Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

GP da Austrália 2026 | Sob novo regulamento, Russel vence na estreia e confirma favoritismo de “super-carro” da Mercedes

Mesmo ameaçado pela Ferrari de Leclerc, piloto britânico assegura a liderança e conquista sua primeira vitória na temporada

Por Arthur Souza (thursouzs07@usp.br) e Hellen Indrigo (hellenindrigoperez@usp.br) austrália mercedes

Na madrugada de domingo, último dia 8, ao apagar das luzes no Grande Prêmio de Melbourne, foi dada a largada para o calendário da Fórmula 1 em 2026. Após enfileirar desempenhos muito constantes nos treinos e conquistar a pole na etapa classificatória, George Russel protagonizou uma disputa acirrada com a dupla de pilotos da Ferrari durante a prova, mas venceu e subiu ao pódio, acompanhado pelo companheiro de equipe, Kimi Antonelli. 

A estreia arrebatadora da Mercedes não é fruto do acaso; pelo contrário, se deve muito às mudanças estruturais no regulamento da Fórmula 1 para este ano. Ainda durante a pré-temporada, a rodada de testes dos novos modelos levantou rumores de que a escuderia alemã teria preparado um dos carros mais competitivos dentro das novas diretrizes impostas pela FIA. É crucial compreender essas alterações para assimilar o enredo que será escrito ao longo da temporada. 

Regulamento para 2026: adeus DRS, motor híbrido e mais austrália mercedes

No dia 7 de dezembro de 2025, o tremular da última bandeira quadriculada marcou o fim da 76° temporada de Fórmula 1. Após travar uma disputa acirrada com Max Verstappen ao longo das últimas corridas, Lando Norris se consagrou campeão mundial do Campeonato de Pilotos pela primeira vez ao cruzar a linha de chegada do GP de Abu Dhabi em terceiro lugar. Já o Campeonato de Construtores foi marcado pela segunda vitória consecutiva da McLaren, que igualou o recorde conquistado pela Red Bull em 2023 e alcançou o décimo título com seis corridas de antecedência.

Apesar dos 833 pontos marcados pela escuderia britânica no ano anterior — 364 a mais do que a Mercedes, segunda colocada na competição —, uma série de mudanças instituídas para a temporada de 2026, incluindo alterações no quadro de equipes, fez com que o desempenho no grid se tornasse imprevisível após o recesso. Além do acréscimo da Audi, que adquiriu a antiga garagista Sauber, a General Motors também passa a ocupar espaço nas pistas e competir sob o nome GM/Cadillac. Com uma equipe a mais, será a primeira vez desde 2016 que o grid contará com 22 carros.

Os pilotos da Cadillac são Valtteri Bottas, vice-campeão mundial nas temporadas de 2019 e 2020, e Sergio Pérez, vice-campeão na temporada de 2023 [Imagem: Reprodução/Instagram/@cadillacf1]

A nova dinâmica de equipes não é a única mudança importante para 2026: a instauração de um novo regulamento também determinou alterações na engenharia dos carros, o que, consequentemente, gera modificações na interação entre os pilotos na pista. Uma das principais regras estabelecidas trata-se da nova divisão igualitária de potência entre os motores à combustão e elétrico, que antes era fixada em 80% e 20%, respectivamente. Além disso, também houve a adoção do uso de combustível sintético e sustentável.

Segundo Fred Sabino, editor-executivo de automobilismo do Grupo Band, essas mudanças foram realizadas para atender aos desejos das montadoras de automóveis, que utilizam o automobilismo para fazer testes cujos resultados serão posteriormente aplicados em modelos comerciais. Apesar do discurso de redução de impactos ambientais, porém, o efeito do novo regulamento sobre o esporte vêm sendo questionado pelos pilotos.

O novo sistema híbrido consiste principalmente na remoção do MGU-H (Motor Generator Unit – Heat), componente que recuperava energia térmica a partir dos gases emitidos pela turbina durante a aceleração, e em maior enfoque no MGU-K (Motor Generator Unit – Kinetic), que recupera a energia cinética desperdiçada nas frenagens e também a armazena em forma de energia elétrica. Na prática, há uma perda energética maior ao longo das retas como consequência da retirada do MGU-H, e a menor carga exige o gerenciamento da bateria ao longo da corrida para garantir potência em momentos de ultrapassagem.

“Os pilotos obviamente não estão gostando muito, porque essa administração de energia durante a corrida tira um pouco o foco da pilotagem e do uso da velocidade pura”, afirma Fred, em entrevista ao Arquibancada. “A forma como essa divisão está sendo feita deixa os carros perderem velocidade no fim das retas, e isso não agradou”. Apesar da rejeição inicial, o editor aponta que o regulamento pode sofrer alterações ao longo da temporada para se adaptar ao funcionamento nas pistas.

O conjunto de modificações que acompanham a nova divisão de potência visa uma pilotagem mais estratégica. É o caso da instalação da RIS (Rear Impact Structure Light, ou Luz da Estrutura de Impacto Traseira), que indica o nível de energia na unidade de potência dos carros e pode ser usada para observar o consumo energético dos adversários. 

Além disso, o fim do DRS e a implementação da aerodinâmica ativa modificam a eficiência e a velocidade dos carros. O novo regulamento institui dois modelos de funcionamento para a aba das asas dianteira e traseira. Nas retas, os pilotos podem ativar o Straight Mode — agora sem a obrigatoriedade de estar a menos de um segundo de distância do carro à frente, como funcionava com o sistema DRS —, que abre as abas e aumenta a velocidade ao permitir a passagem do ar com menor resistência. Já nas curvas, o Corner Mode é ativado e fecha as abas automaticamente quando há frenagem ou desaceleração, o que aumenta a pressão contra o solo e, consequentemente, a aderência.

De acordo com Fred, o impacto da combinação entre essas e demais alterações — como a diminuição do peso e das dimensões dos carros, por exemplo — no desempenho das equipes só poderá ser percebido de forma prática com o avançar da temporada, que se iniciou com o GP da Austrália.

O fim de semana em Melbourne

Transmitidas mundo afora, as etapas preliminares do GP da Austrália garantiram o primeiro contato direto dos torcedores com as equipes e pilotos de volta às pistas. Como de costume, as exibições iniciais geraram grande repercussão e elevaram ânimos e receios. 

Ainda na sexta-feira (6), Charles Leclerc e Lewis Hamilton exibiram domínio sobre o novo carro ao liderarem a bateria do treino inaugural. Com tempos de volta parecidos e colocações próximas no grid, a dupla deixou claro que os resultados discrepantes ficaram no passado. Ao contrário do que muitos pensam, a Red Bull não correu por fora: Max Verstappen e Isack Hadjar, recém-promovido à equipe principal, seguiram de perto os marcadores da scuderia e ocuparam a terceira e quarta posições, respectivamente.

Os holofotes do segundo treino livre desceram sobre Oscar Piastri, piloto da casa que, com a volta mais rápida do fim de semana até então, assegurou o primeiro lugar na prova. O australiano se sobressaiu ao companheiro de equipe e atual campeão mundial, Lando Norris, que mostrou dificuldades para se adaptar às transformações sofridas pelo carro da McLaren e não conseguiu repetir as performances convincentes do ano passado. Em razão disso, o número um desferiu duras críticas às alterações no regulamento e aos novos veículos, que disse serem “os piores já feitos” na história da modalidade.

Imediatamente atrás de Piastri na segunda sessão, a dupla de pilotos da Mercedes chegou ainda mais obstinada ao terceiro e último treino. No entanto, Kimi Antonelli inaugurou a temporada de acidentes e teve sua prova interrompida ao perder o controle na saída da segunda curva e colidir contra a mureta. Por outro lado, Russel superou Hamilton e Leclerc ao marcar o melhor tempo da etapa e avançar com moral à classificação. 

Para grande parte dos pilotos, os desempenhos regulares nos treinos livres se repetiram durante a etapa classificatória. Esse, no entanto, não foi o caso de Verstappen, que protagonizou o segundo acidente do fim de semana ao perder a tração nos pneus traseiros e ir de encontro ao muro. O tetracampeão holandês deixou o Q1 com a 20ª posição no grid de largada e se distanciou de uma possível vitória na corrida de estreia da temporada. Após o acidente, foi acionado o protocolo de bandeira vermelha, que comanda a interrupção imediata da prova. 

Embora seja o maior campeão da década, Max Verstappen possui apenas uma vitória em Melbourne, em 2023, ano de seu tricampeonato [Imagem: Reprodução/X/@F1]

Caíram também na primeira fase Franco Colapinto, da Alpine, Fernando Alonso, da Aston Martin, e a dupla da Cadillac, que estreou a primeira classificação da equipe em posições pouco animadoras. Além deles, Stroll e Carlos Sainz alegaram problemas no motor e no ERS, respectivamente, e não participaram da prova.

A surpresa do Q2 foi o brasileiro Gabriel Bortoleto, que, menos de um décimo à frente do companheiro de equipe Nico Hulkenberg, apanhou a última vaga para a etapa final da classificação. Entretanto, quando se preparava para voltar à pista, o carro do número cinco apresentou uma falha mecânica no câmbio, que o impediu de disputar o Q3 e fez com que amargasse o décimo lugar. 

O estreante Arvid Lindblad, jovem piloto da Racing Bulls que enfileirou marcadores entusiasmantes nos treinos livres, também marcou presença na terceira fase classificatória e conquistou a nona marca no grid de largada, atrás do colega de escuderia, Liam Lawson. Em sétimo lugar, Hamilton não atendeu às expectativas elevadas durante o fim de semana, apesar dos bons desempenhos demonstrados até então. 

Descompassado com o novo modelo de carro, Norris diminuiu seu tempo de volta consideravelmente e apresentou seu melhor ritmo no Q3, embora longe de se reencontrar com sua fase mais vencedora. O esforço rendeu ao piloto da McLaren a sexta marca no corredor de largada, ao lado de Piastri, na quinta colocação. Separados por 24 centésimos, Leclerc, quarto colocado, e Hadjar, em terceiro, compunham a segunda fileira.

Após liderar as duas primeiras sessões da qualificação, Russel efetuou a volta mais rápida do fim de semana para liderar o Q3, com 1min18s518 de duração, e garantiu a pole no Grande Prêmio. Com Antonelli na segunda posição, a Mercedes dominou a primeira fileira do grid e construiu condições muito favoráveis para o sucesso na decisão do GP de Melbourne. 

É dada a largada!

Antes mesmo de apagarem-se as luzes, o grid de largada sofreu duas baixas. Durante a volta de alinhamento, Oscar Piastri derrapou na saída da curva de número quatro, colidiu contra o paredão e teve de abandonar a disputa. O número 81 enterrou, por mais um ano, o sonho de subir ao pódio em seu GP doméstico, feito nunca antes alcançado por um piloto australiano. Em entrevista ao portal The Australian, o piloto da McLaren atestou que o acidente derivou da combinação de pneus frios com um ganho de potência inesperado, mas não deixou de se responsabilizar pela falha. 

Outro desfalque foi Nico Hulkenberg, que se encaminhava à reta de largada quando foi convocado de súbito aos boxes para aposentar o carro. Falhas na telemetria do motor, tecnologia responsável pela transmissão em tempo real dos principais dados de desempenho do veículo, foram rapidamente diagnosticadas pela equipe da Audi e impediram que o piloto alemão sequer iniciasse a prova. 

Com duas marcas vazias no grid e somente 20 carros na pista, a distância entre os pilotos se tornou mais curta. A certeza de uma largada tranquila para a Mercedes, contudo, sucumbiu no instante decisivo. 

Ao apagar repentino das luzes vermelhas, a Ferrari de Leclerc se lançou fugazmente pelo centro da pista, ultrapassou Antonelli, que teve uma largada lenta, e, mais à frente, deixou Hadjar para trás. À direita de Russel no fim da reta principal, o monegasco se antecipou e aproveitou a curva ao lado direito para defender a liderança conquistada num flash. Os segundos iniciais de prova bastaram para que o número 16 saltasse da quarta posição à primeira.  

Membros de outras equipes do paddock e analistas externos sugerem que a vantagem aparente da Ferrari na nova dinâmica de largada se deve à turbina instalada em seus carros. Menor do que as turbinas dos fabricantes concorrentes, a peça utilizada pela scuderia atinge o torque necessário mais rapidamente e favorece uma arrancada limpa e veloz. 

A frequentemente questionada estratégia da Ferrari pressupunha uma ótima largada e, nesse sentido, Hamilton não decepcionou. O britânico teve a disparada facilitada pela marca vazia à sua frente, deixada por Piastri, e avançou duas colocações ainda nos trechos iniciais da primeira volta, mas, após ultrapassar Hadjar e assumir a terceira posição, teve dificuldade para acompanhar o ritmo intenso de Leclerc e Russel.

Nas voltas seguintes, os carros vermelho e grafite protagonizaram uma disputa arrastada pela ponta da corrida, com uma série de ultrapassagens movida pelo estratégico uso e gerenciamento da bateria do motor elétrico. A alternância entre o acionamento do novo botão de ultrapassagem e o período de recarregamento da bateria, durante o qual o piloto abre mão da potência para renovar a energia do motor, impediu que os carros abrissem grande distância entre si.  

A péssima arrancada de Kimi Antonelli fez com que ele regressasse à oitava colocação. Por outro lado, Lindblad surpreendeu, largou rapidamente e avançou três posições, superando, inclusive, o atual campeão Lando Norris. O piloto da Racing Bulls chegou a assumir o quarto lugar após disputa parelha com Hadjar, até que ambos foram passados para trás por Antonelli, já recuperado. 

A verdadeira corrida de recuperação, contudo, foi desempenhada por Verstappen, que saltou dez colocações somente nas primeiras 11 voltas. O tricampeão ocupava o oitavo lugar quando seu parceiro de equipe, Isack Hadjar, abandonou a corrida devido a uma pane na unidade de potência do carro. A equipe de monitoramento da prova acionou o protocolo do Safety Car Virtual para retirar o carro do franco-argelino, que brigava ainda entre os primeiros colocados.

Durante o SCV, a maioria das equipes convocou seus pilotos aos boxes para efetuar o primeiro pit-stop. Na contramão, a Ferrari, que liderava a corrida com Leclerc até então, optou por seguir com seu “plano A”: apostou em uma estratégia de parada única e manteve seus pilotos na pista.

Enquanto os demais competidores trocavam seus pneus, Alonso compareceu aos boxes por um motivo diferente. Depois de muito se falar sobre a difícil dirigibilidade dos veículos da Aston Martin durante o final de semana, o bicampeão foi ordenado pela equipe a aposentar seu carro. Na sequência, foi Bottas quem se retirou do GP. 

Decretado o fim do protocolo de segurança, a corrida prosseguiu normalmente, liderada pela dupla de pilotos da Ferrari, com vantagem de quase 7 segundos sobre Russel, o terceiro colocado. Conforme essa margem diminuía, maior se fazia a urgência da renovação dos pneus.  

A primeira parada da Ferrari ocorreu apenas na 26ª volta, quando Leclerc trocou os pneus médios por um jogo de pneus duros e retornou à pista na quarta posição, atrás de Antonelli. Na 28ª volta, veio a certeza de que a estratégia da scuderia havia falhado: Hamilton, recém-promovido à liderança, foi superado por Russel na reta oposta do circuito, antes mesmo de realizar sua parada. O heptacampeão finalmente foi aos boxes na volta seguinte e, com pneus duros, regressou atrás do companheiro de equipe.

Ocupadas as primeiras colocações do grid, a estratégia da Mercedes dependia tão somente do bom gerenciamento e conservação dos pneus para evitar a necessidade da segunda parada. Ainda na 34ª volta, a distância de Leclerc ao líder George Russel alcançava os 20 segundos e uma aproximação parecia inviável.

Após uma primeira metade de prova sem grandes destaques, Bortoleto cresceu nos momentos decisivos da corrida e protagonizou duas ultrapassagens para cruzar a linha de chegada na nona colocação: primeiro, superou Ocon na reta principal e, na volta seguinte, passou Gasly para trás na saída da primeira curva. 

Mesmo com uma estratégia de duas paradas, o brasileiro não ficou para trás e conquistou dois pontos importantes, tanto para o Campeonato de Pilotos quanto para o de Construtores. Outrora criticado duramente pela baixa competitividade, o carro de Bortoleto, agora fabricado pela Audi, pareceu apresentar melhora significativa, reconhecida pelo próprio piloto ao fim da prova. 

Após enfileirar concorrentes e finalizar o GP em sexto lugar, Max Verstappen foi eleito o “piloto do dia” pelo voto popular. Além de ganhar 12 posições no decorrer da prova, o holandês deteve o tempo de volta mais rápido da corrida: 1min22s091. 

Quando o carro de cor grafite, número 63, avistou a bandeira quadriculada e atravessou a linha de chegada, encerrou-se o Grande Prêmio da Austrália. Russel e Antonelli garantiram a dobradinha da Mercedes, respectivamente, enquanto Leclerc completava o pódio. Não havia melhor forma de inaugurar a temporada para a escuderia alemã, tida por fãs e analistas como favorita ao título mundial.

“As diferenças são evidentes: é menor, mais compacto, mais ágil e com maior capacidade de resposta”, declarou ‘Toto’ Wolff, chefe de equipe da Mercedes, sobre o Mercedes-AMG W17, carro da escuderia para 2026 [Imagem: Reprodução/X/@F1]

O GP de estreia mostrou ao mundo os benefícios e prejuízos do novo e polêmico regulamento da modalidade, de modo que cada torcedor pôde avaliar o impacto das medidas implementadas e criar seus próprios julgamentos. Para a FIA, o saldo é positivo: segundo levantamento da própria Federação, foram contabilizadas 120 ultrapassagens na etapa australiana, 75 a mais se comparada à edição de 2025. 

Com o primeiro lugar, George Russel conquista sua oitava vitória em Grandes Prêmios de Fórmula 1. Mesmo após o fim de semana em Xangai, o britânico, vencedor da prova Sprint e vice para Antonelli no GP da China, segue na liderança do ranking de pilotos da atual temporada, com 51 pontos, enquanto a Mercedes encabeça a tabela de construtores, com 96.

A próxima etapa do circuito internacional de automobilismo ocorre no Japão, entre os dias 27 e 29 de março. 

*Imagem de capa: Reprodução/X/@F1

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima