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‘A Batalha do Chile’: o uso do cinema como material histórico

Conheça a história e os detalhes de como a ditadura chilena, que completou 52 anos em 2025, foi visceralmente retratada em um dos principais documentários políticos da América Latina
Por Gustavo Santos (gustalima1306@usp.br)

Considerado pela revista americana Cinéaste como um dos 10 melhores filmes políticos do mundo, a série documental A Batalha do Chile (La batalla de Chile: La lucha de un pueblo sin armas, 1975, 1976, 1979), do diretor Patricio Guzmán, reconstrói os detalhes da ditadura no Chile, considerada a mais sangrenta da América Latina, capturando a história enquanto acontecia. Dividido em três partes, o documentário acompanha a polarização política no governo socialista de Salvador Allende (1908-1973), a consolidação do golpe de Augusto Pinochet (1915-2006) e a resistência popular frente à extrema direita. 

O contexto chileno antes do golpe

Durante o período da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética disputavam o controle da hegemonia global, enquanto o Chile se apresentou como um caso único dentro da América Latina. Em contrapartida à Cuba, que realizou sua revolução socialista por vias armadas, Salvador Allende, um líder político também da esquerda marxista, foi democraticamente eleito presidente, sem rupturas revolucionárias, por meio da Unidade Popular, uma coligação de grupos da esquerda.

Em um governo pautado nas ideias da “via chilena ao socialismo”, que pretendia criar um estado popular de economia planificada, Allende utilizou as ferramentas do estado democratico de direito para realizar inúmeras reformas no país, como a nacionalização de empresas, a repartição de terras para reforma agrária, a estatização de bancos e também das minas de cobre. 

Em entrevista ao Cinéfilos, Samuel Torres Bueno, doutorando em história pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), porém, alerta sobre as dificuldades enfrentadas na consolidação de um projeto marxista na América Latina, tomada pela polarização. “Esse período da Unidade Popular foi amplamente marcado por dois antagonismos: o histórico entre a burguesia e o proletariado. Mas, também, havia o antogonismo entre a via institucional, pregada por Allende, e a via vinda de baixo, representada pelas bases populares, que defendiam uma revolução armada”. O historiador define que esses antagonismos são retratados de forma magistral e visceral na icônica trilogia A Batalha do Chile.

Parte 1: a insurreição da burguesia (1975)

As gravações do documentário de Guzmán se iniciaram 6 meses antes do golpe militar, durante as eleições para o parlamento. Com imagens gravadas em um rolo de filme doado pelo cineasta francês Chris Marker, diversas entrevistas e muita agitação política, o primeiro capítulo retrata como a classe média e as elites conservadoras se organizaram na oposição contra Allende. 

Em uma equipe reduzida, apenas com amigos e estudantes de cinema, a intenção inicial das filmagens do diretor era retratar a experiência da unidade popular e, independente de ideologias políticas, como todo um país lutava por mudanças socioeconômicas.

“Graças ao presidente eu tenho uma linda casa, com comorbidades, mas que não falta pão” afirma uma entrevistada durante o longa. Os primeiros anos do governo Allende apresentaram crescimento no bem-estar social, onde os aumentos salariais provocaram um alto consumo de bens duráveis e não duráveis, sobretudo domésticos. 

Porém, a planificação da economia chilena foi considerada uma reforma “radical” entre os setores conservadores e logo promoveu uma reação contrária não somente no contexto interno, mas também internacional. Para Samuel, o processo que levou o Chile até o golpe militar foi a união entre a direita chilena e a influência dos Estados Unidos contra as medidas populares, implementadas por Allende, no contexto da Guerra Fria. 

Ainda no começo de sua carreira política, Salvador Allende discursando no aniversário da Unidade Popular, em 1939 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

As filmagens acompanham algumas das principais ofensivas realizadas pela oposição até o estopim do golpe militar. No parlamento chileno, o diretor acompanhou o boicote realizado contra a Unidade Popular a partir da eleição de Eduardo Frei, do Partido Democrata Cristão, no senado. O documentário relata que diversas acusações foram realizadas contra os ministros de Allende visando a queda de sua popularidade. 

Em três meses, sete ministros renunciaram ao cargo. A trilogia também resgata diversas gravações do grupo Patria e Liberdade, que Samuel define como “uma milícia de extremo direita que fazia atentados contra sedes de sindicatos e partidos de esquerda”. Guzman informa que, dentro da milícia, havia o envolvimento de cerca de 40 agentes da CIA.

“O país viveu uma intensa polarização política, não só entre entre os setores populares e a elite, mas também dentro da própria Unidade Popular, porque era uma coalizão de partidos da esquerda muito diversa entre si.”

Samuel Torres Bueno

“Com qualquer resultado estaremos ferrados”, desabafa um motorista durante as filmagens do documentário nas eleições ao parlamento. A realização de greves também foi fundamental para a queda da popularidade de Allende. O documentário acompanha a ofensiva das organizações patronais em conjunto aos EUA. 

O país norte americano, propositalmente, deixa de enviar peças de automóveis para viação, o que provoca uma crise no abastecimento interno do país. Nas indústrias, greves nas minas de cobre também demonstram insatisfação por parte das camadas populares, defensores de Allende. A primeira parte do documentário é encerrada com imagens impressionantes da morte de Leonardo Henrichsen, um fotojornalista argentino que contribuiu para as filmagens do longa. 

Em 29 de junho de 1973, durante uma tentativa de golpe, o câmera gravou não somente a ação de um pequeno grupo de militares, mas também seu próprio assasinato, realizado por Héctor Bustamante, um oficial de alta patente. “Para a oposição, era o fim da perspectiva eleitoral. A estratégia agora é o golpe”, afirma Guzmán, um dos narradores do próprio documentário.

Parte 2: o golpe militar (1976)

Uma tela preta. Sons de helicópteros, tiros e ambulâncias. A segunda parte se inicia com imagens da tentativa de golpe que levou à morte de Leonardo. “Lutar, criar, poder popular”, gritam parte dos aliados de Allende pelas ruas, na defesa por uma revolução armada. 

O documentário traz cenas exclusivas da agitação no entorno do Palácio de La Moneda. É possível acompanhar a força tarefa realizada pelo General Carlos Prats, aliado de Allende, que defende a convocação de um estado de sítio para combater os golpistas. Nessas mesmas filmagens, é possível observar no canto direito da tela, caminhando junto do presidente e de Prats, Augusto Pinochet, o principal líder da cruel ditadura que seria instalada poucos meses após esse caso.

“O principal para um documentarista é ver o mundo onde vive, identificar problemas e procurar na realidade o que é interessante.”

Patricio Guzmán, durante o programa Conversa com o Bial

A Batalha do Chile apresenta grande sucesso e repercussão internacional, uma vez que sua fidelidade aos fatos e atenção aos detalhes, mesmo em meio a perseguição política, concretizou um trabalho documental único no período de sua criação. 

Os documentários são influenciados por um movimento dos anos 60 chamado Cinema Direto, em que o uso de câmeras portáteis, gravação de som sincronizado e equipes reduzidas possibilitavam filmagens mais espontâneas e menos controladas. As tensões sociais são filmadas quase que integralmente na tríade de Guzmán. 

Samuel define que “a partir das greves de outubro de 1972, o Chile começou a literalmente ferver em chamas”, e A Batalha do Chile conseguiu transportar o público para o epicentro desse caos. 

“Estamos lutando contra a burocracia mas dentro de nossas próprias organizações, nossos próprios sindicatos, nosso próprio governo. Nós estamos cansados”, desabafa um operário que defende a revolução de Allende — pela via armada, e não institucional — durante o longa. 

A segunda parte do documentário continua com imagens de inúmeras entrevistas e polarização política. Dentre as imagens, Guzman traz um debate político extremamente acalorado entre um membro da Unidade Popular e um político do Partido Nacional, um dos principais setores contrários ao Allende. 

O documentário também mostra que a estratégia realizada pelos EUA que provocou uma crise no abastecimento interno chileno é realizada novamente, porém, por parte dos donos das transportadoras do país. Enquanto a Unidade Popular e as camadas populares discutem sobre a urgência da defesa armada no país, o presidente segue em busca da conciliação com o partido democrata-cristão, o que desagrada a extrema direita e fragmenta os partidos de esquerda. 11 de setembro de 1973.

A parte finaliza com as imagens do bombardeio ao Palácio de La Moneda e áudios de Salvador Allende na manhã do golpe “pagarei com a vida a lealdade do povo”, afirma o líder da Unidade Popular antes de sua morte. Chega ao fim a democracia mais longa da América Latina.

Logo no período da manhã, imagens do bombardeio realizado no Palácio de La Moneda, em Santiago, poucos meses após outra tentativa de golpe [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Parte 3: o poder popular

Diferente das duas obras anteriores, a terceira e última parte da tríade de Guzman não segue a cronologia histórica de forma linear e não retorna com imagens da ditadura, mas sim com gravações da vitória presidencial de Salvador Allende, em 1970. 

Essa escolha narrativa ocorreu devido a censura do Consejo de Calificación Cinematográfica, órgão responsável pela fiscalização dos produtos audiovisuais chilenos durante o regime militar. Outro órgão relevante para o funcionamento da ditadura era o Instituto Nacional de Investigações (DINA), em que concentrava-se a polícia política encarregada pela perseguição dos opositores. 

Jorge Müller Silva, principal cinegrafista do documentário, foi sequestrado pela DINA em 1974 e seu corpo nunca foi encontrado. Sua memória é relembrada em toda a tríade.

Mesmo com os ataques realizados pela Pátria e Liberdade e demais partidos políticos da extrema direita, Allende movimentou as massas populares em prol da revolução socialista [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Dentre as especificidades da ditadura chilena, Samuel destaca que a alta personalização do regime e a presença de um esquadrão feminino responsável por torturas são dois fatos curiosos que tornaram essa ditadura única dentre as demais da América Latina. 

Entretanto, segundo o historiador, o alto número de exílios políticos foi o principal aparato repressivo utilizado por Augusto Pinochet. Com a chegada da ditadura, Guzmán também foi exilado e produziu a montagem de seus filmes em Cuba, com o auxílio do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (ICAIC). 

O país já apresentava proximidades políticas com o Chile de Allende e da Unidade Popular, assim, diversos artistas exilados conseguiram produzir suas obras por meio do instituto. Nascia assim, o Cinema do Exílio, “o cinema e a literatura de exílio foram as instâncias responsáveis por manter a cultura chilena viva mesmo fora do país”, explica Samuel. Dentre suas características, é possível citar o caráter denunciatório das obras, assim como a presença dos relatos das difíceis condições de ser um exilado político.

A última parte busca revisitar a organização e resistência popular diante da possibilidade de um golpe. É possível destacar as inúmeras imagens dos protestos de apoio a Allende, assim como gravações dos cordões industriais, agrupações de fábricas e empresas coordenadas pelos trabalhadores. “É um primeiro germe de um poder popular”, conta Guzman, em sua narração. 

A Batalha do Chile também está inclusa no chamado Nuevo Cine Chileno. Influenciados pelo neorealismo italiano, esse tipo de cinema buscou trazer a urgência de uma identidade cultural chilena a partir dos vínculos populares e discursos anti-imperialistas, conscientizando a população quanto à revolução.

“Os filmes não são meras representações da realidade. Eles podem influenciar diretamente em mudanças sociais, mobilizar discursos, resistências, levar a sociedade a inquietação. Os filmes são capazes de intervir na história.”

Samuel Torres Bueno

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