por Isabel Sampaio (isabel.sampaio@usp.br)
Ter um animal de estimação no seu dia a dia, principalmente um cachorro, pode ser desafiador. Mas não há nada melhor do que saber que ao final do dia ele estará te esperando na porta de casa, com um carinho único de quem sentiu saudades.
O vínculo entre o ser humano e os cães começou a ser construído há milhares de anos. Em entrevista ao Laboratório, Natalia Albuquerque, doutora em Comportamento Animal pela Universidade de São Paulo e pesquisadora do Instituto de Psicologia (IP), enfatiza que um dos pontos mais importantes ao analisar a relação homem-cão é a história evolutiva compartilhada entre ambos.
A espécie canina foi a primeira a ser domesticada pelos seres humanos, há mais de 30 mil anos. “[Nessa época] o cão já era cão, não mais o ancestral dele, que era um animal do tipo lobo. O cão já tinha divergido geneticamente, já era um cachorro canis familiaris e veio se aproximando cada vez mais das pessoas. E as pessoas, dos cães”, conta Natalia.
De acordo com a pesquisadora, a relação solidificou-se com o passar do tempo e aumentou sua complexidade. Ela explica que os seres humanos e os cães evoluíram de forma conjunta, o que resultou em novas habilidades que facilitam sua relação – apesar de serem espécies muito diferentes e possuírem repertório comportamental distinto.
Para a especialista em regulação socioemocional dos animais, a principal chave para a conexão entre as espécies dar certo foi a comunicação afetiva. Ela aponta que os cães reconhecem as expressões faciais e vocalizações humanas, assim como a de outros cães. Dessa forma, eles inferem a consequência de uma determinada expressão emocional, pois percebem de quem devem se aproximar ou afastar.
“Eu vejo uma cara raivosa, sei que não devo me aproximar. Talvez devo até recuar e ficar distante. Mas se eu vejo um rosto positivo, sorridente, aquele rosto fala pra mim que eu posso me aproximar, que eu vou receber carinho”, exemplifica.
O afeto que circunda a relação humano-cão contribui para o surgimento de um apego entre o tutor e seu pet. Pesquisas científicas revelaram que, ao interagir com um cão, os níveis de ocitocina — conhecida como o hormônio do amor — aumentam em ambos, o que facilita o estabelecimento do laço emocional entre eles.
“Eles recebem muito carinho, são parte da família e melhores amigos. Tem toda essa relação que está ali, dentro de uma sopa de questões afetivas”, explica Natalia.

Como os cães oferecem suporte emocional?
O artigo “Communication as a Tool for Exhibiting Prosocial Behavior in Dogs” (ou “Cães usam a comunicação para ajudar em situações de sofrimento humano?”, em tradução livre), divulgado pelo Laboratório de Etologia, Interações Sociais e Desenvolvimento (LEDIS) da USP em 2024, investigou a reação dos cães diante de momentos de sofrimento humano.
Em um experimento, uma atriz simulou o choro, e o cão respondeu à ação, e se aproximou na tentativa de manter contato e oferecer apoio. Segundo Natalia Albuquerque, isso evidencia um comportamento do tipo empático.
“Eles percebem as emoções do outro e tentam dar algum tipo de conforto. Eles são sensíveis também a outras emoções e respondem a elas. Agora, o quanto disso é realmente um pensamento de ‘olha, essa pessoa que eu amo está sofrendo, vou ajudá-la’, nós estamos começando a descobrir agora”, complementa.
De acordo com Marisol Sendin, médica psicanalista do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da FMUSP, a interação com os animais traz naturalmente diversos benefícios, tanto do ponto de vista físico quanto mental.
Para Marisol, a relação com os cães é oportuna para pessoas com problemas psicológicos, pois baseia-se em uma interação livre de complicações sociais. “Em alguns casos o paciente não quer conversar com ninguém, quer ficar sozinho, mas ao mesmo tempo não se sente bem sozinho. E o cão não vai fazer questionamentos. Ele não cobra que você esteja bem, que você já esteja resolvendo suas questões; ele aceita o seu estado de humor e fica de companhia”, explica a psicanalista.
Marisol pontua que a interação dos animais no dia a dia de pessoas com depressão e ansiedade mostram-se positivas: “Às vezes a ansiedade faz o indivíduo ficar preso num pensamento assustador e paralisante, onde ele não sabe o que fazer. Então o cão se oferece como uma alternativa. Se você não sabe o que fazer, joga a bolinha pra mim. Parece simples, mas quebra esse ciclo de pensamento”.

Os cães diminuem o estresse, podendo ajudar em casos de transtorno de hipertensão; auxiliam no desenvolvimento da comunicação; e melhoram a saúde de pessoas idosas, pois estimulam a prática de atividades físicas.
Evidências científicas também indicam que o vínculo com animais pode aumentar a felicidade dos tutores e contribuir para tratamentos psicológicos – e, em casos de intervenções mais específicas, os cães podem atuar como suporte no tratamento.
Terapias assistidas por cães (TAC)
A Terapia Assistida por Cães (TAC) é uma vertente da Terapia Assistida por Animais (TAA), onde os cachorros operam como os principais agentes da sessão, servindo como uma ponte na comunicação entre o paciente e o terapeuta.
No IPq, a Cão-Terapia acontece na Brinquedoteca Terapêutica do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência, onde as crianças são livres para se expressarem através da linguagem lúdica.
“Usando esse tipo de linguagem, conseguimos acessar melhor as questões, inclusive psicodinâmicas, dos pacientes. E, assim, podemos tratá-los de uma forma mais pontual”, explica Marisol, que atua como coordenadora da brinquedoteca.

Ela relata que o espaço é utilizado por diferentes profissionais — como enfermeiros, nutricionistas e psicólogos — que buscam realizar intervenções lúdicas com os pacientes.
No ambiente, foram desenvolvidas algumas atividades específicas, que incluem terapia assistida. “A terapia assistida por cães no IPq começou há 15 anos, através do psiquiatra infantil Dr. Estevam Vadas, especialista em transtorno do espectro autista (TEA). Ele montou uma primeira intervenção assistida com crianças com TEA, mas havia todo o processo de como introduzir o animal dentro do hospital”, conta.
No início, os animais ficavam com o condutor na porta de entrada do departamento, e ao chegarem, as crianças interagiam com o cão. Após essa experiência, os pacientes demonstraram diferenças no comportamento quando foram atendidas no ambulatório. A partir dessa observação, os profissionais iniciaram um trabalho de conscientização sobre a possibilidade da presença do cão dentro do local, mediante certificação veterinária.
“Eles começaram a entrar no ambulatório específico de transtorno do espectro autista, mas era uma intervenção bem pontual, não tinha programação. Os pais começaram a observar que quando o filho ia ao ambulatório e tinha a interação com o animal, aquele dia era mais fácil e tranquilo”, comenta a psicanalista.
Com os relatos dos familiares e dos próprios profissionais, houve uma solicitação para que a presença do animal fosse associada ao tratamento a longo prazo. Isso deu início definitivo às sessões de terapia assistidas por cães para crianças autistas, sempre com a presença do condutor, do cão e do terapeuta.
Os resultados obtidos com a novidade mostraram-se favoráveis, e o tratamento foi expandido para toda a enfermaria e unidade de internação. Marisol informa que as terapias eram realizadas primeiro em grupo, e para situações de necessidade mais específicas, individualmente. O sucesso da prática impactou não só o grupo de pacientes, mas também as famílias e a equipe do hospital.
A psicanalista pontua que os cães podem ser de qualquer raça e tamanho, o importante é o seu comportamento. “A primeira avaliação para o cão-terapeuta é o comportamento geral, aí começamos a ver com que população ele vai interagir mais. Cães maiores tendem a trabalhar bem com pacientes maiores e agitados, ou pessoas idosas, por exemplo”.
O perfil físico e emocional do cão deve ser considerado antes de sua inserção no grupo. Cães de porte grande conseguem lidar com pessoas que não conseguem controlar sua motricidade (movimentação do corpo), enquanto cães de médio a pequeno porte costumam ser agitados e são mais indicados para casos de TDAH, pois entram em todas as brincadeiras sem cansaço.

Marisol enfatiza que, além das características gerais de comportamento, tolerância a pessoas estranhas, outros cães e ruídos e baixa reatividade, os animais precisam estar com a saúde geral boa. “Não podemos pegar cachorros com problemas maiores, pois eles vão se sobrecarregar muito, e esse é o grande problema. Precisamos cuidar para que o cão não exceda sua capacidade, temos que saber a hora de interromper para preservá-los também”, pontua.
A presença dos cães faz com que os pacientes verbalizem informações que muitas vezes não conseguiriam revelar para outra pessoa. Sendin expõe que, por lidar com emoções mais básicas, a interação humano-cão permite uma comunicação mais tranquila, sendo uma forma de mediação entre as relações humanas. “Muitas vezes a pessoa está com tanta coisa na cabeça que ela não quer se preocupar em como formular o que vai falar com outra pessoa”, comenta.
Animais de suporte emocional
Os animais de assistência são indicados para casos mais específicos, onde apenas a TAA não comporta as necessidades do paciente, sendo necessário estender a presença do bichano para dentro de casa.
Marisol ressalta que adquirir um cachorro de suporte emocional ainda é um processo que exige um alto investimento, uma vez que o animal precisa passar por etapas de adestramento baseadas nas necessidades específicas do paciente. Assim como os cães-terapeutas, os de suporte também precisam atender os critérios comportamentais necessários para que possam exercer suas funções.
Com o apoio desses animais, pessoas que sofrem com transtornos — como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, ataques de pânico, e autismo — ou que têm algum tipo de deficiência conseguem melhorar sua qualidade de vida e frequentar lugares públicos sem passar por crises. Para adquirir o bichano, é necessário apresentar um laudo médico que comprove a condição e a necessidade do cão como parte do tratamento.
Quando o animal está em serviço ao tutor, ele precisa ser identificado com coletes especializados. A cantora Ariana Grande sofre com o transtorno de estresse pós-traumático, e após a morte de seu ex-namorado, Mac Miller, ela adotou Myron. A artista relata que, além de ser uma companhia, ele também atua como cão de apoio emocional.

A intervenção e a presença dos cães fornece muitos benefícios aos seres-humanos, mas para que a relação seja mutuamente proveitosa é essencial que o animal também receba a atenção necessária sobre sua saúde física e mental. “Ele não pode trabalhar o tempo inteiro, ele tem que ser cachorro também”, conclui Marisol.
