Por Larissa Santos (larissasantos22@usp.br)
O 1º Encontro de Pesquisadores em Influências Digitais foi realizado entre os dias 4 e 6 de maio na Universidade de São Paulo (USP). Ao longo da programação, os participantes discutiram os impactos da cultura digital na rotina e no trabalho, dado o cenário em que a produção de conteúdo já ultrapassa o espaço das redes sociais e se estabelece como parte do mercado de trabalho.
Coordenado pela professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Issaaf Karhawi, os três dias de programação reuniram convidados de diferentes áreas da comunicação. Entre eles estavam os criadores de conteúdo Nátaly Neri, Jonas Maria, Carol Jesper, Gabi Almeida e Cesar Antonio, que compartilharam um pouco da experiência de trabalhar com as plataformas digitais.
Ao reunir diferentes perspectivas, o evento reforçou a criação de conteúdo como algo além de postar um vídeo, e demonstrou a necessidade de estratégias e planejamento diário, desde a elaboração do roteiro às postagens finais.
Criação de conteúdo
Durante a noite de 6 de maio, foi realizado um bate-papo com os influenciadores com o tema Profissão Creator — termo utilizado para se relacionar a criadores de conteúdos. O intuito era entender o dia a dia dos criadores, as suas motivações, o que os impulsionou a iniciarem suas carreiras na internet e os aprendizados que tiveram em suas jornadas.
Os criadores Cesar Antonio e Gabi Almeida, do perfil @fizemosumrole, utilizado na divulgação de programações culturais da cidade de São Paulo, contaram que a produção de conteúdo inicialmente surgiu como uma forma de registrar momentos e explorar lugares juntos.
O casal, que começou a postar seus vídeos em 2018, percebeu que não se tratava mais de apenas gravar os locais que frequentavam juntos, mas de um trabalho. Nele, administram um perfil que atrai milhões de pessoas interessadas em lazer, cultura e gastronomia na cidade e o tornam em um facilitador de acesso à cultura.

A influenciadora Nátaly Neri também compartilhou sua jornada na internet e relembrou as diferentes fases de sua trajetória nas redes sociais. Passou por conteúdos sobre moda, representatividade negra, política, comportamento, beleza, questões raciais, veganismo e sustentabilidade. Neri cria conteúdo há 10 anos e é uma das pioneiras na criação de conteúdo digital com foco em moda sustentável e consumo consciente.
Ela começou o seu canal no YouTube em 2015, e relatou que a princípio sua motivação estava na vontade de atrair mais clientes para o seu trabalho como trancista, atividade remunerada que realizava quando era universitária. Depois, passou a gostar de relatar vivências, visto a falta de representatividade que sentia na época, democratizando o acesso a debates importantes que antes não encontrava com facilidade. “ A internet se resumia a ser youtuber, algo que não era muito bem visto. Não existia a ideia de que criadores poderiam ensinar conteúdo, desmistificar ideias e juntar comunidades”, concluiu.
“Eu queria aproveitar e falar com as mulheres negras sobre o que eu estava aprendendo nos coletivos da faculdade”
Nátaly Neri
Formada em Ciências Sociais, relatou seu desejo de ser professora universitária antes de se tornar criadora, entretanto, com as redes, enxergou uma oportunidade de se comunicar com pessoas de uma maneira alternativa ao que faria em sala de aula. Foi com essa visão que passou a se consolidar como influenciadora digital e receber retorno financeiro com a internet ao chamar a atenção de marcas.

Também, conquistou prêmios importantes como o MTV Millennial Awards e o Prêmio iBest, que demonstram a sua influência como comunicadora e voz ativa nos diversos temas que aborda.
A comunicadora produz o programa Tem que Sustentar (2023- presente) e o SPA da Nátaly (2026) na DiaTV. Aborda variados temas em suas redes sociais e foca no Slow Content — Processo no qual a profundidade e qualidade da criação são prioridades em relação ao número de postagens. No YouTube, com vídeos mais longos e vlogs de sua vida, e no Instagram, compartilhando seu dia a dia e processos criativos, seu estilo de vida como vegana, terapias naturais e reflexões.
De hobby à Profissão
Em vários momentos, a conversa levantou o questionamento sobre quando a internet deixa de parecer passatempo e começa a virar trabalho. Para Neri, a percepção da criação de conteúdo como profissão começou a mudar quando passou a receber convites remunerados de eventos e marcas. Ao comentar o crescimento rápido de seu canal no YouTube, que alcançou 100 mil inscritos em um ano, a criadora comentou: “Achei que ia falar só com uma pessoa ou outra”.
“Eu tinha vergonha de falar que eu era criadora de conteúdo, mas ao mesmo tempo eu gostava muito de postar”
Nátaly Neri
No caso de Gabi e Cesar, o que começou como uma produção despretensiosa acabou se consolidando como um negócio. Antes, os dois desempenhavam as mesmas funções; depois, Gabi passou a se dedicar ao contato com marcas e a aparecer mais nos vídeos, enquanto Cesar assumiu as gravações e edições.

[Imagem: Reprodução/Instagram @portugueselegal]
*Imagem de capa: Larissa Santos/Acervo pessoal
