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Literatura contemporânea digital: a migração para o meio eletrônico
Na Estante
28 out 2020 | Por Wálace de Jesus (walace.jesus@usp.br)

Com o desenvolvimento das redes sociais surgem novas formas de se escrever o presente online. No campo literário, nasce o espaço para uma literatura contemporânea digital, específica para esse meio, que se remodela com o tempo. 

O surgimento da internet em 1969 e sua popularização pelo mundo na década de 1990 dá início a revolução tecnológica que vivemos até hoje. É nesse momento também que surgem as primeiras redes sociais, aproximando pessoas, culturas e vivências. Elas se espalharam pelo mundo e passaram a intervir nos diversos setores da sociedade: com tais redes surgiram novas formas de se trabalhar, relacionar e educar. Essa intervenção também acontece na literatura. 

Escrita e impressa no modelo clássico nos séculos passados, a literatura alcança, gradualmente, novos espaços com o avanço da internet: as redes sociais, como Facebook, Instagram, Twitter, Tumblr, entre outras, passam a fomentar um novo movimento literário. Novos escritores passam a transmitir suas obras através delas, e criam uma literatura contemporânea digital

[Imagem: Reprodução/Pixabay]

[Imagem: Reprodução/Pixabay]

Esse formato é originalmente conceituado, a partir da década de 90, como toda obra feita por meio de computadores. O conceito amplia-se quando o avanço da tecnologia traz para a sociedade novos aparelhos eletrônicos, como notebooks, tablets e smartphones. 

Também conhecida como e-literature, tal literatura é voltada totalmente para os meios digitais e conta com ferramentas exclusivas da hipermídia: sons, animações e vídeos são exemplos. São tendências que tornam essa categoria diferente de qualquer outra. Distingue-se especialmente da literatura digitalizada, que traz livros do mundo físico para o eletrônico através dos e-books e dispositivos de leitura próprios para a função, como o Kindle.

O surgimento do ciberpoema é protagonista na chegada da literatura ao patamar digital, e dá origem aos moldes de produção de textos eletrônicos que conhecemos hoje. 

Com as redes sociais, o movimento da literatura online ganha notoriedade, principalmente pelo público da web que passa a participar efetivamente dessa nova corrente. O professor Bruno César Evangelista Silva, formado em Arteterapia pela UNESP, afirma que “toda e qualquer forma que faça a literatura chegar a um novo tipo de público é muito válida e bem-vinda”. E isso de fato acontece diariamente. Sobre a validade dessa nova corrente, ele considera que “não importa o veículo que faz com que a arte chegue nas pessoas, o que importa é o conteúdo”.

Sobre a inovação do novo meio literário Lucas Amorim de Oliveira, escritor digital e dono da página Xícara de Poemas no Instagram, diz que essa literatura é uma inovação porque “usa a internet, um veículo totalmente tecnológico, mas não abandona as raízes, o clássico; não é uma coisa totalmente oposta.” Sem dúvidas, o surgimento da literatura eletrônica não supera a tradicional, assim como o surgimento do cinema não superou o teatro, e tampouco a fotografia desvalorizou a pintura. Pelo contrário, serve como uma aliada em tempos de excessos de mídias sociais e desvalorização do livro impresso. 

Autoria de Lucas Oliveira Amorim e exemplo de literatura nas redes sociais [Imagem: Reprodução/Lucas Amorim]

Autoria de Lucas Oliveira Amorim e exemplo de literatura nas redes sociais [Imagem: Reprodução/Lucas Amorim]

Assim como a internet facilitou a criação dessa nova literatura, também incentivou os adeptos a ela. Lucas é um exemplo, foi criador de roteiros de histórias em quadrinhos na infância e decidiu criar uma página no Facebook para divulgar poesias de sua autoria, antes guardadas no bloco de notas do seu celular. E foi assim que ele se deparou com o movimento literário digital e nele se inseriu como escritor. 

Embora fortemente presente no Facebook, o formato não se limita somente a ele, tendo em vista que o Instagram é a rede queridinha dos poetas “digitais-contemporâneos”. Segundo Lucas, “a cada dia que passa novos artistas aparecem na internet. A cada momento aparece um escritor, um poeta com uma página publicando sua poesia, sua obra, seus textos”.

O meio digital é um ambiente de terapia a partir da arte para o público, mas vai além disso. É também mecanismo para divulgação de novos “e-artistas”. Sobre isso Bruno César destaca a importância do movimento, “sobretudo pela democratização da arte e pela divulgação de novos artistas que não possuem oportunidade nas mídias tradicionais”. A praticidade de se autopublicar na internet abre portas para o mundo literário, sendo a publicação no mercado editorial mais complicada, principalmente pela burocracia envolvida. A pluralidade é resultado imediato disso: já que não há restrições de publicações nas redes, cada um encontra o espaço necessário para mostrar suas obras e assim alcançar o tão desejado público. Nesse mesmo raciocínio, Lucas Amorim destaca que “o espaço é fixo e bem amplo, está ali para todo mundo, e por isso que existe essa variedade de escritores, de poetas e de artistas”. Com alguns cliques, os usuários podem encontrar e compartilhar milhares de conteúdos.

Além da amplitude que a internet proporciona, o retorno que os artistas digitais têm em comparação ao modo tradicional de publicação das obras é muito maior. “Cada postagem de uma poesia minha rapidamente tem uma interação: um comentário, uma crítica, ou até mesmo uma curtida. Tenho retorno em questão de minutos; por conta de uma só publicação posso conseguir vários seguidores”, destaca Lucas. 

Mas o modo tradicional literatura, novamente, não se configura como antagonista. Muitos artistas, quando atingem certo números de seguidores, optam pela publicação de livros físicos, como ocorreu com o livro Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente, de Igor Pires da Silva — inspirado em uma página do Facebook, o livro vendeu mais de 70 mil exemplares em maio de 2018. Outros exemplos podem ser conferidos no infográfico da Innovare Pesquisa, que aborda sobre “Literatura na Era Digital”.

 

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Hoje é dia mundial do livro. Qual desses é o seu favorito? ❤️🤍🖤 📸 @phdrogomes

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É assim que a literatura tradicional se mostra persistente, embora o público seja mais difícil de ser capturado por essa via: “o livro físico demora um pouco mais a ter retorno, não é na mesma eficácia e velocidade que na mídia digital”, afirma Lucas a respeito do feedback dos livros físicos.

A internet promove a facilidade de se criar arte e de acessá-la, principalmente através da literatura. Entretanto, a falta da democratização do acesso aos meios digitais e, principalmente, à internet, impossibilita o contato de milhões de brasileiros com esse nova corrente —  dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de abril deste ano mostram que quase 26% da população ainda é alheia à grande rede. 

“As redes podem acabar, o livro físico não”, aponta Lucas. É inimaginável uma sociedade na qual a internet e as redes sociais acabem, visto a dependência que criamos diante delas. No entanto, a efemeridade das redes é perceptível, e um exemplo disso foi o Orkut, rede social que durou dez anos, mas foi superada pelo Facebook em 2012. Em contraponto à volatilidade das redes, os livros físicos persistem há séculos e, apesar da popularização dos formatos digitais, nunca caem em desuso.

Seja nas redes sociais ou no livro físico, a literatura persiste. Milhares de novos escritores surgem por dia na internet, ao passo que milhares de exemplares de livros são vendidos no mercado editorial. A literatura contemporânea digital parece que veio para ficar e é exemplo de como os grandes pilares do conhecimento estão se reorganizando durante a era digital do século 21. Em uma amálgama necessária, o mundo físico e o digital se conectam e transformam o mundo, os meios de comunicação e a sociedade. A e-literature é resultado disso e se revela como a nova forma de literatura do milênio.

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