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Um tour pelo mundo das comédias românticas
CINÉFILOS
15 jun 2019 | Por Maria Eduarda Nogueira (mariaeduardanogueira@usp.br)

Imagem de capa: Laura Alegre – Comunicação Visual/Jornalismo Júnior

O ano era 1997. Dois filmes de romance estavam no top 20 de bilheterias mais vendidas: Titanic (1997) e O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend’s Wedding, 1997). Em 1998, o número subiu. Foi a vez de Quem Vai Ficar com Mary? (There’s Something about Mary, 1998), Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, 1998) e Mensagem para Você (You’ve Got Mail, 1998). Em 2016, os romances não alcançaram nem o top 25.

Podem culpar os filmes de herói, os remakes das animações, os live actions da Disney. Mas, na verdade, a decadência dos romances não pode ser explicada por fatores tão simples. Algumas falharam por não conseguirem se reinventar. O mesmo enredo com um casal heterossexual branco e rico, mudando apenas o cenário e os atores, não atrai mais. Nos anos 2000, essa era a fórmula perfeita para o sucesso. Mas as histórias tornaram-se repetitivas e muitas pessoas cansaram de não se sentirem representadas.

Nesse sentido, as comédias românticas atuais são bem melhores. A demanda do público por mais representatividade acabou contribuindo muito para o gênero, embora ele ainda esteja em crise. Filmes como Sobre Ontem à Noite (About Last Night, 2014) e Podres de Ricos (Crazy Rich Asians, 2018) são exemplos de como as rom coms ainda têm salvação. Mesmo que essa salvação esteja vindo em doses pequenas.

O casal de Sobre ontem à noite, filme que conta apenas com negros no elenco principal [Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Atualmente, as adaptações de livros são a forma mais certeira de garantir sucesso em filmes de romance. Para Todos os Garotos que Já Amei (To All the Boys I’ve Loved Before, 2018) e Com Amor, Simon (Love, Simon; 2018) são alguns exemplos recentes que caíram nas graças do público-alvo: adolescentes e jovens adultos.

Não que comédias românticas não possam ser apreciadas por pessoas mais velhas ‒ vide o sucesso de Simplesmente Complicado (It’s complicated, 2009) ‒ mas, via de regra, jovens adultos e adolescentes costumam ser os consumidores ávidos do gênero. Pelo menos até a chegada dos filmes de herói. Os efeitos técnicos impressionantes e os enredos chamativos acabaram conquistando o público, que prefere assistir heróis usando seus poderes e lutando contra vilões do que um casal se apaixonando em condições adversas.

Com a internet ‒ e a pirataria ‒, o público-alvo foi aos poucos diminuindo sua contribuição com as bilheterias. Baixar um filme ilegalmente ou até mesmo alugar em serviços como AppleTV, Telecine OnDemand e Youtube Movies se prova bem mais vantajoso (e barato). Isso sem mencionar os serviços de streaming, já consagrados como uma das formas de consumo de conteúdo dos millennials (jovens nascidos nos anos 80 e 90).

Portanto, por que produtores iriam gastar com filmes que não são sucessos garantidos e que têm altas chances de serem pirateados por aqueles que seriam os maiores contribuidores para a bilheteria? É melhor continuar investindo em live actions.

Simplesmente complicado tem um elenco de peso, que certamente contribuiu para o sucesso. Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin estrelam nessa comédia romântica mais adulta [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

Mas não sejamos totalmente pessimistas! Em 2018, fomos agraciados com alguns bons filmes do gênero e nos anos 2010, no geral, as coisas também não foram totalmente ruins. A questão é que o formato de contar histórias mudou ‒ o que, por vezes, fez perder toda a magia que envolvia as rom coms. E nem sempre esse novo formato dá certo.

Um exemplo marcante desse novo formato é A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth, 2009) que tenta se aproximar de Como Perder um Homem em 10 dias (How to Lose a Guy in 10 Days, 2003) com o enredo de dois protagonistas bem-sucedidos, com objetivos diferentes e brigas cão-e-gato. O longa de 2009 tinha até potencial, mas não conseguiu impactar. Não houve nenhuma cena marcante, como quando Matthew McConaughey atravessa a Brooklyn Bridge de moto e quase se acidenta para impedir que a personagem de Kate Hudson partisse para outra cidade.

O momento em que Ben (McConaughey) e Andie (Hudson) se encontram no meio da Brooklyn Bridge ‒ um clichê romântico, mas que cativa o espectador [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]

Os anos 2010 também foram cheios de filmes que tratavam de várias histórias ao mesmo tempo. Ele Não Está Tão Afim de Você (He’s Just Not That Into You, 2009), Idas e Vindas do Amor (Valentine’s Day, 2010) e também o icônico Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love; 2011), que provou que as comédias românticas em novo formato também merecem seu reconhecimento. Apesar de se tratar de histórias dentro do mesmo núcleo, o filme tem uma versatilidade incrível e encanta o espectador do início ao fim.

A química inegável de Ryan Gosling e Emma Stone não deve ser desconsiderada quando avaliamos o sucesso do filme. Alguns anos depois, esse mesmo par romântico seria reverenciado pelo papel em La La Land: Cantando Estações (La La Land, 2016). Em Amor a Toda Prova, a atuação de Steve Carrell, que certamente não estava em sua zona de conforto fazendo uma rom com, também foi essencial para que o longa se consolidasse como uma comédia romântica moderna, mas que traz magia ao público, assim como aquelas dos anos 1990 e 2000.

O momento em que o personagem de Gosling reproduz a icônica cena de Dirty Dancing é definitivamente um deleite para os olhos, além de se encaixar perfeitamente no enredo [Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

E falando em Ryan Gosling, é impossível não lembrar da linda história de Noah e Allie de Diário de uma Paixão (The Notebook, 2004). A adaptação do romance de Nicholas Sparks é um clássico das comédias românticas. Se há um filme para sintetizar a “era de ouro” do gênero, é esse.

Cenas como a do beijo na chuva ‒ um clichê muito bem-vindo nos momentos adequados ‒ e o momento final no asilo representam o magnetismo que muitos longas pecam em não trazer atualmente. Com certeza, o desenrolar da trama mais lento permitiu maior identificação do espectador, que sofreu junto com Noah e Allie as adversidades para que, enfim, ficassem juntos.

Muitas histórias não são capazes de prender o espectador, o que é essencial para qualquer produção cultural, mas principalmente para romances. A incapacidade de fazer o público sentir como se estivesse vivenciando a própria relação do casal protagonista prejudica (e muito!) a experiência de assistir uma rom com.

A clichê cena do beijo na chuva, mas que é muito bem arranjada em Diário de uma paixão [Imagem: Reprodução/Playarte Pictures]

O “amor para a toda a vida” de Diário de uma Paixão encanta, mas também é interessante observar casais improváveis desenrolarem suas tramas. Porque, convenhamos, é assim que costuma ocorrer na vida real. Noivas em Guerra (Bride Wars, 2009), Juntos Pelo Acaso (Life as We Know It, 2010) e A Proposta (The Proposal, 2009) mostram que é possível misturar comédia e romance sem prejudicar nenhum dos gêneros.

Os novos formatos de contar histórias de romance no cinema tendem a ser mais adequados para os tempos atuais. A idealização do “feitos um para o outro” ainda é bastante presente nos enredos, mas de tempos para cá, os obstáculos também ganharam espaço. Alguns filmes, inclusive, baseiam-se muito nessas “pedras no caminho” para contar a história, como Simplesmente Acontece (Love, Rosie; 2014), Três Vezes Amor (Definitely, Maybe; 2008) e Um Dia (One Day, 2011).

O casal de Um Dia é um dos maiores exemplos de que uma história com muitos obstáculos pode dar certo no final ‒ ou quase… [Imagem: Reprodução/Focus Features]

Assim como todos os outros gêneros cinematográficos, as rom coms têm seus exemplares bons e ruins. Vê-las desvalorizadas em detrimento de filmes mais enérgicos e com enredos mais dinâmicos parte o coração, mas é preciso considerar que os tempos mudaram.

Nos anos 1990 e 2000, as comédias românticas tiveram seu auge em relação à produção e bilheteria, mas quem fazia parte do elenco? Quem era representado como digno de ter uma história de amor nas telas de cinema? Os novos longas podem ter um jeito diferente de contar histórias. Mas, somado a isso, têm mais técnica e se aproximam mais das novas tendências.

O mais importante, afinal, é assistir a uma boa história de romance, com um toque de comédia e quem sabe, um casal dançando Thriller do Michael Jackson em uma festa de gala em Nova York…

Jennifer Garner e Mark Ruffalo dançando Thriller em De repente, 30 (13 going on 30, 2004), filme indispensável para quem quer começar seu tour pelo gênero [Imagem: Reprodução/Columbia Pictures]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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