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‘Kokuho: O Preço da Perfeição’ transforma a tradição japonesa em um retrato universal

Obra se tornou o filme live-action de maior bilheteria do Japão e concorre ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Maquiagem e Penteado
Por Júlia Sardinha (juliasardinha@usp.br)

Assim como “saudade” é o maior exemplo de palavra intraduzível da língua portuguesa, O japonês também abriga termos que condensam experiências culturais específicas. “Ikigai” (生き甲斐), por exemplo, expressa a ideia de se ter um propósito, a razão pela qual alguém se levanta todas as manhãs. Essa dimensão linguística pode ir além e condicionar a forma como vivemos o mundo.

Tive essa experiência com Kokuho: O Preço da Perfeição (国宝, 2025), filme que estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas brasileiros. Como o próprio subtítulo sugere, imaginei um enredo com reviravoltas, enquadramentos e diálogos substancialmente próximos ao já feito e conhecido nos filmes ocidentais. Ainda bem que eu estava enganada e acabei com uma narrativa sobre arte e lógica cultural própria.

Baseado no livro homônimo de Shuichi Yoshida, publicado em 2018, o filme se insere em uma linha respeitável de obras que, em si mesmas, investigam o custo pessoal e profissional de se fazer arte. A diferença é que, ao contrário de narrativas que tangenciam o tema com certa pressa melodramática, em Kokuho há uma dedicação ao ofício: cada gesto, cada olhar e até mesmo cada silêncio carrega o peso de décadas dedicadas à perfeição artística.

Kokuho não é um filme que agradará qualquer um. Digo isso quanto ao interesse do telespectador, já que além de ser longo, com quase três horas de duração, é um diferencial que se tenha o mínimo interesse pela cultura oriental para imergir o máximo possível na trama. Com esses dois pontos em mente, creio que não haja motivos para não se identificar ou gostar do filme.

O kabuki é uma forma de arte tradicional japonesa do século XVII que combina teatro, dança e música com maquiagem, figurinos elaborados e atuações exageradas [Imagem: Divulgação/Toho

O longa percorre cinquenta anos da vida de Kikuo Tachibana, interpretado por Sōya Kurokawa, na infância, e por Ryo Yoshizawa, na fase adulta. Tudo começa na cidade japonesa de Nagasaki, em 1964 e, após sucessivos saltos temporais, encerra-se em 2014. Até parece paradoxal relatar essa “corrida no tempo” quando Kokuho é um longa-metragem que faz jus ao “longa”, mas esse é um dos detalhes que o faz hipnótico: não há a necessidade da trama ser urgente, até porque ela coloca o seu telespectador na função de um carpinteiro que esculpe com cuidado e atenção a sua escultura. 

Em grande parte, isso se deve à ambivalência do nosso protagonista. Aqui, o diretor Sang-il Lee – conhecido por filmes como The Wandering Moon (2022), Rage (2016) e Unforgiven (2013) – não nos convida a amar ou odiar o personagem de Yoshizawa, mas sim a observá-lo, seja acompanhando o seu crescimento como pessoa, dos 14 aos 64 anos, ou como um profissional orgulhoso e meticuloso até a obsessão sobre a sua arte.

O eixo central da trama é o kabuki, uma expressão teatral japonesa datada do século XVII e considerada, até os dias de hoje, como um “negócio de família” passado de pai para filho. Filho de um chefe da yakuza – termo que se refere à grupos de crime organizado no Japão, conhecidos por suas tatuagens extensas e rígida hierarquia –, Kikuo encontra no palco uma vocação inesperada e que era incentivada pelo pai até o seu assassinato.

Órfão, com a honra da família ferida e uma tentativa fracassada de vingança, Kikuo é acolhido pela família do ator de kabuki Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe). Ele, então, passa a treinar com o filho do seu mestre, Shunsuke Ogaki (Ryusei Yokohama) e ambos estabelecem uma relação marcada por um afeto fraternal, intensa rivalidade e silêncio.

Kokuho traz em si discussões muito intensas sobre a tradicionalidade japonesa, em especial relacionadas à hereditariedade por trás do kabuki. Aqui, vemos dois homens talentosos, competitivos e apaixonados pela mesma vocação: a de onnagata, isto é, atores homens especializados em interpretarem papéis femininos nas peças de kabuki – já que as mulheres eram historicamente proibidas. Isso tudo enquanto ambos enfrentam, fora dos palcos, masculinidades frágeis e crises de identidade, questões essas que o filme retrata com situações que poderiam muito bem ocorrer na vida real.

Os atores treinaram durante 18 meses para interpretarem os seus papéis, consultando-se constantemente com onnagatas japoneses consagrados
[Imagem: Divulgação/Toho]

O conflito entre talento e herança atravessa todo o filme. Em um universo artístico como kabuki, a linhagem e a tradição pesam mais do que o talento. Kikuo, apesar de excepcional, carrega o ônus de não pertencer à família que o formou. Acontece que esse detalhe dificulta não apenas a sua continuidade na carreira, mas também o seu objetivo de ser nomeado “kokuho” que, em português, é traduzido como “tesouro nacional vivo”, do kabuki. Reconhecimento esse que não exige somente técnica, mas também sacrifício da alma, da família e da sanidade.

Não há como negar que o fato do kabuki ser todo o cerne da narrativa carrega algo de simbólico. Afinal, quanto mais talentoso é um ator dessa arte, mais naturais parecem seus movimentos, tanto que o esforço desaparece sob a precisão. O público não vê o suor, as dores, o peso dos figurinos ou o cansaço, mas o filme os evidência sem poupar esforços a ponto do telespectador se ver tão angustiado e passional quanto os protagonistas.

Essa atenção à materialidade não fere o orgulho nem o legado da arte tradicional japonesa. Na verdade, há uma reverência artisticamente bem feita pelo diretor Lee, que buscou captar as coreografias das peças de kabuki como um “teatro filmado”, sem se reduzir à enquadramentos estáticos. As cores vibrantes destacadas pela diretora de fotografia Sofian El Fani dialogam com os figurinos de Kumiko Ogawa e, juntas, compuseram um espetáculo visual que foi capaz de distinguir os dois mundos do filme: o palco e os bastidores.

Poderia ficar horas tecendo elogios sobre a experiência que é Kokuho, mas trago uma crítica. As falhas do longa estão no não desenvolvimento de pontos interessantes da narrativa, que foram gastos em redundâncias sobre os conflitos familiares. Além disso, em suas três horas de duração, o filme poderia ter explorado um pouco mais sobre a questão de gênero – sugerida pela própria posição de onnagata –, o que teria sido interessante frente ao conservadorismo japonês.

Ainda assim, as atuações sustentam a densidade emocional da obra. Como Kikuo, Yoshizawa constrói um homem ambicioso, frio e até vingativo. Ao contrário do que poderia se imaginar de um drama sobre rivalidade e honra, não há explosões melodramáticas nem momentos de “pancadaria” com frequência. Kikuo é indecifrável e Kokuho, não à toa, mostra uma cultura e um humano em todas as suas incoerências.

Tanto em duração quanto em sensibilidade cultural, Kokuho: O Preço da Perfeição é um filme exigente. De um elemento particular da cultura japonesa – o kabuki – o filme expandiu com maestria discussões universais daqueles que estão constantemente insatisfeitos e buscam, claro, pela perfeição.

Kokuho: O Preço da Perfeição já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Divulgação/Toho

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