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45ª Mostra Internacional de SP | ‘Ninguém ao Norte’

Um filme ruim mesmo para os iniciantes

CINÉFILOS
21 abr 2022 | Por Luísa Hirata (luisahirata75@usp.br)

Primeiro longa-metragem de Zhang Zebin, ator sem formação em direção conhecido por seu papel em Old Stone (2016), Ninguém ao Norte (No One in the North, 2021) se propõe a trabalhar Wu Feng (Sun Junsheng) e sua relação traumática com a mãe, que o abandonou quando ele era criança. O longa tem uma narrativa abstrata do início ao fim, o que não é um problema em si, mas, depois de todas as decepções que o enredo traz, acumula para a insatisfação do espectador.

A sinopse ajuda muito a guiar quem assiste diante da rareza de diálogos. Nas lentes P&B do protagonista, só é possível saber seu nome nos créditos, quando se descobre também que o filme é baseado em fatos reais. Num ritmo lento que permeia todo o longa, Wu Feng tenta recuperar traços de seu passado com a mãe ao observar as relações humanas a sua volta — já que ele mesmo não cultiva nenhuma —, registrando-as com sua câmera analógica. No presente, ele se sustenta cobrando dívidas de forma violenta.

Wu Feng captura e analisa pessoas e paisagens que o ajudam a lembrar da infância. [Imagem: Divulgação/Beijing World Vision International Film and TV Culture Media Co., Ltd]

Wu Feng captura e analisa pessoas e paisagens que o ajudam a lembrar da infância. [Imagem: Divulgação/Beijing World Vision International Film and TV Culture Media Co., Ltd]

Representantes da felicidade e boa sorte, os tsuru de origami pendurados no teto do quarto do protagonista são uns dos poucos feixes de cor — e emoção — de Ninguém ao Norte. Podem ser a esperança nutrida pelo personagem, um pássaro preso pelo peso do passado. (Sim, há a metáfora clichê do pássaro na gaiola.) Wu Feng é expressivamente estático a maior parte do tempo, mesmo quando chora, o que torna o longa bem abstrato.

Um dos homens (Wu Chengjun) que Wu Feng precisa cobrar tem uma esposa (Huang Shijia) e uma filha que lhe lembram muito de sua própria história: assim como essa mulher, a mãe de Wu Feng foi vítima de violência doméstica, o que a levou a abandoná-lo. Wu Feng acaba projetando sua mãe nessa jovem e passa a ver fantasmas dela, quase como alucinações. Na única foto que tem da família, ele coloca o rosto da jovem no lugar do da mãe, anteriormente cortado, por motivos que desconhecemos.

Raro momento no filme, mulher ganha cores ao se voltar para Wu Feng. [Imagem: Divulgação/Beijing World Vision International Film and TV Culture Media Co., Ltd]

Raro momento no filme, mulher ganha cores ao se voltar para Wu Feng. [Imagem: Divulgação/Beijing World Vision International Film and TV Culture Media Co., Ltd]

Mas é só. As resoluções não satisfazem, nem em relação à situação da jovem, nem quanto ao passado e presente de Wu Feng.

O telespectador vê

Silencioso, lento e quase superficial, Ninguém ao Norte não cativa apesar do potencial que o tema carrega. Um estudo de personagem que trabalha os impactos nas crianças — e futuras gerações — das relações familiares chinesas marcadas pela questão de gênero certamente abre espaço para muitas reflexões. Quanto ao ritmo, se o diretor tivesse optado por fazer um filme de média metragem, ou até mesmo curta, com cenas mais condensadas e outra dinâmica de acontecimentos, talvez teria tido mais sucesso em provocar emoções no espectador. Nesse caso, menos é mais — o que também combinaria com o baixo orçamento.

Esse filme faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. 

*Imagem da capa: Divulgação/45ª Mostra Internacional de SP

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