Por Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br)
O CNPEM, em Campinas (SP), realizou o evento “Ciência Aberta” nos dias 29 e 30 de maio. A iniciativa promove a transparência e o livre acesso ao conhecimento científico ao permitir que o público conheça pesquisas de ponta nas áreas de saúde, energia, materiais renováveis e tecnologias quânticas.
Entre os destaques do dia, os laboratórios nacionais de Biociências (LNBio) e Biorrenováveis (LNBR) impressionaram o público ao transformar pesquisas complexas – como o uso de ressonância magnética nuclear, a manipulação de aminoácidos, o uso de moléculas fosforescentes e a cristalização de proteínas – em experiências interativas e de fácil entendimento.

Organização do evento
Para coordenar o fluxo de milhares de visitantes, o evento costuma se estruturar em dois dias, divididos estrategicamente para atender diferentes grupos. O primeiro dia é exclusivo para visitas agendadas de escolas, universidades e grupos estudantis, já o segundo dia funciona no modelo de “Portas Abertas”, sendo totalmente voltado à comunidade geral.
Toda essa movimentação exige uma infraestrutura de grande porte no campus, que se transforma para receber o público. O evento conta com praças de alimentação, pontos de hidratação bem distribuídos, sinalização reforçada, equipes de monitoria e de suporte médico preparadas para o atendimento do fluxo de pessoas.
A cientista Daniela Mayra, integrante do Grupo de Engenharia de Tecidos, atua no Ciência Aberta desde 2024 e explica que o planejamento dos estandes busca expor o conteúdo da forma mais didática possível. É levada em consideração, por exemplo, a presença de visitantes crianças que ainda não compreendem alguns dos assuntos facilmente.
Segundo Mayra, embora os institutos abordem temas centrais semelhantes em cada edição do evento, o conteúdo das bancas é constantemente renovado com a inserção das novas aplicações tecnológicas desenvolvidas nos laboratórios e de novas ideias para atrair e facilitar a compreensão do público. Além disso, a estrutura do evento passou por atualizações focadas no atendimento a pessoas com deficiência (PCDs). Algumas das modificações implementadas, em relação aos anos anteriores, foram a ampliação e adaptação da frota de transporte interno para o deslocamento entre os institutos do campus, além do reforço no número de intérpretes de Libras distribuídos em algumas atrações.

Laboratório Nacional de Biociências
O LNBio é conhecido por pesquisas em biologia integrativa e pelo desenvolvimento de soluções terapêuticas voltadas para a saúde humana. Seus feitos vão desde decifrar o funcionamento de doenças complexas, como o câncer, até criar medicamentos e vacinas mais eficientes.
Para o Ciência Aberta, pesquisadores deste laboratório nacional apresentaram 16 atividades aos visitantes. Dentre elas: mesas de apresentações, com jogos, maquetes e vídeos; stand para tirar fotos vestidos de cientistas; oficinas práticas e tour em uma das estruturas laboratoriais do local.

O público pôde conhecer a da equipe de design de proteínas, um nicho que trabalha com a manipulação de aminoácidos presentes em medicamentos, a fim de conseguir estabelecer melhor conexão com os agentes infecciosos. Os pesquisadores expuseram um modelo computacional que simula o encaixe de monômeros proteicos ao vírus da Covid-19 e possibilita fazer mudanças na estrutura do binder.
A pesquisadora Rocío Riveiros explica que essa etapa, aparentemente simples e primordial do desenvolvimento de novos fármacos, é realizada diversas vezes. Por meio de modelos de inteligência artificial (IA), os cientistas analisam e medem a afinidade de até 200 mil combinações moleculares. Essa aplicação garante o refinamento das análises e a seleção mais eficaz de candidatos para síntese e teste em modelos animais.

[Imagem: Juliana Lara/ Acervo pessoal]
Para que as ferramentas de IA consigam realizar os cálculos de encaixe no computador, o laboratório precisa, primeiro, determinar a estrutura tridimensional exata das moléculas. Na prática, para descobrir essa forma, os cientistas usam a luz síncrotron do Sirius, um tipo de raio X super potente.
Primeiro, a proteína é transformada em um pequeno cristal. Em seguida, o feixe de luz atinge e atravessa esse cristal, funcionando de forma parecida com um sonar: em vez de ondas sonoras que batem e voltam para mapear o fundo do mar, são as ondas de raio X que são desviadas pelos átomos da proteína. Ao analisar a direção e a intensidade dos feixes de luz refletido capturado pelos detectores, os computadores conseguem calcular a posição exata de cada átomo, reconstruindo o formato tridimensional perfeito da molécula O time de organizadores planejou uma experiência interativa para explicar aos espectadores todo o processo, incluindo desde a cristalização de proteínas até a difração de raios x, é feita no acelerador de partículas Sirius.

[Imagem: Juliana Lara/ Acervo pessoal]
Outra área exibida no evento foi o setor de Engenharia de Tecidos e o Biobanco. Esse setor trabalha com a coleta, o processamento e o armazenamento de materiais biológicos, como sangue, DNA e tecidos, para viabilizar pesquisas científicas e médicas. Além disso, a área atua na medicina regenerativa por meio da criação de tecidos e órgãos artificiais em laboratório, a exemplo de pele e cartilagem.
A pesquisadora Daniela Mayra detalha como o tecido adiposo proveniente de procedimentos cirúrgicos de descarte, como lipoaspirações e abdominoplastias, pode ser processado para a obtenção de células lipídicas e células-tronco. Posteriormente, essas células são cultivadas em garrafas com meio de cultura.
Elas são expandidas de uma monocamada bidimensional (2D) para modelos tridimensionais (3D) . Com o uso de biomateriais e impressoras biológicas, os cientistas constroem biomodelos e biocurativos voltados para feridas dérmicas, cardíacas e oculares. Para aumentar a validação se o efeito observado no laboratório é real e aplicável no corpo humano, o grupo utiliza dispositivos microfluídicos conhecidos como “órgãos no chip”, que simulam sistemas circulatórios por onde bombas passam líquidos para trocar nutrientes em modelos de fígado, intestino, rim e coração, o que permite estudar a interação de fármacos com o corpo humano.

[Imagem: Juliana Lara/ Acervo pessoal]
Com essa variedade de atrações, o LNBio apresentou um trabalho focado na alta interatividade para traduzir suas pesquisas em saúde humana. O espaço permaneceu cheio ao longo do dia. Algumas oficinas foram disputadas por todos os públicos, o que evidenciou o sucesso do circuito didático planejado pelo instituto.

[Imagem: Juliana Lara/ Acervo pessoal]
Laboratório Nacional de Biorrenováveis
Enquanto o LNBio concentra seus esforços nas soluções voltadas para a saúde humana, o LNBR direciona suas pesquisas para a sustentabilidade e o desenvolvimento de alternativas ecologicamente corretas.
Durante o “Ciência Aberta”, os pesquisadores buscaram explicar os projetos em biotecnologia e química verde, através de ensaios enzimáticos práticos, observação em microscópios, jogos didáticos sobre ecossistemas e passeio em uma parte das instalações.

Segundo a pesquisadora Anna Brilhante, o instituto é dividido em 3 grandes áreas: química analítica, que trabalha com a caracterização da biomassa; processos, que realiza procedimentos biopilotos,eles são a primeira experiência de escalonamento em ambiente industrial ou real para aferir a eficácia e viabilidade de uma inovação biológica, tanto em larga escala (na Planta Piloto que se encontra atrás do prédio principal) quanto em tamanhos menores; e biologia sintética e biocatálise, que foi aberto ao público, na qual se estudam enzimas de bactérias e fungos.

De forma geral, as pesquisas no LNBR seguem o lema “Não basta ser renovável, tem que ser sustentável”. Ou seja, os cientistas buscam soluções na biodiversidade brasileira para alavancar o desenvolvimento sustentável. Um dos exemplos mostrados foi uma investigação no trato digestivo da ave Jacu-Cigano, que busca uma enzima que seja capaz de degradar resíduos como a cana-de-açúcar.

Um dos pontos mais reforçados pelos stands desse laboratório nacional foi a importância de mapear e priorizar o uso da flora e da fauna brasileira. Alguns exemplos de espécies investigadas são a copaíba e o peixe-boi.

