Jornalismo Júnior

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Pagú e a revolução além das palavras

Protagonista do modernismo brasileiro, Patrícia Galvão transitou entre as artes e a militância política
Ilustração de Patrícia Galvão, a Pagú, escritora, poetisa e militante
Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br)

No dia nove de junho de 1910, às 14 horas, nascia uma garota em São João da Boa Vista, no interior paulista, na casa número 21 da atual Rua Getúlio Vargas. Seu pai, Thiers Galvão de França, era advogado e jornalista. Os antepassados dele vieram da França e se estabeleceram na pequena Terra dos Crepúsculos Maravilhosos, cidade natal de Adélia Rehder, sua futura esposa, filha de uma famosa família sanjoanense. 

Dessa união de árvores genealógicas nasceu Patrícia Rehder Galvão. Logo na primeira infância mudou-se para o bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, com os pais e seus dois irmãos. Foi ali que nasceu sua companheira: a irmã Sidéria, apelidada como Sid. As duas cresceram no centro cultural oriental da metrópole. 

“Juntas pintavam e bordavam. Ela era muito destemida e muito sexual. Já com 13, 14 anos, usava sempre um batom vermelho, que nenhuma outra menina usava”, conta Neusa Menezes, pesquisadora e imortal da Academia de Letras de São João da Boa Vista, em entrevista ao Sala33. “Estudavam na Escola Caetano de Campos e, para voltar para casa, atravessavam o centro na frente da Faculdade de Direito da USP. A moçada lá adorava ela, ficava assobiando”, continua.

“O meu corpo quer extensão, quer movimento, quer zigue-zagues”, escreve Pagú em carta a sua autobiografia precoce
[Imagem: Autor desconhecido/Wikimedia Commons]

Com 15 anos começou a escrever uma coluna. A partir do momento que entrou na literatura, Patrícia nunca mais saiu, escreveu pelo resto da vida. Segundo Menezes, seu talento era natural, o que a fez chegar à turma dos revolucionários. Seu famoso apelido, “Pagú”, surgiu nesse meio — o poeta modernista Raul Bopp pensara que a garota se chamava Patrícia Goulart e assim nasceu o nome que a seguiu pelo restante da carreira. Bopp e Fernando Mendes, colega de escola de Patrícia, foram incentivadores da arte dela. 

“Em 1929, conheci Bopp. Era qualquer coisa de novo. Ele e Fernando foram os primeiros que me ouviram com complacência na exteriorização de minha revolta contra a maneira de agir e de ser do resto do mundo conhecido.”

Pagú, Autobiografia precoce

Foi Raul Bopp que, em 1929, a apresentou à Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, o casal modernista. Pagú integrou o movimento antropofágico com apenas 18 anos e participou da Revista de Antropofagia com seus desenhos e poemas

Pagú era descrita por outros artistas, como uma bela mulher de olhos expressivos
[Imagem: Croquis IV e V15 – GALVÃO, Patrícia. Pagú nascimento vida paixão e morte. Código, Salvador, n. 2, 1975, p. 26./Reprodução]

A partir disso, começou a ser reconhecida pela imprensa da época como colaboradora de jornais e projetos dos modernistas. “A parte em que as pessoas focam, isolam do resto da genialidade, é como ela ‘tomou’ o marido de Tarsila”. Pagú se envolve com Oswald e, por isso, é enclausurada pelo pai, que a proibiu de sair de casa, por medo de que ela se encontrasse com o escritor. Em carta destinada à “Jacaré, meu solteirão”, seu apelido para Oswald, e assinada como Bebé, escreveu: “Quando é que você liberta a pobre prisioneira (?)”. 

Para libertá-la, elaboraram um plano: Patrícia se casaria com Waldemar Belizário — pintor e amigo — escaparia da tutela da família e se encontraria com Oswald. Em setembro de 1929 casou-se com Belizário e a união foi anulada no ano seguinte. Solteira novamente, se casou com Oswald e teve seu primeiro filho, Rudá. Em sua Autobiografia Precoce, Pagú diz: “Eu não amava Oswald. Só afinidades destrutivas nos ligavam”. No livro, confessou que quando chegou ao Rio de Janeiro — cidade onde casou-se —, fugiu do hotel e vagou pelas ruas até decidir voltar, durante a madrugada.

“Sabia que Oswald não me amava. Ele tinha por mim o entusiasmo que se tem pela vivacidade ou por uma canalhice bem feita.”

Pagú, Autobiografia precoce

A maternidade não a impediu, o entanto, de continuar sua militância como uma das vozes do movimento antropofágico. Depois de morar no bairro da Liberdade, Pagú morou no Brás, ponto de crescimento da indústria têxtil de São Paulo, um setor dominado pelas mulheres. “Lá, ela conheceu a realidade da mulher trabalhadora. Tinham que abandonar a casa e trabalhar em uma jornada de mais de oito horas. Então pensou, ‘essa máquina, esse sistema, não está funcionando’”, diz Menezes.

A pesquisadora ressalta que foi Pagú que fez Oswald adotar o comunismo. “Esse pessoal do Oswald, os ricaços de São Paulo, se encontrava no Hotel Esplanada e discutia o Partido Comunista que nascia. Queriam que todos fossem ricos como eles, mas sem dividirem o seu próprio capital”. Menezes explica que Pagú tinha uma visão diferente, apontava os problemas na estrutura trabalhista, as condições de trabalho.  

Junto do marido, fundou o jornal O Homem do Povo, com uma editoria especial Mulher do Povo, assinada por Pagú. No seminário, era usada linguagem bem-humorada e crítica à temas e figuras do cenário político, religioso e social. A duração foi curta, com apenas oito edições. 

“Meninas que nasceram errado mas que não querem se conformar em seguir a lei da natureza. Querem continuar meninas. Botam atraz da porta a masculinidade, lambuzam a voz, celibatarizam-se… São catholicos e dizem-se communistas.”

Pagú, Mulher do Povo

“O meu corpo quer extensão, quer movimento, quer zigue-zagues”, disse Pagú em carta a sua autobiografia precoce
[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Patrícia Galvão era ativa fisicamente na política. Além de publicar críticas ao capitalismo, atuou em diversas revoltas e foi presa diversas vezes. Segundo Menezes, pouco cuidou de Rudá, já que ficou mais presa do que solta durante a infância do primogênito.

Em agosto de 1931 foi a principal oradora do comício de estivadores e militantes comunistas em Santos, na Praça da República. Enquanto discursava, policiais partiram para agarrá-la. Na tentativa de proteger a artista, um dos militantes disparou em sua defesa, mas foi baleado. Pagú segurou o homem em seu colo, enquanto ele sangrava até sua morte. Depois disso, passou duas semanas encarcerada por militância política, a primeira de mais de 20 prisões. 

Em 1933, seu primeiro romance, Parque Industrial, foi publicado, sob o pseudônimo Mara Lobo, baseado em sua experiência observando as mulheres do Brás e em seus ideais comunistas. Foi a primeira mulher a escrever sobre a figura feminina no mercado de trabalho da Era Industrial. A obra é traduzida e estudada no exterior, mas pouco analisada no Brasil.

“Na grande penitenciária social os teares se elevam e marcham esgoelando. Bruna está com sono. Estivera num baile até tarde. Para e aperta com raiva os olhos ardentes. Abre a boca cariada, boceja. Os cabelos toscos estão polvilhados de seda.

— Puxa! Que este domingo não durou… Os ricos podem dormir à vontade.”

Pagú, Parque Industrial

Como jornalista, foi credenciada como itinerante para viajar pela Ásia e Europa pelos veículos Correio da Manhã, Diário da Noite e Diários Associados. Queria chegar à Rússia e conhecer a pátria-mãe do comunismo. “Quando chegou lá, viu ricos em palácios e a pobreza pelas ruas. Sentiu que tudo era uma farsa, aquele comunismo não era real. Na realidade, só existia o discurso”, conta Menezes. Após a desilusão, seguiu para a França. 

Lá, rompeu com o comunismo utópico soviético e aderiu à teoria realista, juntando-se ao Partido Socialista francês. Protestou nas ruas em apoio à ideologia, mas, em 1936, foi rapidamente presa e repatriada. Ao retornar, divorciou-se de Oswald. Era uma sonhadora e, frustrada, focou nas artes.

“O ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas. Em Moscou, hotéis de luxo para os altos burocratas… Na rua, as crianças mortas de fome: era o regime comunista”, escreveu no livro Verdade e Liberdade
[Imagem: Reprodução/Arquivo Edgard Leuenroth – Unicamp]

Pagú mudou-se para Santos em 1946, onde morava Geraldo Ferraz, seu segundo marido, com quem teve seu segundo filho, também chamado Geraldo. Abriu uma escola de teatro que teve grande relevância na cidade. “Mesmo assim, ela foi se decepcionando. Já havia tentado suicídio na França e, em Santos, tenta novamente. Estava frustrada, porque não valia a pena lutar. Tanto sofrimento, tanta ilusão. Ela queria morrer”, diz a pesquisadora. 

Mesmo desiludida, Pagú nunca parou de militar. Logo ao retornar ao país, em 1936, foi presa por ligação à Intentona Comunista. Em 1945 foi candidata à deputada federal pelo Partido Socialista e produziu outros livros críticos, como A famosa revista, e fez parte de jornais como o Vanguarda Socialista. Morreu em 1962, ainda adepta à causa. 

Menezes finaliza a entrevista com uma crítica: “Pode ser que outros artistas tenham feito alguma coisa, mas quem lutou, quem deu a cara para bater foi ela. Quem foi para a fogueira foi ela. A turminha do Hotel Esplanada continuou lá, tomando seu whisky, enquanto ela estava encarcerada. Se fosse um homem no lugar dela, ninguém ia fazer o que faz, chamá-la de prostituta. Aquela música da Rita Lee, feita em homenagem a Pagú, diz muito sobre isso”.

Porque nem toda feiticeira é corcunda

Nem toda brasileira é bunda

Meu peito não é de silicone

Sou mais macho que muito homem

Rita Lee, Pagú

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