acordo com os nossos valores. Vivemos em uma versão, por assim dizer, mais “light” de “The Handmaid’s Tale”. Mas não é por isso que não pode piorar.

Pois é. A arte imita a vida. Às vezes, essa imitação precisa ser feita de maneira extrema e exagerada para justamente nos alertar. Esses questionamentos e choques são necessários para provocar reflexões, para nos fazer parar e pensar: aonde estamos indo? Onde vamos parar? “The Handmaid’s Tale” faz isso com destreza. É uma série pesada, sim. Mas é absolutamente relevante e merece ser assistida.

Temos que olhar com cuidado e analisar seus detalhes e avisos. Temos que valorizar mais nossas liberdades e nossos direitos e lutar com ainda mais afinco para garanti-los. Não devemos deixar que outros, com seus preconceitos, intolerâncias e ideias rasas venham deteriorar nossa cidadania e nossa autonomia de ser. Ser quem quisermos, desde que isso não ultrapasse a linha do respeito ao próximo e não prejudique sua integridade física e moral. Bendita seja The Handmaid’s Tale por todas essas lições. Bendito seja os direitos humanos. Bendita seja a diversidade. Praise be!

Confira o trailer da série e não deixe de assistir:

Por Giovanna Simonetti
g_simonetti@usp.br

Leia também a resenha sobre a 2ª temporada da série

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