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Crystal Palace vence título continental inédito após 120 anos de história

Na final da Conference League, os ingleses derrotaram o Rayo Vallecano por 1 a 0 e conquistaram seu primeiro título europeu

Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br) crystal palace

Somente um ano após a conquista de seu primeiro título de grande expressão, o Crystal Palace voltou a erguer um troféu, dessa vez, a taça da UEFA Conference League. Na última quarta-feira (27) em Leipzig, na Alemanha, as Águias venceram o espanhol Rayo Vallecano, em um jogo controlado e de poucas chances de gols. 

Enquanto as Águias buscavam seu primeiro título fora da Inglaterra, a equipe madrilenha sonhava não apenas com a glória europeia, mas também com a primeira grande conquista da história do clube, que coleciona apenas troféus de divisões inferiores da Espanha. A final continental foi um feito inédito para os dois times.

O caminho para Leipzig

Crystal Palace

A campanha europeia do Crystal Palace começou de forma polêmica antes mesmo da estreia. Após conquistar a FA Cup, o clube londrino garantiu vaga na Europa League de 2025/26. No entanto, por ter entre seus acionistas o empresário americano John Textor – que também controlava o Lyon, igualmente classificado para o torneio -, o Tribunal Arbitral do Esporte decidiu realocar o Palace para a Conference League, seguindo as regras da UEFA sobre multipropriedade de clubes.

Antes de confirmar sua primeira participação em torneios europeus, as Águias tiveram que jogar a preliminar da Conference League, contra o Fredrikstad, da Noruega, e passaram sem sustos. Na primeira fase, a campanha foi aquém do esperado, e, mesmo com um dos elencos mais caros da competição, o Crystal Palace acabou a liga na décima posição, com três vitórias e duas derrotas em seis jogos. A colocação na etapa exigiu que os ingleses disputassem a rodada de playoffs para o mata-mata contra o modesto Zrinjski Mostar. Um empate na Bósnia e um triunfo na Inglaterra garantiram o Palace nas eliminatórias.

Na fase eliminatória, o time demorou, mas se encaixou: nas oitavas, enfrentou o AEK Larnaca, do Chipre, e apesar do empate em Londres, venceu na prorrogação fora de casa com dois gols de Ismaïla Sarr. Em um dos grandes confrontos do torneio, os ingleses bateram a Fiorentina nas quartas de final por 4 a 2 no placar agregado. Na semifinal, duas vitórias contra o Shakhtar Donetsk asseguraram a final na primeira campanha europeia da história do Crystal Palace.

Ismaïla Sarr foi o artilheiro isolado da Conference League com nove gols [Imagem: Reprodução/X/@Conf_League]

Rayo Vallecano

Sem uma campanha tão dramática quanto a de seu adversário, o Rayo se classificou para a Conference League via campeonato espanhol. Na preliminar, o agregado de 5 a 0 contra o Neman Grodno, da Bielorrússia, foi mais que suficiente para garantir a vaga na fase de liga, e a equipe cumpriu suas expectativas como um dos principais times da competição: se classificou em quinto lugar, com 100% de aproveitamento em casa e o segundo melhor ataque da primeira fase.

No mata-mata, o Rayo sofreu alguns sustos. Nas oitavas, passaram pelo Samsunspor, da Turquia, apesar da derrota em casa. Na fase seguinte, os Faixas Vermelhas viram a vantagem de três gols conquistada em Madrid evaporar contra o AEK na Grécia, mas o gol salvador do ídolo Isi Palazón assegurou a vaga para as semifinais num agregado de 4 a 3. Na semifinal, duas vitórias pelo placar mínimo contra o Strasbourg definiram o confronto final da quinta edição da Conference League. 

O Rayo investiu apenas sete milhões de euros em contratações para a temporada 2025/26; a principal delas foi o centroavante Alemão, ex-Internacional [Imagem: Reprodução/X/@Conf_League]

Pré-jogo

O Crystal Palace disputou a final com o centroavante reserva Eddie Nketiah como único desfalque, em decorrência de uma distensão na coxa. A fase das Águias não era de se empolgar: a Premier League do Palace acabou numa sequência de sete jogos sem vencer e na décima quinta colocação. Sendo assim, as esperanças de uma nova participação em competição europeia dependiam da vitória na final.

Do lado do Rayo Vallecano, Luiz Felipe, zagueiro ítalo-brasileiro titular da equipe, ficou de fora da decisão, sem condições de jogo após sofrer a mesma lesão que Nketiah. Pathé Ciss foi o escolhido pelo treinador Iñigo Pérez para compor a zaga dos espanhóis com Lejeune. A fase dos Matadores de Gigantes era contrária a do Palace antes da final: o time vinha de sete partidas sem derrotas em La Liga, e ficou a apenas um ponto de se classificar novamente para a Conference League, dependendo também do título para uma nova jornada continental.

Apesar das fases opostas antes do jogo, a expectativa ainda era de um duelo controlado pelo Crystal Palace. A diferença entre o elenco e poder financeiro dos clubes, somados ao currículo bem-sucedido internacionalmente do treinador Oliver Glasner, campeão da Europa League pelo Eintracht Frankfurt em 2023, apontava para uma final com favoritismo da equipe londrina. Para superar os ingleses, o Rayo Vallecano teria que aproveitar cada oportunidade de gol concedida pela sólida linha defensiva do Palace, além de controlar os contra-ataques da equipe adversária.

A final

A primeira etapa em Leipzig contou com poucos lances de perigo, e ambas equipes se anularam por boa parte do tempo. Apenas aos 24’, o Rayo criou sua grande oportunidade de abrir o marcador: Chavarría arrancou pelo flanco esquerdo e cruzou para Alemão, que numa finalização de primeira, mandou para fora. Na altura dos 38’, em jogada pelo lado direito, Jorge de Frutos encontrou Álvaro García, que ajeitou para Unai López chutar na entrada da área. A bola passou ao lado da meta de Dean Henderson, mantendo o zero no placar. A única chance do Palace antes do intervalo veio nos acréscimos, quando, em um cruzamento preciso de Adam Wharton, o ala-esquerdo Tyrick Mitchell, livre de marcação, cabeceou à esquerda do gol. 

No segundo tempo, o Crystal Palace demonstrou porque era o grande favorito da final, e logo abriu o marcador na Alemanha: aos 51’, Wharton conduziu pelo campo do Rayo e finalizou de longe. Batalla espalmou para o meio da área, e Mateta, no rebote, apenas empurrou a bola para dentro do gol. 

Aos 55’, Yéremy Pino quase marcou o segundo no que seria um golaço de falta: a bola bateu nas duas traves mas não ultrapassou a linha do gol, e no rebote, novamente atingiu o poste num carrinho da defesa do Rayo. Na sequência do lance, Pino conduziu sozinho pela esquerda e passou para Mateta finalizar cara-a-cara com Batalla. Dessa vez, o goleiro argentino fez uma grande defesa com a perna esquerda. Após esse lance, Alemão ainda conseguiu um chute de longe nas mãos de Henderson, e Ismaïla Sarr, uma finalização para fora, caindo pela ponta-esquerda aos 78’

Sem conseguir impor ritmo ou criar chances claras de gol, o Rayo Vallecano pouco ameaçou na reta final da partida. Ao Crystal Palace, restou administrar a vantagem e segurar o resultado até o último apito de Maurizio Mariani, que consagrou as Águias com o primeiro título europeu de sua história. 

Destaques

Adam Wharton

O meio-campista inglês de apenas 22 anos desfilou em campo durante os 90 minutos da final e foi o maestro do Palace na conquista de mais um troféu. Extremamente dinâmico, Wharton foi a peça central da conexão entre defesa e ataque que assegurou o título, sendo o grande responsável pela ligação entre os setores e a distribuição ofensiva, além de ter gerado o gol de Mateta por meio de seu ousado chute de longe. 

Ao longo da semana, a não-convocação de Wharton para a Copa pela Inglaterra foi muito questionada, e sua atuação contra o Rayo volta a colocar uma interrogação na escolha de Tuchel [Imagem: Reprodução/X/@Conf_League]

As defesas

Em uma partida com pouco glamour dos ataques, tanto a defesa do Crystal Palace quanto a do Rayo Vallecano tiveram excelente desempenho. Nomes ofensivos que foram peças fundamentais ao longo das campanhas, como Ismaïla Sarr para os londrinos, e Isi Palazón para os madrilenhos, passaram despercebidos durante a partida. As atuações mais notáveis foram dos zagueiros Chadi Riad pelo Palace e Florian Lejeune pelo Rayo, que terminaram a partida com 12 e 14 ações defensivas, respectivamente.

Jean Philippe Mateta 

Dono de uma das histórias de superação mais bonitas do futebol, Mateta consagrou seu nome entre os grandes do Crystal Palace. Em fevereiro, o centroavante estava quase acertado com o Milan, mas teve sua transferência cancelada após os exames médicos detectarem um possível problema no joelho. Meses depois, o centroavante foi convocado para a Copa do Mundo pela França e marcou o gol que colocou o Palace no seleto grupo de campeões continentais. 

Estrelas se vão, o projeto continua

Apesar de carregar certa tradição no futebol inglês, o Crystal Palace nunca esteve entre os clubes mais vitoriosos ou regulares durante seus mais de 120 anos de história. Desde o retorno à Premier League, em 2013, a equipe buscava alcançar um nível de estabilidade capaz de sustentá-la competitivamente no cenário nacional. A consistência construída nos últimos anos permitiu ao Palace formar uma base jovem e competitiva, que passou a alçar voos mais altos nas principais copas e na liga inglesa. 

A chegada do técnico Oliver Glasner, em fevereiro de 2024, marcou o passo definitivo do Crystal Palace F.C. rumo a um novo patamar competitivo. Ainda assim, o crescimento de um clube de projeção mais modesta também trouxe consequências inevitáveis: para equilibrar as finanças, a equipe precisou negociar algumas das principais estrelas da nova geração. Michael Olise foi vendido ao Bayern antes mesmo da conquista da FA Cup em 2025, enquanto Eberechi Eze acertou com o Arsenal e Marc Guéhi seguiu para o Manchester City. O eficiente trabalho de scouting, porém, permitiu ao Palace repor as perdas sem queda significativa de rendimento. Nesse processo, jogadores como Ismaïla Sarr, Yéremy Pino e Jaydee Canvot tornaram-se peças fundamentais na campanha que culminou no título da UEFA Conference League.

Oliver Glasner decidiu que não renovará contrato com o Crystal Palace ao fim da temporada 2025/26, mas seu nome permanecerá marcado na história do clube como o treinador que conduziu as Águias às primeiras grandes conquistas de sua trajetória. Se os triunfos dos últimos dois anos representam o início de um período vitorioso e duradouro para o Palace ou apenas um momento especial de celebração para uma torcida que enfim experimentou o gosto de ser campeã, apenas o futuro poderá responder. O que já é certo, porém, é que a geração atual transformou a identidade do clube e eternizou noites que, por décadas, pareciam inalcançáveis em Selhurst Park. 

O Crystal Palace se juntou ao Chelsea e ao West Ham no grupo de clubes ingleses campeões da Conference League, com o troféu indo para Londres em três das cinco edições realizadas [Imagem: Reprodução/X/@CPFC]

Ficha Técnica

Crystal Palace 1 x 0 Rayo Vallecano

Data: 27/05/2026

Horário: 16h (BRT)

Crystal Palace (3-4-3): Dean Henderson, Jaydee Canvot, Maxence Lacroix, Chadi Riad, Daniel Muñoz, Adam Wharton, Daichi Kamada, Tyrick Mitchell, Ismaïla Sarr, Jean Philippe Mateta (Jorgen Strand Larsen 76’), Yéremy Pino (Evann Guessand 80’).

Rayo Vallecano (4-2-3-1): Augusto Batalla, Andrei Ratiu, Florian Lejeune, Pathé Ismaël Ciss, Josep Chavarría, Óscar Valentín (Nobel Mendy 63’), Unai López (Pedro Díaz 62’), Jorge de Frutos (Sergio Camello 70’), Isi Palazón (Ilias Akhomach 77’), Álvaro García (Pacha 70’), Alemão.

Gols: Jean Philippe Mateta (51’).

Cartões amarelos: Crystal Palace – Wharton (41’), Pino (74’) e Riad (82’); Rayo Vallecano – Ciss (20’), Palazón (23’), López (48’), García (62’), Mendy (85’) e Pacha (90’ +2).

Árbitro: Maurizio Mariani (Itália).

*Imagem de capa: Reprodução/X/@Conf_League

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