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Crise editorial no Brasil: o fim das livrarias?

Enquanto grandes redes de livrarias físicas desaparecem aos olhos do público, pequenas editoras e sites online prosperam e caracterizam uma antítese no mundo dos livros

Na Estante
16 ago 2021 | Por Duda Ventura (eduardaventura@usp.br)

Com a pandemia de Covid-19 assolando o Brasil, muito se fala sobre a crise econômica que tem fechado portas nos mais diversos setores. Contudo, no que tange o universo dos livros, a instabilidade e a crise editorial são latentes há anos, e, nos meses afetados pelo isolamento, observou-se um movimento contrário ao ocorrido em outras áreas: Amabily Mello, dona do instagram @surtosdeumaleitora, relata que, se não fosse pelo tempo disponibilizado pelas aulas a distância em consequência da pandemia, não teria lido a quantidade de livros que leu em 2020 e 2021. “Eu me encontrei de novo nesse mundo”, afirma.

Amabily não é a única a utilizar o tempo ganho em decorrência do isolamento social para atualizar as leituras — pesquisa apresentada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) mostrou que houve um aumento de 46,5% no número de obras vendidas no primeiro semestre de 2021 em comparação com o mesmo período em 2020. 

A demanda por distrações em meio ao cenário pandêmico cresceu exponencialmente, o que levou a uma série de inovações por parte dos criadores de artigos culturais – cantores se reinventaram em lives que imitavam shows, desenhistas passaram a vender suas obras on-line e atores realizaram peças por videochamada. Para o setor editorial, entretanto, embora os números sejam otimistas, os problemas se acumulam há anos, e o crescimento de vendas decorrente do isolamento social pode não ser suficiente para recuperar os danos causados pela perda de 4,6 milhões de leitores de 2015 a 2019, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2020)

 

Crise editorial: foto de mulher loira, de cabelos curtos e blusa vermelha com listras brancas, de costas, olhando uma mesa repleta de livros

A pandemia do Covid-19 atraiu leitores antes afastados do mundo dos livros. [Imagem: Reprodução/Pixabay]

Crise, concorrência e má gestão

Aqueles com o hábito de frequentar os centros comerciais das grandes cidades se depararam com o fechamento, a partir de 2018, de lojas de duas grandes empresas do ramo dos livros no Brasil: Saraiva e Cultura, com dívidas que, somadas, superam os 900 milhões de reais, passaram a destituir as livrarias físicas. As editoras que as supriam, com diversos pagamentos atrasados pelas duas gigantes livreiras, se surpreenderam ao observar pedidos de recuperação judicial para evitar a falência e sofreram com o prejuízo gerado pelo não pagamento dos exemplares disponibilizados antecipadamente por elas.

Nesse período, Saraiva e Cultura culparam a crise econômica que o Brasil enfrentava, os preços praticados pela Amazon — loja digital que inclui vários segmentos, inclusive livros —, a defasagem no tempo de publicação em relação aos lançamentos internacionais dos livros no país e a falta do hábito de leitura pelos brasileiros. Cabe uma observação atenta a cada um desses fatores, contudo, o principal deles, o qual também não era mencionado pelas livrarias, se destaca: a má gestão de suas lojas e o aparente menosprezo pela concorrência e pelos consumidores. 

Pedro Herz, dono da Livraria Cultura, em uma entrevista para a Folha de S. Paulo em 2011, diminuiu o impacto da vinda da Amazon ao Brasil, alegando que “ela tem um modelo que não vai funcionar”. Dez anos se passaram e a multinacional é o principal nome citado pelos autores e leitores no país.

Clara Savelli, primeira autora nacional a publicar no segmento jovem da editora Intrínseca, o que ocorreu apenas em 2019, afirma que a Amazon, com sua facilidade de publicação para autores independentes e preços mais acessíveis, ajuda na popularização da leitura e apresenta vantagens para o consumidor. Amabilly concorda e acrescenta que, por meio da política de links de criadores de conteúdo — com a qual os influenciadores digitais podem divulgar seus links criados no site da Amazon e, a cada compra realizada por meio dele, receber uma porcentagem —, a loja também colabora com aqueles que trabalham com a divulgação de obras literárias nas redes sociais. 

 

Crise editorial: imagem de um kindle preto com tela branca exibindo frases em tinta preta. O kindle está apoiado em uma pilha de livros, sobre uma mesa

Os livros digitais ocupam cada vez mais espaço no mundo editorial, alcançando leitores de todas as idades. [Imagem: Reprodução/Pixabay]


A Amazon também facilita negociações com editoras ao pagá-las à vista, o que garante maior segurança financeira para as mesmas. A capacidade de negociação da maior varejista do mundo se relaciona a seu capital acumulado, muitas vezes superior ao das livrarias brasileiras. No entanto, ainda que não pudessem competir em igualdade financeira com a empresa de Jeff Bezos, Saraiva e Cultura teriam a seu favor um diferencial: oferecer uma experiência mais pessoal a seus consumidores no atendimento presencial ao cliente.
A experiência das livrarias físicas não pode ser substituída pela Amazon — não importa quantos “outras pessoas também compraram” ilustrem seu site.

Entretanto, busca e compra de livros em lojas físicas de grandes empresas livreiras nem sempre se configuram uma experiência agradável. Núria Campos, aluna de Geografia na Universidade de São Paulo (USP), conta que todas as vezes em que foi a lojas físicas da Saraiva, os atendentes não sabiam do que ela estava falando e, quando raramente sabiam, diziam que o livro precisaria ser encomendado e chegaria em muitos dias, o que tornou-a adepta das compras on-line.

A idealização do modelo de leitura on-line por meio do kindle — aparelho eletrônico destinado exclusivamente a livros digitais comprados na loja da Amazon — também é um diferencial atrativo, uma vez que, compacto e econômico, ele se encaixa nas realidades digitais das novas gerações acostumadas com os celulares sempre em mãos. 

A pessoalidade das livrarias de nicho

Ainda que a Amazon chame atenção dos leitores por seus preços baixos, há quem acredite que sua política de dumping — vender produtos abaixo do preço de custo até formar um monopólio — é não somente prejudicial para as outras livrarias, mas também para os leitores. Tadeu Breda, sócio-fundador da Editora Elefante, aponta para as causas políticas para não trabalharem com a Amazon: “Vendendo em livrarias de bairro você tem uma experiência muito humana, pagando um pouco mais, mas tendo um contato com as pessoas. Há uma história naquele livro.” 

É nesse contexto que, mesmo com o fechamento de lojas das maiores empresas do setor, pequenas editoras e livrarias prosperam. A comunicação direta e a preocupação com as demandas e opiniões dos leitores se colocam no centro das vendas, e livrarias e editoras de nicho proliferam e atendem aos mais variados públicos. É o caso, por exemplo, da própria Elefante, que se volta para um público mais politizado, e da Antofágica, que comercializa edições de luxo de livros clássicos.

[Reprodução/Twitter]

As redes sociais são outro elemento que cumpre um papel crucial em um país em que as pessoas leem, em média, apenas dois livros por ano: enquanto falas como “só os ricos leem” são proferidas pela Receita Federal, nas plataformas digitais pessoas de todas as classes sociais indicam obras que lhes marcaram por algum motivo. Essa abertura, todavia, abre margem para posicionamentos como o do influenciador digital Felipe Neto, que alegou que a obrigatoriedade da leitura de obras como as de Machado de Assis são um desserviço.

O professor Pedro Ivo Dias, formado em Letras pela Universidade de São Paulo, argumenta que a falta de interesse pelos livros na adolescência, época na qual as obras de Machado são trabalhadas na escola, não se dá pela suposta dificuldade dos mesmos, como o youtuber afirmou, mas sim pela falta de preparo que as escolas deveriam desenvolver com os alunos desde o Ensino Fundamental, o que nem sempre ocorre. 


A crise editorial é o fim das livrarias? 

As pessoas leem como nunca: legendas de fotos, tweets de até 280 caracteres e outros textos curtos nunca puderam ser tão facilmente acessados como são com as tecnologias atuais. Os brasileiros podem demonstrar, pelo baixo número de obras lidas anualmente, pouco interesse na leitura de livros, mas o ato de ler não é o obstáculo. 

A crise editorial vivenciada por algumas empresas ligadas ao universo literário, no Brasil, passa pela má gestão, mas abre espaço para novas propostas e formas de enxergar o mercado, como feito pelas médias e pequenas editoras e livrarias. Assim, enquanto portas — ou sites — são inaugurados, o mercado editorial se reinventa e dá chance para que o sistema educacional brasileiro acompanhe-o, fazendo também sua parte no desenvolver do interesse dos jovens pela leitura.

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