Por Thaís Vicari (thais.vicari@usp.br)
No início do mês de abril, o governo anunciou o lançamento do MEC Idiomas, plataforma que oferece cursos de inglês e espanhol em diversos níveis. O objetivo do portal é ser um ponto de contato inicial entre o indivíduo e o idioma escolhido através de ferramentas como trilhas de aprendizagem, testes e exercícios de fala.
O processo de aprendizagem de um idioma é longo, complexo, intrigante e repleto de benefícios. Ao mesmo tempo, desperta uma questão central: como esse processo ocorre?
A Psicolinguística
A psicolinguística é o ramo da linguística que dialoga com a psicologia cognitiva para compreender o processamento da linguagem e a forma como um indivíduo é capaz de adquirir, armazenar e utilizar o conhecimento linguístico. Os estudos de psicolinguística buscam entender como um indivíduo percebe os sons da fala, realiza a leitura e como produz a língua nas formas escrita e oral.
As principais metodologias da área envolvem a observação do comportamento linguístico em diferentes contextos de produção e compreensão comunicativa, a experimentação em situações artificiais de observação e a simulação cognitiva, que descreve as funções da linguagem por meio de programas computacionais.
O ramo é extenso e apresenta diversas abordagens, tendo como uma das principais áreas de pesquisa a busca por compreender como o ser humano é capaz de adquirir a linguagem.
A aquisição da linguagem
A linguagem desempenha um papel essencial em todos os aspectos humanos. É através dela que o ser humano pode interagir, se comunicar, produzir e transmitir conhecimento, organizar os pensamentos e gerar um desenvolvimento cultural e tecnológico. A língua é um dos elementos que compõem a linguagem, e para muitos pesquisadores, é um dos fatores que caracteriza a espécie humana.
O conhecimento linguístico humano é tácito, envolve julgamentos sutis, é intuitivo (já que a maior parte nunca nos foi ensinada diretamente) e é criativo, já que permite que a combinação de diferentes elementos tenham potencial para criar infinitas expressões linguísticas.
Uma língua é composta por vários componentes: tem-se a sintaxe, a semântica, a morfologia, a fonética e a fonologia. Dessa maneira, para o seu aprendizado é preciso dominar sons, combinações e estruturas complexas, algo que as crianças fazem de forma natural, ao trabalhar todos esses aspectos ao mesmo tempo. Como explicar o fato de que desde tão cedo o ser humano é capaz de dominar um sistema tão rebuscado?
A análise do desenvolvimento da linguagem em crianças revela que o processo de aquisição é surpreendente uniforme, mesmo que em idiomas diferentes, e que até as línguas que parecem estar mais distantes uma da outra possuem características compartilhadas.
Segundo a professora doutora Raquel Santana Santos, do departamento de linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), existem diversas teorias que tentam explicar o processo de aquisição da linguagem em seres humanos, mas as que seguem linhas gerativistas, interacionistas e estatísticas tendem a ser mais fortes.
Os pesquisadores que defendem as teorias interacionistas se baseiam no que defendia o psicólogo bielorrusso Lev Vygotsky, e acreditam que o desenvolvimento de determinada língua por uma criança ocorre através da interação com outros falantes dessa língua. Esse viés destaca a função social da fala e indica que, quando os adultos falam com a criança, cria-se uma intenção comunicativa que facilita a aquisição e o desenvolvimento do conhecimento linguístico. A criança aprende o idioma através do contato sociocultural ativo.
Aqueles que seguem um viés estatístico (que também pode ser chamado de conexionista), se baseiam nas ideias do pesquisador e professor de Oxford Kim Plunkett. A ideia defendida é de que as crianças aprendem as regras de um idioma de acordo com o input (ou seja, as informações e os dados que recebem), ao perceber padrões e assimilar o conhecimento de forma estatística.
Já o viés gerativista se baseia numa teoria proposta pelo linguista e filósofo americano Noam Chomsky, segundo a qual a aquisição da linguagem é uma capacidade inata e biológica do ser humano. Durante a formulação de sua teoria, o linguista teve contato com pesquisas do neurocientista alemão Eric Lenneberg sobre pessoas que sofreram algum derrame ou acidente que afetasse partes do cérebro ligadas à fala. Os estudos indicavam que indivíduos mais jovens conseguiam recuperar a habilidade linguística, enquanto a recuperação era mais limitada em adultos. Assim, Chomsky criou a hipótese de que as habilidades linguísticas são inatas, definidas biologicamente e associadas a algo em nosso cérebro, e propôs então a teoria da Gramática Universal (GU) para tentar explicar esse fenômeno.
Segundo essa teoria, toda criança nasce com acesso a uma Gramática Universal, um aparato biológico composto por princípios e parâmetros. Os princípios correspondem a leis invariantes, que são iguais em todas as línguas (como todo sintagma ter um núcleo, por exemplo) e os parâmetros são leis que recebem valores que podem ser “acionados ou não” de acordo com o idioma ao qual a criança é exposta, sendo fixados de acordo com a experiência. Assim, a criança nasce com acesso às estruturas necessárias para aprender qualquer idioma, e o aprendizado é determinado pelo input recebido, ou seja, pelas sentenças da língua a qual ela está exposta que definem quais parâmetros serão utilizados.

[Imagem: Thaís Vicari/Jornalismo Júnior]
De acordo com Raquel, a visão gerativa é bem forte nas pesquisas, mas as outras ainda têm certo espaço. “O problema dessas propostas novas é não ter uma teoria de gramática final. Então elas ficam fazendo uma coisa: elas misturam. Elas aceitam uma gramática final gerativa, mas elas acham que se chega nessa gramática de um outro jeito”, disse a professora.
O problema de Platão
No diálogo de Mênon, escrito por Platão, Sócrates explica para Mênon que até mesmo um escravizado sem instruções anteriores seria capaz de realizar cálculos simples de maneira intuitiva. Assim, surge uma indagação: como é possível possuir um conhecimento sem possuir base para isso? No diálogo, a conclusão de Sócrates é de que o escravizado possui noções matemáticas inatas.
Na aquisição da linguagem, essa indagação ficou conhecida como o argumento da pobreza de estímulo, que busca explicar como uma criança consegue desenvolver uma língua quando recebe um repertório tão limitado e fragmentado: como o cérebro humano, mesmo recebendo estímulos finitos, consegue desenvolver um sistema comunicacional complexo e dominar uma língua?
De forma inconsciente, o ser humano é capaz de compreender a sintaxe das frases, de interpretar sentenças ambíguas e de conjugar verbos sem que nenhuma dessas estruturas sejam explicadas diretamente. Para os defensores do viés gerativista, essa é uma comprovação de que existe algum aparato biológico, como a GU, que permite que o indivíduo domine esses fatores com base em um input raso.
Para os estatísticos, o input continua sendo o fator determinante, e, para os interacionistas, a diversidade das interações é suficiente para suprir o que o input bruto não oferece.
Cada uma das teorias tem suas particularidades, e o tema ainda é objeto de pesquisas que buscam explicar o desenvolvimento da espécie humana e os diferentes caminhos individuais para a aquisição.
A aprendizagem de outra língua e o bilinguismo
Segundo Santos, “usamos o termo ‘adquirir’ para quando é uma coisa que não foi ensinada, não teve um processo de ensino. Normalmente isso vai acontecer com a criança pequena, então não houve um esforço consciente para isso”. Já o termo ‘aprender’, abrange algo consciente, quando há esforço e estudo para dominar um novo idioma, ela complementa.
De forma técnica, o conceito de bilinguismo costumava ser usado para descrever uma pessoa que tem o conhecimento inconsciente para mais de uma língua, mas atualmente a concepção é mais ampla. De acordo com a professora doutora Ingrid Finger, do Laboratório de Bilinguismo e Cognição (LABICO) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a definição para o bilinguismo hoje é dinâmica e considera os contextos interacionais nos quais cada uma das línguas é utilizada.
Ser bilíngue é ser capaz de armazenar e usar mais de uma língua em diversos contextos, de acordo com a professora. “É óbvio que, como a gente aprende línguas como uma consequência das experiências de vida, não existe o falante bilíngue ideal que possui as duas línguas no seu sistema como sendo exatamente equivalentes. Porque a gente usa a língua para fazer coisas no mundo e a gente faz coisas diferentes com as línguas que a gente tem”, constatou.
De acordo com a professora, sempre há influência de uma língua na outra no processo de aprendizagem. Essa relação pode ser uma influência positiva ou uma interferência, já que existem alguns aspectos da segunda língua que são mais difíceis de serem incorporados, muitas vezes em função da primeira língua do indivíduo. Falantes de francês que estão aprendendo o português, por exemplo, podem ter dificuldades para pronunciar corretamente palavras como “não” e “chão” por não terem familiaridade com o som que é produzido. Esse é um aspecto que passa quase despercebido para aqueles que estão aprendendo o idioma mas que é evidente para os falantes nativos da língua.
Para Raquel Santos, “você vai estar aprendendo uma segunda língua mais ou menos como você aprendeu uma equação de segundo grau, como você aprendeu matemática. Você vai treinar, vai ter um professor que vai explicitar a forma, vai ter todos esses tipos de coisa”. No caminho entre a primeira e a segunda língua, algumas teorias apontam, ainda, que desenvolvemos uma interlíngua, que contempla regras do idioma materno e do idioma adicional. A interlíngua pode ser útil em alguns momentos, mas também é responsável por grande parte dos erros estruturais que cometemos no momento de aprendizagem.
Segundo Finger, “o desenvolvimento da linguagem é uma consequência de quanto e do tipo de uso que a gente faz dela, em qualquer língua. Língua materna, segunda língua. Mas existe um repertório de habilidades que a gente desenvolve em uma língua e a gente aproveita na outra.” Uma criança que cresce em um ambiente no qual os pais leem e contam histórias para ela, logo aprende a compreender a estrutura das narrativas e reconhece que elas possuem começo, meio e fim, explica a pesquisadora. Quando ela for aprender inglês, por exemplo, e começar a ler, terá mais facilidade por já ter assimilado a estrutura narrativa, presente em ambos os idiomas.
Por que as crianças aprendem com mais facilidade?
Com a teoria da Gramática Universal, surgiu a ideia de um período crítico para explicar porque crianças tendem a ter mais facilidade em aprender idiomas. A hipótese do perído crítico na aquisição da linguagem foi inicialmente proposta por Lenneberg e trazia a noção de que se um indivíduo fosse exposto com certa frequência a um idioma até o fim da puberdade, teria mais facilidade para desenvolver essa língua.
Atualmente, esse termo já não é mais utilizado e segundo Finger, as crianças têm um maior nível de plasticidade no cérebro, o que permite que elas tenham uma maior capacidade de adaptação e assim, tenham mais facilidade para aprender novos idiomas.

“Não existe uma idade na qual o cérebro deixa de aprender. Existe uma oportunidade, uma janela de oportunidade que é muito maior nas crianças.”
Profa. Dra. Ingrid Finger
O aprendizado de uma nova língua por uma pessoa adulta, portanto, tende a ser mais complexo porque o cérebro já desenvolvido possui menos plasticidade para se adaptar a experiências novas. Soma-se a isso o fato de que um adulto tem muito menos tempo disponível para se dedicar ao estudo de uma língua e possui muitas outras demandas cognitivas.
