Jornalismo Júnior

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Jornalistas apontam a desinformação como ferramenta para controlar narrativa durante abertura da 4° Semana Nacional de Jornalismo da ABI

Em palestra realizada a partir de uma parceria entre ECA-USP e ABI, especialistas discutiram os impactos de notícias falsas na formação de opinião do público e sobre o uso do jornalismo como ferramenta de defesa da democracia
Por Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br) e Lívia Falbo (liviafalbo@usp.br

A Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) sediou, na segunda-feira, 12 de abril, a abertura da 4° Semana Nacional de Jornalismo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Para discutir notícias falsas, desinformação e manipulação, foram convidados três especialistas: Luis Nassif, membro do conselho fiscal da ABI; Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI); e Dennis de Oliveira, professor de Laboratório de Iniciação em Jornalismo na ECA-USP. O evento aconteceu no Auditório Freitas Nobre, localizado no Departamento de Jornalismo e Editoração da USP, e foi mediado por Lalo Leal, jornalista, sociólogo e conselheiro da ABI.

Os palestrantes discutiram o cenário atual da circulação de informações, a influência das redes sociais na disseminação de notícias falsas, o impacto do capital privado na mídia e a importância da ética no jornalismo.

Na abertura do evento, Mielli elogiou a parceria entre a ECA e a Associação, afirmando a importância da instituição no compromisso ético com a democracia. Ela acrescentou que, apesar da mídia jornalística não ser neutra, os jornalistas devem se esforçar para serem diretos, auxiliando a sociedade na formação de opiniões. 

“Ele [ambiente informacional] precisa buscar o máximo de objetividade e precisa seguir o máximo de valores éticos.”
Renata Mielli

Falta de pluralidade 

Como coordenadora do CGI, Mielli apresentou tabelas relacionadas à recente pesquisa “Painel TIC 2025: Pesquisa online com usuários de Internet no Brasil – Integridade da Informação”, produzida pela organização.

Ao mostrar a frequência de uso de plataformas digitais entre a população brasileira, ela ressaltou a grande presença do WhatsApp como veículo de disseminação de informações. Para Mielli, essa predominância gera uma falta de pluralidade, que fortalece o monopólio narrativo dos donos dos meios de comunicação sobre a população. “A mídia sempre se baseou no controle dos destaques da informação, na definição da primeira página. Isso é controle da narrativa”, pontuou a jornalista.

Renata Mielli enfatizou que o uso considerável de plataformas que veiculam vídeos curtos contribui para o empobrecimento dos debates [Foto: Eduardo Granado/Jornalismo Júnior]

Mielli afirmou que as pessoas confiam inicialmente nas informações recebidas por meio de influenciadores, grupos de mensagem e streamings. Para ela, isso acontece porque as pessoas se importam mais em confirmar as suas próprias crenças, do que verificar a veracidade de uma notícia. 

Ainda em relação à ausência de perspectivas diferentes, ela indicou uma certa hesitação do público frente às notícias compartilhadas pelos jornais. De acordo com os dados da pesquisa, 25% das pessoas entrevistadas declaram desconfiar de informações veiculadas em veículos da mídia tradicional, a maior porcentagem dentre as formas de disseminação apresentadas. 

 “O jornalismo tem um desafio imenso, que é como recuperar a sua função social dentro de uma sociedade fragmentada por plataformas digitais.” 
Renata Mielli

A mídia como ator político 

Ao iniciar sua fala, Luis Nassif acrescentou sua visão sobre o papel da mídia como contribuidora para a permanência de poderes já existentes na sociedade. “A mídia representa o status quo, por isso, é conservadora”, afirmou. 

Nassif argumentou que os interesses econômicos são, muitas vezes, diferentes dos interesses jornalísticos. “No Brasil, os interesses da empresa acabaram prevalecendo depois da década de 1990”, disse. Ele explicou que, apesar dos objetivos econômicos serem mais relevantes para os negócios, as instituições precisam se basear nos princípios jornalísticos para não perderem a credibilidade, aspecto que, segundo ele, é fundamental.

O conselheiro  da ABI destacou também o papel político do jornalismo pautado pela objetividade ao exercer um serviço público para a sociedade. Ao abordar a construção de uma notícia, Nassif afirmou que a seleção e organização de certos aspectos de um fato definem o que será conhecido pelo público sobre ele, o que influencia na formação da opinião geral. “Se você tem um escândalo, um fato escandaloso, ele só vira escândalo depois que ele é publicado na mídia”, disse o especialista.

Para Nassif, o jornalismo é utilizado como meio de manipulação no Brasil há anos. “Os jornais passam a praticar uma política que atropela qualquer princípio jornalístico, seja no Mensalão, seja na Lava-Jato”, disse. Ele argumentou que, nesses casos, a opinião pública foi controlada por meio da regulação dos conteúdos publicados. “Pela repetição nós criamos a narrativa”, afirmou. 

Luis Nassif (foto) ressaltou que a contextualização dos fatos é a base do modelo jornalístico [Foto: Eduardo Granado/Jornalismo Júnior]

Democracia

Renata Mielli ressaltou a relevância da propagação de informações para um cenário justo e igualitário. “O jornalismo é uma profissão fundamental para qualquer sociedade que queira se dizer democrática”, disse. Ela evidenciou a importância da qualidade da informação, por meio da busca de fontes confiáveis e da checagem dos fatos. Além disso, afirmou que as notícias, apesar de não serem isentas de vieses, devem ser claras e diretas. “A atividade do jornalismo é essencial para a construção de um ambiente informacional baseado na diversidade”, concluiu. 

Durante o evento, Dennis de Oliveira destacou que a inflação de informações é responsável por crises na democracia. Segundo ele, a divulgação excessiva de notícias atrapalha os debates sobre assuntos realmente relevantes para o público, o que enfraquece o sistema democrático. “Fazer jornalismo é a melhor forma de se enfrentar essa inflação de informações que põem em risco a democracia”, afirmou ao destacar a importância da apuração de fatos na mídia. 

O pesquisador enfatizou, ainda, que o jornalismo é determinado pela reportagem. Para Dennis, é a partir da iniciativa de ir para a rua e escutar diferentes pessoas de diversos lugares que se desenvolvem matérias justas e éticas. “Esse tipo de trabalho, da reportagem, não tem um glamour, não tem a visibilidade necessária, muitas vezes, para você conquistar os clickbaits nessa economia da atenção”, completou. Dennis destacou que, por mais que o trabalho de campo seja desvalorizado, ele é a base para o desenvolvimento de qualquer matéria. 

Dennis de Oliveira (à direita) lamentou o desinvestimento em reportagens [Foto: Eduardo Granado/Jornalismo Júnior]

Por também ser ativista, ele ressaltou que existe um apagamento de setores sociais, como atores políticos, em reportagens como forma de invisibilizar questões de interesse público e identitário. “O debate político que acontece no jornalismo brasileiro fica limitado às disputas narrativas entre os grupos de poder”, afirmou. 

Segundo Dennis, a opinião das pessoas realmente afetadas pelos problemas noticiados não é levada em consideração. Ele explicou que em coberturas de manifestações, por exemplo, os entrevistados não são os cidadãos que saem de casa para lutar pelos seus direitos, mas as fontes oficiais (normalmente, funcionários públicos) envolvidas na situação.

“Não existe um bom jornalista que não seja ético, a ética é sua definidora.” 
Dennis de Oliveira 

Lalo Leal, jornalista responsável pela mediação da mesa, destacou dois tópicos que, para ele, deveriam ser levados em consideração no debate sobre a desinformação e a defesa da democracia. O sociólogo indica, primeiramente, a falta de comunicação pública no país. “Infelizmente, no Brasil, nós não tivemos, até hoje, um sistema nacional de comunicação pública capaz de prestar esse serviço à sociedade”, diz ele. Para Lalo, essa ausência de posicionamento por parte do governo deixa o público mais suscetível à manipulação.

Além disso, ele também chama atenção para o “pesquisismo” — termo que define o uso inadequado de pesquisas de opinião para manipular os resultados obtidos a partir delas. “É preciso olhar com uma lupa essa articulação entre os institutos de pesquisa e a mídia”, declarou. O jornalista ressaltou a diferença que existe entre a qualidade e a honestidade em pesquisas. Segundo ele, a manipulação desses estudos não é feita apenas na conclusão obtida, mas nas perguntas formuladas e nos grupos utilizados como fontes. 

Censura e eleições

Ao final do evento, os alunos da USP puderam fazer uma sessão de perguntas para os componentes da mesa [Foto: Eduardo Granado/Jornalismo Júnior]

Ao ser perguntada sobre os impactos da censura ocorrida na Ditadura Militar no jornalismo atual, Mielli respondeu que tal silenciamento se deu pela defesa de uma “mídia sem restrições” pelos grandes veículos comunicacionais. “Como forma de virar a página com o fim da ditadura, há uma reafirmação da liberdade de expressão pelos meios jornalísticos. O legado da censura é grande nas narrativas que os grandes meios de comunicação utilizaram para impedir a regulação deles”, afirmou.

Em uma sessão de perguntas realizada ao final do evento, os convidados também foram questionados sobre os impactos das fake news nas eleições de 2026. Mielli argumentou que “a desinformação não é um conteúdo produzido sem propósito”. Segundo ela, temas fabricados sempre existiram, mas que em épocas eleitorais, com o avanço das redes sociais, eles se tornam ainda mais perigosos.

Dennis de Oliveira complementou que a democracia brasileira tem fragilidades, o que abre espaço para as fake news e destacou a importância do ofício jornalístico na questão. “A forma pela qual nós poderíamos enfrentar isso, do ponto de vista do seu impacto, é fazendo jornalismo de qualidade”, concluiu.

*[Imagem de capa: Eduardo Granado/Jornalismo Júnior]

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