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Prêmio Nobel de Medicina aponta mudanças na forma de entender as doenças autoimunes

Pesquisa laureada explica de modo detalhado como o mecanismo de defesa do corpo age contra invasores e contra si mesmo
Grupo de pesquisadores reunidos em mesa recebendo prêmio Nobel com fotógrafos ao seu redor.
Por Victor Gama (victorgamasilva@usp.br)

Uma pesquisa sobre a tolerância imune periférica foi a vencedora da última edição do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. O resultado foi anunciado em outubro do ano passado, pela Academia de Ciência Sueca, e premiou os ganhadores com 6 milhões de reais. O trabalho laureado foi feito por uma equipe de pesquisadores: Mary Brunkow, do Institute for Systems Biology (Seattle), Fred Ramsdell, do Sonoma Biotherapeutics (São Francisco) e Shimon Sakaguchi, professor do Immunology Frontier Research Center

O sistema imunológico, cerne da pesquisa, tem como função evitar que o corpo humano ataque a si mesmo, mas esse já era um fato conhecido há tempos pela ciência. O que o trabalho dos vencedores do prêmio prova é que o corpo humano tem um sistema de tolerância imunológica periférica. Esse mecanismo impede o sistema imunológico de destruir tecidos saudáveis, de modo a evitar o desenvolvimento de doenças autoimunes, que são aquelas causadas por alguma reação do próprio corpo contra si mesmo.

Durante o século 20, acreditava-se que o controle ocorria dentro do timo, parte do corpo humano localizada próxima do coração. Nesse órgão, essencial ao sistema linfático,  se desenvolve um mecanismo chamado de tolerância central, onde as células capazes de reconhecer tecidos saudáveis seriam eliminadas. O trabalho laureado revela que isso era apenas parte da história. 

Grupo de pesquisadores reunidos em mesa recebendo prêmio Nobel com fotógrafos ao seu redor.
Além do reconhecimento na área da Medicina, a Academia de Ciência Sueca premia pessoas das áreas da Economia, Física, Química e Literatura, além do Prêmio Nobel da Paz [Reprodução: Wikimedia Commons]

O sistema imunológico protege o ser humano dos males microscópicos, chamados patógenos, que passam despercebidos no dia a dia e que podem causar doenças no indivíduo hospedeiro. Entretanto, essa capacidade de proteção deve ser estritamente controlada, para que o sistema não se volte contra o próprio corpo,  o que pode causar doenças autoimunes – como diabetes tipo 1, lúpus e esclerose múltipla.

O professor Vinicius Oliveira, da Universidade Federal do ABC (UFABC), explica que o Nobel de Fisiologia do ano passado destacou a descoberta das células T reguladoras. Essas células são responsáveis pela tolerância imunológica periférica, que são mecanismos fora do ritmo que evitam que o corpo ataque a si mesmo. Elas são uma forma de retaguarda do corpo que encerra o ataque após eliminação de um patógeno ou evita respostas exageradas.

“A resposta biológica não é matemática. Pode acontecer de uma célula auto-reativa escapar do timo e ela reagir contra o próprio corpo. A célula T reguladora equilibra a resposta imunológica”
Professor Vinícius de Oliveira (UFABC)

Evolução histórica das pesquisas

Durante o processo de evolução do Homo sapiens, o corpo teve de aprender a reconhecer o que era estranho e maléfico através de um sistema fino de identificação. As células T podem identificar elementos do próprio corpo como estranhos, o que é combatido através do mecanismo de tolerância periférica. 

Em 1995, Shimon Sakaguchi descobriu que havia mecanismos de proteção fora do timo. Através de estudos com ratos que tinham esse órgão retirado logo após ao nascimento, ele concluiu que havia um “sistema de freios” periférico. Através dessa pesquisa, Sakaguchi descobriu as células T reguladoras. 

No ano de 2000, um estudo de Mary Brunkow e Fred Ramsdell revelou  que uma mutação no cromossomo X de ratos, nomeado FOXP3, causava uma doença autoimune fatal. Logo após, descobriram que existe um equivalente humano desse gene e que mutações nele causavam a síndrome de IPEX – uma doença autoimune que provoca inflamações graves e múltiplas falhas no funcionamento do corpo. 

Em 2003, Sakaguchi demonstrou que o FOXP3 era o regulador central das células T reguladoras. Segundo o professor Vinicius, o prêmio foi concedido por essa descoberta: “Sakaguchi mostrou a existência e importância das células T reguladoras. Depois, demonstrou a relação entre a mutação no FOXP3 e doenças autoimunes graves em humanos”.

Desenho dos pesquisadores que ganharam o Nobel de Medicina.
Os pesquisadores laureados trabalham há vinte anos na pesquisa e são os responsáveis por diversas descobertas inéditas no campo da imunologia [Reprodução: Niklas El Mehed/Prêmio Nobel]

Essas células também estão envolvidas em outros processos que não o autoimune, como no tratamento de tumores e no transplante de órgãos. Os tumores enganam   esse mecanismo periférico ao criar um escudo que os protege do sistema imunológico. Alguns tratamentos oncológicos buscam inibir a ação das células reguladoras para reforçar a imunidade antitumoral. Já no caso de transplantes, o processo é inverso: busca-se estimular a ação das reguladoras, para que o corpo não rejeite o órgão doado.

Os bastidores da premiação

O professor Climério Paula da Silva Neto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), estuda alguns fatores que envolvem a premiação do Nobel, externos à avaliação técnica da pesquisa. Ele justifica que, no início do século 20, momento em que a premiação foi criada, havia um objetivo de fazer com que o  prêmio tivesse prestígio no meio acadêmico. A busca pela reputação fez com que ocorresse um fenômeno apontado por Climério, chamado de “Efeito Mateus”. Esse nome deriva de um verso da Bíblia Sagrada, localizada no evangelho reportado por Mateus, discípulo e apóstolo de Jesus Cristo. 

“Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância, mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado.”

Evangelho de Mateus 25;29

Tal fenômeno leva esse nome por conta de um padrão da Academia Sueca de premiar pesquisadores que já tinham um prestígio ou reconhecimento no meio acadêmico. Esse quadro persiste até os dias atuais, segundo Climério. “Isso continua ainda hoje. Basta ver que quem ganha os prêmios hoje são geralmente relacionados a professores que já ganharam o prêmio antes, como se fosse uma ‘dinastia de Nobel’. E também que fazem parte de instituições que já ganharam várias vezes”, explica o professor. 

Outro ponto destacado por Climério é que não é possível saber se o prêmio se esforça para promover inclusão e diversidade dentro dos laureados. “Hoje em dia, mais mulheres fazem parte da Academia do que no passado, mas ainda é um grupo pouco diverso. Nas últimas décadas, se tem algum esforço, eu não poderia te dizer com mais precisão”, explica o professor. 

Apesar das questões acerca do Prêmio Nobel, Climério defende que a excepcionalidade dos pesquisadores laureados é um fato que  merece o destaque dado pela premiação. 

“A questão central é que existem muitas pesquisas boas sendo feitas e é nesse espaço da excelência que se pode escolher vários candidatos.”

Climério Paula da Silva Neto (UFBA)

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