Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)
Em 1947, na pequena cidade de Roswell, no Novo México, Estados Unidos, um fazendeiro encontrou destroços incomuns em seu rancho. Para o homem, eles teriam caído do céu. Ele avisa o xerife, que avisa o Exército. Com a propagação da história na região, liberam a seguinte nota: “Os vários rumores a respeito dos discos voadores se tornaram uma realidade”, a qual no mesmo dia foi atualizada e desmentida.
Segundo o novo comunicado, os destroços eram apenas um balão meteorológico. A história se espalhou e é um dos mais importantes casos da ufologia americana. Esse foi o acontecimento real que fez Steven Spielberg criar a história de Dia D (Disclosure Day, 2026), que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (11).
No filme, Margaret (Emily Blunt) é uma comunicadora que trabalha como garota do tempo em uma emissora de Kansas City. Um dia, em meio a apresentação do jornal, ela começa a falar em uma linguagem estranha e desmaia. Daniel (Josh O’Connor), que era funcionário em uma empresa de proteção de dados, está sendo perseguido pelo seu chefe, Noah Scalon (Colin Firth), após ter roubado um dispositivo e arquivos confidenciais da empresa – ambos relacionados a alienígenas.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
E são justamente os personagens, desenvolvidos em todas as suas camadas com muita sensibilidade, que dão uma força impressionante para a trama. O grande e primoroso elenco é sustentado em mesmo peso pelo roteiro assinado por David Koepp com a história de Steven Spielberg, que já trabalharam juntos em Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993) e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008)
Em suas histórias, Spielberg costumeiramente trata de elementos que fascinam a ele ou aos seus personagens. Sejam os dinossauros em Jurassic Park, a História em Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (Indiana Jones and the Raiders of the Lost Ark, 1981) ou o cinema em Os Fabelmans (The Fabelmans, 2022).
Em Dia D, existe um convite para que a sociedade volte a se preocupar com o que acontece ao redor dela, seja com as outras pessoas ou com as notícias do mundo, para que consiga ver que mesmo em meio a tantos problemas, ainda existe muito com que se encantar no universo, e a presença alienígena é uma ilustração disso. Basta ouvir. É esse fator que diferencia a temática do novo longa de outras produções do diretor como E.T – O Extraterrestre (E.T the Extra-terrestrial, 1982) e Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977).

[Imagem: Reprodução/IMDb]
No filme, é claro como Spielberg coloca em prática esse pedido: todos os dilemas são tratados com muita atenção e interesse naquelas histórias. A personagem Jane (Eve Hewson), namorada de Daniel, é um exemplo muito bem construído.
A ex-noviça, ao saber dos arquivos alienígenas, questiona se caso isso viesse a público não se tornaria um impedimento para a fé das pessoas e, ao longo do filme, sua relação com a crença é trabalhada em cenas muito bonitas, traçando um paralelo com a mensagem do filme. Em um papel muito simples, mas muito importante, a irmã do mosteiro (Elizabeth Marvel) que nutre afeto por ela e lhe abriga com Daniel lhe diz: “Você não perdeu a fé em Deus, mas nas pessoas.”
Em outra cena, muito simbólica, o que dá força a ela para resistir a uma ameaça do antagonista Noah Scanlon é segurar seu colar de crucifixo com tanta força que faz um corte na palma da mão, como a tradição cristã relata as marcas da crucificação nas mãos de Jesus.
A trilha magistral de John Williams também executa esse trabalho de compor o valor dos personagens e da trama muito bem. É através dela que os momentos grandes e especiais do filme são costurados, como os curiosos encontros que Margaret e Daniel têm com pássaros vermelhos e cervos, por exemplo. A música cria um código com o telespectador e ele entende que esses animais são mais importantes do que parecem ser. Quando a música volta em um momento de revelação do filme, a ligação já está construída.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
Outra característica clássica de Spielberg é a relação da História com a fantasia ou ficção-científica. Em Dia D, ela é demonstrada inicialmente com a atmosfera jornalística em torno de Margaret, mas principalmente pelos registros confidenciais de Scanlon, que conectam a história ao caso Roswell, embalando o filme com uma sensação de veracidade muito grande.

[Imagem: Divulgação/Youtube/@UniversalPictures]
O roteiro também funciona muito bem por não revelar todas as informações de uma vez. Ao transitar entre Margaret e Daniel, a história vai se afunilando até que eles se encontram, mas, até esse momento, ambas as histórias são muito interessantes e não fazem com que o espectador queira trocar de núcleo. Emily Blunt cria uma personagem natural que vai do humor ao drama organicamente em uma atuação brilhante e Josh O’Connor não fica atrás, interpretando muito bem a personalidade mais retraída de Daniel.
No coeso elenco também se destacam Eve Hewson, que entrega os dilemas de Jane com muita profundidade, e Colin Firth, que faz do empresário um vilão muito bom e tão interessado em cumprir seu objetivo de encontrar Daniel quanto os nazistas estavam em abrir a arca perdida em Indiana Jones.
Colman Domingo também é um grande acréscimo, interpretando o misterioso Hugo, que apesar de ter um papel crucial na trama, só tem sua função explicada completamente no último ato do filme. Uma excelente escolha de roteiro, que complementa o trabalho do ator e cria um suspense interessante que quando revelado, traz uma cena bem especial.
Talvez a única ressalva seja o comportamento do vilão ao final do longa. Apesar de justificada por um importante diálogo com Hugo, ao não se aprofundar no impacto da interação no empresário, o ato final de Firth parece enfrentar facilitações de roteiro.
A expansão das habilidades de Margaret também passam pelo mesmo problema, exigindo um pouco mais da suspensão de descrença do telespectador. São detalhes, pois, no panorama geral, a narrativa é tão bem amarrada e a imersão é tanta que se tornam quase irrelevantes.
O trabalho de fotografia, de Janusz Kamiński, junto da direção de Spielberg são uma aventura de assistir. É uma marca nos filmes dele a opção por movimentar mais a câmera, em planos sequência, o que diminui os cortes e traz uma sensação de realidade maior para as cenas, além de ser muito criativo.
Em um take, Daniel está mostrando para Jane os seus arquivos secretos. O telespectador vê ela de frente, sentada com o computador na mesa. Para mostrar o vídeo que ela está vendo era possível simplesmente cortar e mostrar a gravação, mas em vez disso, Spielberg dá um giro de 180° com a câmera passando por cima do notebook, agora mostrando o registro de ponta-cabeça, para enfim girar 360° e ser possível ver no ângulo certo os dados confidenciais roubados pelo namorado.
O filme também traz momentos de ação incríveis, de tirar o fôlego, que incluem uma fuga de carro passando por dentro de uma casa e uma armadilha de um dos agentes de Scanlon para jogar os protagonistas na frente de um trem. Parte da qualidade dessas cenas envolve o desenho de som e a trilha, que fazem com que o telespectador participe da ansiedade das cenas. Esse primor técnico também é perceptível nas falas esquisitas de Margaret, que são estranhas o suficiente para intrigar o telespectador.

Dia D é então uma orquestra sinfônica de tudo que o Spielberg sabe fazer de melhor: contar uma boa história, sempre aliada a bons personagens, elenco incrível, uma trilha comovente, com uma aventura imperdível e uma mensagem muito importante. Mesmo com toda essa tradição, o longa ainda é uma nova história, que comprova o tanto de encanto que este grande diretor ainda pode trazer ao público.

O filme já está disponível nos cinemas brasileiros! Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Imagem: Reprodução/IMDb]
