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Vegetarianismo e esporte: um par possível?
ARQUIBANCADA
27 nov 2019 | Por Gabriella Sales (gabriellasm@usp.br)

“Mas você como o que?”; “desse jeito, vai enfraquecer!”; “não tem como ingerir proteína suficiente”. Todo vegano ou vegetariano provavelmente já ouviu ao menos uma dessas frases, ou algo semelhante, em algum momento da sua vida. A humanidade seguiu, uma dieta onívora, ou seja, composta por vegetais e animais. E, de fato, isso foi parte importante do processo de desenvolvimento do ser humano e da sua sociedade como é hoje. É com esse modelo de dieta que, geralmente, somos criados e nos acostumamos. Por isso, para muitas pessoas, parar de comer carnes e alimentos de origem animal parece impensável. Entretanto, nos últimos anos, o número de pessoas veganas e vegetarianas tem aumentado notoriamente. 

As razões para parar ou diminuir o consumo de alimentos de origem animal são muitas e variam de pessoa para pessoa, mas quase todos sofrem com o estereótipo cultivado, por muitos, em torno de veganos e vegetarianos. Muitas vezes, associa-se essas dietas a uma suposta fraqueza ou desnutrição, o que torna difícil relacionar as pessoas que a seguem ao esporte. O preconceito pode ser tamanho que, às vezes, chega até mesmo a declarações como a do treinador de UFC Ido Portal, em 2016: “não consigo ver dietas vegetarianas como algo saudável. Nunca encontrei um vegano que pudesse ter o mesmo desempenho com os mesmos níveis de energia que vi em alguém com uma dieta carnívora. Eu, atualmente, me recuso a trabalhar com vegetarianos”. 

A declaração de Portal foi feita à ESPN antes de uma luta do vegano Nate Diaz contra Conor McGregor, que era treinado por ele. Diaz, contudo, não precisou dizer nada para contrapor o treinador do adversário: bastou ganhar a luta. Embora seja emblemático por ser lutador de UFC – esporte que está bastante associado à força física -, Nate Diaz não é o único atleta de alta performance que decidiu adotar uma dieta vegana ou vegetariana. Esse é também o caso de outros grandes nomes do esporte, como Serena e Venus Williams, Carl Lewis e Mike Tyson (esse último, contudo, apenas depois de se aposentar).

 

Vegano, vegetariano… 

Embora existam muitos atletas que buscam reduzir o consumo de alimentos de origem animal, eles não seguem todos a mesma dieta. Isso porque existem vários tipos de dietas e estilo de vida, que podem ter diferenças grandes entre si. Algumas delas, inclusive, são muito desconhecidas, como a dieta crudívora e a frugívora. De todo jeito, há quem as siga e é importante entender as diferenças ao falar sobre isso.

Em geral, no dia a dia, as palavras que mais ouvimos são “vegano” e “vegetariano”. No senso comum, a diferença entre elas é que a primeira indica a exclusão de todo e qualquer alimento de origem animal, enquanto a segunda inclui alguns desses alimentos, e exclui somente as carnes como um todo (bovina, suína, peixes, aves, etc.). Entretanto, embora no cotidiano elas possam ser usadas dessa forma, os seus significados  não são exatamente esses, e existem vários outros tipos de dietas. 

O veganismo, no seu sentido real, não é propriamente uma dieta, mas sim um estilo de vida. A pessoa vegana não apenas para de consumir alimentos de origem animal, como também recusa todo produto que tenha componentes de origem animal ou que seja testado em animais. Por outro lado, vegetariano é aquele que não consome nenhum alimento de origem animal (incluindo leite e ovos), mas não necessariamente segue esse princípio para outros produtos. O termo correto para aquilo que compreendemos normalmente como vegetariano seria ovolactovegetariano. Ou seja, aquela pessoa que não consome carnes, mas inclui, por exemplo, ovos e leite em sua dieta. Além disso, também existem outras dietas, menos conhecidas, como a crudívora (que inclui apenas alimentos crus) e a frugívora (que inclui apenas frutos). 

 

Correndo contra a corrente

Para quem acha que a dieta vegana comum já não é nutritiva, pensar em comer apenas frutos e ser atleta chega a ser assustador. Para muitas pessoas, parece impossível ter uma boa resistência física com essa alimentação. Entretanto, Elisa Lamego está aí para provar o contrário. Ela é corredora de montanha e leva, hoje, uma dieta frugívora. Por muitos anos, Elisa foi vegetariana e a transição para o veganismo veio por conta de questões familiares: para a apoiar a mãe, que passava por um tratamento de câncer de mama. “Eu já sabia há tempos que a alimentação vegana e crua seria mais saudável. Então, aderi a comer muito mais cru do que cozido, até me alimentar completamente de forma crua, que é o que levo hoje em dia, mas muito mais frugívora do que crudívora”, conta. 

Quando começou a correr, Elisa já era vegana, e, segundo ela, isso nunca atrapalhou o seu desempenho como atleta. Ela diz que, como quando comia carne e outros produtos de origem animal, não executava o mesmo esporte que pratica hoje em dia, e nem com o mesmo foco, não é possível comparar, de fato, o seu desempenho antes e depois da mudança da dieta. “Mas, das poucas vezes que pude presenciar pessoas com nível de alimentação um pouco diferente da minha, a impressão que tenho é de que recuperação muscular, recuperação física, para mim, é muito mais tranquilo”, disse.

Quanto à principal questão levantada pelos céticos em relação à alimentação vegana, a falta de nutrientes, Elisa conta que não tem grandes problemas com isso. “Não uso suplemento, mas de tempos em tempos já aconteceram momentos da minha [vitamina] B12 baixar, e tive que fazer uso, por motivos de emergência”. Ela conta que, cotidianamente, ingere todos os nutrientes em suas refeições, feitas com alimentos variados e de boa qualidade. 

Realmente, muitas vezes, pessoas veganas prestam mais atenção na sua alimentação do que o geral, mas Elisa não vê isso como algo negativo.  “Não acho que é difícil adquirir todos os nutrientes necessários. Certamente é um desafio, mas as pessoas podem encarar os desafios de uma forma positiva ou não. Eu encaro como algo positivo”. Ela diz que gosta de ir a feira e preparar suas próprias refeições como parte de sua rotina.

Quanto ao preconceito, Elisa diz que não sofre muito, mesmo no meio esportivo. “Observo surpresa, e alguns dizem que não conseguem se enxergar fazendo da forma como faço. Eu acho que se deve, muitas vezes, por conta da ignorância, mas muitas vezes, também, por conta de tabus e de informações mal passadas pela mídia e mal absorvidas pela própria pessoa”. 

Arquibancada
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