Por Gabriel Albuquerque (gabrielalbuquerque@usp.br)
Nos últimos meses, as maiores franquias de cinema do Brasil e do mundo adotaram uma estratégia muito eficiente para atrair o público de volta às telonas: a reprise de filmes clássicos e de franquias que marcaram gerações. Essas reprises conquistaram a atenção dos mais diversos públicos, seja quem nunca viu essas obras tradicionais ou quem gostaria de rever pela nostalgia.
O que muitas pessoas não sabem é que esses filmes não permaneceram intactos depois de mais de 30, 40 ou até 50 anos atrás, sendo muitas vezes degradados pelo tempo ou por maus-cuidados dos cinemas da época. Para evitar que esses filmes se tornem lost medias (mídias perdidas), um termo utilizado para se referir a obras que se perderam no passado, existem projetos, curadorias e empresas que se encarregam de preservar e divulgar os grandes clássicos do cinema. Uma dessas empresas é a gigante norte-americana The Criterion Collection, que atua na conservação e distribuição dos mais diversos filmes há mais de 40 anos.

[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Os anos iniciais
A The Criterion Collection, ou apenas “Criterion”, foi fundada em 1984 pelo produtor de cinema Joe Medjuck, o ator e roteirista Roger Smith e pelo casal de produtores Robert e Aleen Stein com a finalidade de preservar e restaurar em alta definição os mais diversos tipos de filmes clássicos. As primeiras produções a serem adicionadas em seu catálogo foram Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) e King Kong (1933), ainda em seu ano de fundação e em formato LaserDisc.

[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Durante seus primeiros anos de mercado, a Criterion fez parcerias comerciais com diferentes distribuidoras. O casal Stein, em conjunto de William Becker e Jonathan B. Turrell, donos da Voyager Company, uma empresa-mãe responsável pela produção dos primeiros CD-ROMs e distribuição dos filmes curados pela Criterion. Outra empresa que possuía participação nas ações da curadoria era a Janus Films, uma tradicional distribuidora de filmes americana que pertencia às famílias Becker e Turrell desde 1965, quando foi comprada pelos pais de William e Jonathan.
Em 1994, 20% das ações da Voyager Company foram vendidas para o Holtzbrinck Publishing Group, um conglomerado editorial alemão, com os 80% restantes da companhia sendo mantidos pelos quatro fundadores originais. A repartição não durou muito, pois em 1997 a Voyager foi dissolvida e suas ações começaram a ser vendidas. A Learn Technologies Interactive (LTI), empresa americana do ramo de hardware e computadores, comprou os 20% da companhia que pertenciam ao grupo alemão, outros 20% que pertenciam à Robert Stein e os direitos intelectuais de diversos CD-ROMs que a companhia possuía, além da própria marca “Voyager”. Outro investidor que também deixou de fazer parte do negócio foi Joe Medjuck, que vendeu suas ações na mesma época.
Virada do milênio e século 21
Mesmo após a fragmentação da marca, a Criterion permaneceu em atividade junto de três dos seus fundadores originais, com a distribuição dos filmes realizada por uma parceria entre a Janus e a Home Vision Entertainment (HVE), uma divisão de home videos da Public Media Inc. A HVE era a principal responsável pela comercialização e distribuição dos LaserDisc da Criterion até 1998, quando a curadoria decidiu adotar os DVDs como formato principal e manter os LaserDisc como opção secundária. Sua primeira obra no novo formato deveria ser A Grande Ilusão (La Grande Illusion, 1937), mas devido à um problema na restauração do filme, Os Sete Samurais (Shichinin’nosamurai, 1954) foi relançado no lugar do clássico francês.

[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
No ano de 2005, mais mudanças envolvendo a distribuição dos filmes preservados pela Criterion: A HVE foi comprada pela Image Entertainment, produtora e distribuidora americana de filmes, que passou a ser responsável pela distribuição dos títulos da companhia de forma exclusiva até 2008, quando a Criterion decidiu fornecer seus títulos no mercado digital através de uma parceria com a MUBI. Em 2013, a Sony Pictures Home Entertainment também começou a distribuir os filmes da companhia em outros locais do mundo além da América do Norte, como a Austrália e a Nova Zelândia.
Durante a disputa entre o Blu-Ray e o HD DVD para decidir qual seria o formato de alta definição padrão da indústria, a Criterion não se posicionou claramente sobre qual deles iria adotar como principal. Com o Blu-Ray estabelecido como o formato principal de mídia física no mercado cinematográfico, os primeiros títulos lançados no novo formato foram Amores Expressos (Chóngqìng Sēnlín, 1994), de Wong Kar-Wai, O Terceiro Homem (The Third Man, 1949), do diretor americano Carol Reed e outros. Em 2013, a companhia tomou sua decisão de comercializar a versão Blu-Ray dos filmes em conjunto do DVD. Entretanto, esse costume não durou muito tempo e, em junho de 2014, os formatos pararam de serem vendidos em conjunto após reclamações dos consumidores que não viam sentido em pagar mais por um formato que não seria utilizado.

[Imagem: Reprodução/Flickr]
Desde 2018, a Criterion também conta com um serviço de streaming. O Criterion Channel oferece a maior parte dos títulos da marca em alta definição, mas atualmente a plataforma não se encontra disponível no Brasil, atuando apenas nos Estados Unidos e no Canadá. Alguns de seus filmes também se encontram em outros serviços de streaming — como o HBO Max — desde maio de 2020.
A Criterion se tornou ainda mais popular com a internet e com o quadro “Criterion Closet Picks”, onde figuras notáveis da indústria cinematográfica ou celebridades que tenham alguma afinidade com o cinema escolhem seus filmes favoritos e explicam suas escolhas. Seu episódio de estreia foi publicado em 2010 e contou com Guillermo del Toro como convidado. Atualmente, os episódios são publicados no perfil oficial da distribuidora no Youtube e no Instagram.
As grandes contribuições da Criterion ao cinema
Para garantir que seus filmes não ficassem distorcidos quando fossem exibidos em televisores ou em outras telas, a Criterion optou por uma técnica chamada letterbox (em português, “caixa de correio”), que consiste na adição de tarjas pretas nas extremidades superiores dos filmes que a proporção original era widescreen. Dessa forma, quando o filme fosse exibido em telas de proporção 4:3, seu conteúdo permaneceria com a proporção original e não prejudicaria a experiência do telespectador. O primeiro filme lançado pela empresa que utilizava essa técnica foi Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956), ainda comercializado em LaserDisc.

[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Outra grande contribuição da Criterion Collection ao cinema foi o seu pioneirismo com edições especiais de seus filmes e coleções. Em seus dois primeiros lançamentos — Cidadão Kane e King Kong —, por exemplo, a empresa enviava a fonte dos negativos desse último filme como uma cortesia. Seus DVDs considerados edições especiais continham brindes, posters, trailers, comentários, cenas deletadas e até mesmo finais alternativos dos filmes.
Todo esse cuidado com o conteúdo comercializado pela The Criterion Collection e seus fundadores a fez se tornar uma referência entre estudantes de cinema, críticos e cineastas de todo o mundo. Ano após ano, a Criterion demonstra ser uma guardiã da história do cinema mundial. Seu trabalho de restauração e preservação dos clássicos democratizaram o acesso ao cinema e aproximou cada vez mais as pessoas de filmes que, na maioria das vezes, eram restritos ao público mais velho que pôde assistir na estréia ou aos críticos e pesquisadores.
