Por Daniel Mota (danielzinhomota@usp.br)
Em 2022, Kane Parsons, ainda muito jovem, surpreendeu a todos ao lançar um curta-metragem caseiro inspirado nas teorias da internet que transformou grandes corredores e salas amarelas vazias em um dos maiores pesadelos da cultura pop recente. Agora, o chamado “horror analógico” e o conceito de espaços liminares finalmente chegou ao seu ápice: a indústria do cinema.
Com vários fãs online e a promessa de levar o horror psicológico contemporâneo a um novo nível, sob a assinatura da produtora A24, Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, 2026) estreia nesta quinta-feira (28) nos cinemas.
A trama vai além da ideia original e nos apresenta o personagem Clark (Chiwetel Ejiofor), um frustrado e fracassado dono de uma loja de móveis que, depois de ser expulso de casa pela esposa, busca ajuda psiquiátrica com a Dra. Mary (Renate Reinsve), que tenta ajudá-lo a melhorar o seu estado mental.
Tudo muda de verdade quando, de forma totalmente inesperada e assustadora, Clark descobre um novo “mundo” escondido atrás das paredes de seu estabelecimento. É a partir desse momento que começamos, junto com ele, uma jornada rumo à loucura e paranoia.

Conforme a história vai se desenrolando, o terror e o suspense aumentam cada vez mais, abrindo espaço para vários tipos de teoria sobre o que poderia ser aquele lugar e aqueles sons assustadores. O mistério em torno do que realmente é aquele universo deixa tudo ainda mais intrigante e desperta cada vez mais a curiosidade de quem assiste: vemos Clark se afundando mais fundo naquele lugar estranho e se afastando da realidade.
Quando percebe que seu paciente desapareceu de forma repentina, a Dra. Mary resolve procurá-lo por conta própria e é nesse momento que ela se depara com a chocante verdade: Clark já havia se entregado totalmente para aquele universo. A partir daí, infelizmente, o roteiro começa a perder força. Ao tentar oferecer um final mais acessível e entendível ao público geral, o filme acaba explicando de forma um pouco didática a origem daquele espaço, o que acaba enfraquecendo o mistério.
A ideia de uma dimensão quebrada tinha tudo para ser muito mais assustadora, se o roteiro tivesse criado algo realmente perturbador ou, melhor ainda, deixado o mistério no ar. Afinal, o medo do desconhecido, mas também meio familiar, sempre foi o que tornava os vídeos originais do Parsons no YouTube tão impactantes.
Ao tentar explicar o inexplicável, com respostas até racionais para um cenário absurdo, Backrooms acaba tirando o peso do horror existencial que sempre foi o principal. Porém, apesar de o roteiro dar alguns tropeços na hora de resolver a trama, tudo o que envolve a parte técnica e artística é muito bem construída. O design de produção faz um trabalho incrível ao montar os cenários dos escritórios abandonados, criando uma atmosfera tão autêntica que representa muito bem o terror que é passado na creepypasta que inspirou o filme.

O grande trunfo, no entanto, está mesmo nas atuações. O elenco, apesar de pequeno, segura o drama com firmeza e faz a gente se importar com aquelas pessoas perdidas no vazio. Renate Reinsve é um destaque absoluto, sua atuação é tão intensa que sentimos o desespero crescendo dentro dela a cada cena. Sua personagem carrega um sofrimento silencioso, algo que não foi explicado direito, mas que Reinsve transmite perfeitamente.
Chiwetel Ejiofor não fica atrás. Ele carrega nos olhos o peso de quem já começa a trama com um sofrimento intenso, estando marcado pelos próprios traumas. Tudo isso faz com que, mesmo com alguns deslizes no roteiro, Backrooms conquiste pela força dos detalhes e pela entrega dos atores.
No fim das contas, o longa vive entre extremos: de um lado, impressiona pela atmosfera imersiva e pelo clima de tensão; de outro, é possível dizer que acaba preso nas fórmulas e exigências típicas de grandes produções.
Backrooms brilha de verdade quando aposta no silêncio, no vazio sufocante e naquele desespero que surge ao se perder em corredores iguais, sem nunca entregar tudo de bandeja ao espectador. Mas, quando tenta explicar demais ou criar coisas meio caricatas, o terror perde parte do seu mistério e um pouco do impacto.

Backrooms: Um Não-Lugar já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Reprodução/IMDb]
