por Gabrielle Pinter (gabriellepinter@usp.br)
Convidar os vizinhos para jantar te parece inofensivo, não? Ao entrar na sala de cinema, o espectador nem imagina que essa simples visita pode mudar tudo. Em O Convite (The Invite, 2026), Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen) vivem um casamento de quase duas décadas. O relacionamento já beira o abismo e, em uma noite qualquer, o casal resolve realizar um jantar para seus vizinhos do andar de cima.
O filme, que estreia nesta quinta-feira (9), é uma releitura estadunidense dirigida por Olivia Wilde do longa espanhol Sentimental (The People Upstairs, 2020) de Cesc Gay. Diferentemente de sua produção em Não se preocupe querida (Don’t Worry Darling, 2022), seu trabalho em O Convite é cativante e marcante, mostrando que Wilde está caminhando e trabalhando duro para consolidar sua carreira atrás das telas.
Embora a estrutura do roteiro mantenha o gancho original, um jantar entre vizinhos, O Convite se afasta de Sentimental no tom que escolhe para conduzir a trama. Enquanto o longa espanhol opta por um humor mais ácido, centrado quase inteiramente no choque provocado por uma proposta dos vizinhos, a versão de Wilde equilibra esse desconforto com momentos de catarse emocional.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
Em O Convite, os vizinhos Pinã (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) são apresentados no início do longa, totalizando 4 personagens que, apesar de parecer pouco, são suficientes para prender a atenção dos espectadores durante 1h 47m. O interessante, que logo chama atenção, é que eles são o completo oposto de Angela e Joe: apaixonados e namorando somente há um ano.
O casal de anfitriões têm um segredo que é o pontapé para o início da história: todas as noites eles escutam Pinã e Hawk em suas intimidades – que não são nada discretas. A comicidade na sua mais pura originalidade começa aí: Joe, que inicialmente não queria receber o casal, ameaça trazer o assunto à mesa, constrangendo Angela, que torce pelo sucesso do jantar. De cara, essa preocupação parece apenas mais um traço do perfeccionismo de Angela mas, aos poucos, fica claro que há um motivo bem mais justificável por trás dessa ansiedade.

[Imagem: Reprodução/Youtube/@A24]
O Convite é uma comédia que se sustenta quase inteiramente sobre o desconforto. O filme se passa numa única noite, dentro de um apartamento em São Francisco, unidade de tempo e espaço que dá ao roteiro de Rashida Jones e Will McCormack uma tensão psicológica crescente, quase teatral.
A escolha do cenário não é aleatória. A diretora declarou que a cidade ajuda a revelar a identidade desses personagens, como se esse grupo específico só pudesse existir ali – quase um retrato de quem são essas pessoas e de onde vêm. O apartamento fechado dá essa sensação de armadilha, onde cada diálogo trocado no jantar, apesar de arrancar risadas dos espectadores, carrega uma camada de ressentimento. As alfinetadas de Angela e Joe começam por motivos banais, mas escondem questões mais profundas do casamento: a insatisfação dele com a própria carreira e a sensação dela de estar presa à rotina doméstica. Até assuntos leves, como a cor da parede ou a música que toca ao fundo, acabam virando pretexto para brigas entre os dois.
A fotografia de Adam Newport-Berra intercala closes e planos abertos para acompanhar essa tensão. Os closes capturam a ansiedade de Angela, enquanto os planos mais abertos expõem a distância entre os casais dentro do apartamento, o que contribui para a sensação de constrangimento que domina o público. A trilha de Devonté Hynes reforça esse mesmo estado, com músicas tensas que acompanham de perto o nervosismo da personagem ao longo da noite.
Olivia Wilde dá vida a Angela,uma personagem complexa e extremamente controladora, e a faz muito bem. Dentro de um casamento falido, além de guardar segredos, desejos e insatisfações, carrega grande parte do divertimento do público ao não conseguir esconder que se sente extremamente atraída por Pinã.

[Imagem: Divulgação/O2 Play]
Seth Rogen tem um longo histórico de roubar a cena em seus trabalhos e, em O Convite, não foi diferente. Ainda que a narrativa se proponha a dividir o foco entre os dois casais, ele é o verdadeiro protagonista. Não é a primeira vez que isso acontece, em Superbad: É Hoje (Superbad – 2007) e Ligeiramente Grávidos (Knocked Up – 2007), por exemplo, Rogen já demonstrava, por sua atuação marcante, sua capacidade de se tornar o centro mesmo em elencos de peso.
O personagem Joe, infeliz com a própria vida e hilariamente sarcástico, é construído por Rogen com uma precisão cômica que reflete um tipo de personagem recorrente em sua carreira: homens inseguros, sarcásticos e insatisfeitos com a própria trajetória. É esse tom que faz o público encolher nas cadeiras, tomado por aquela vergonha alheia impossível de conter a risada.
Um grande acerto do filme é a química entre Wilde e Rogen, que já haviam trabalhado juntos em O Estúdio (The Studio, 2025), série elogiada justamente por equilibrar humor e drama através do tom tragicômico do protagonista, também vivido por Rogen.
Essa parceria prévia parece ter dado aos dois liberdade para improvisar e reagir um ao outro em tempo real, o que confere às cenas de jantar uma vivacidade muito bem construída, além de ajudar a explicar por que Rogen consegue transitar com tanta naturalidade entre o cômico e o trágico também em O Convite.

estrelar Angela [Imagem: Divulgação/O2 Play]
Mesmo com a trama concentrada em poucos personagens, Hawk acaba tendo um papel secundário dentro da dinâmica do jantar. Ele não é o objeto do desejo central da história, e isso fica claro pela forma como o roteiro o posiciona, quase sempre sem conduzir alguma linha própria. É fato que o personagem está em cena o tempo todo, mas sua presença parece mais funcional do que essencial, sem ter um arco que o justifique por si só.
Ainda assim, Edward Norton consegue extrair do pouco que recebe. Mesmo limitado a esse lugar mais passivo durante boa parte do filme, ele entrega nos minutos finais uma cena carregada de emoção que reposiciona Hawk, mesmo que tarde, como alguém com camadas próprias. É um daqueles casos em que a atuação compensa uma escrita desigual, mostrando que o ator soube aproveitar a única abertura real que o roteiro lhe deu.
Ao longo do jantar, segredos vão sendo revelados entre os casais, e um caminho inesperado é traçado. No meio de muito humor, Pinã, uma personagem sexy e discreta, que não poderia ser interpretada por outra pessoa a não ser Penélope Cruz, traz reflexões sobre relacionamentos, sexo e liberdade que expõem verdades desconfortáveis sobre casamentos. É esse contraste entre a leveza com que ela fala e o peso do que diz que transforma Pinã na consciência crítica do filme, sem que ela precise se tornar séria para isso.

produção de seu terceiro longa
[Imagem: Daniel Benavides/ Reprodução/ Wikimedia Commons]
A película 35mm e o humor constrangedor similar a O Drama (The Drama, 2026) encaixam perfeitamente com a narrativa, garantindo risadas ao longo de quase toda a projeção. Mas O Convite não é só comédia: ao longo da trama, alguns momentos mais sérios surgem em meio ao caos cômico, e o final é o ápice dessa virada de tom. Depois de uma noite marcada por revelações e desconfortos, Angela e Joe chegam a um momento de introspecção silenciosa, em que a comédia dá lugar a uma cena carregada de emoção e aprendizado sobre o próprio casamento.
Não é à toa que o filme provocou a primeira disputa de uma noite inteira em anos no Sundance, encerrada com a vitória da A24 sobre a Focus Features. O Convite entrega o que promete: uma comédia sobre desejo, comunicação e os limites da intimidade, sem perder o controle do tom mesmo quando a trama escala para o desconforto. É um retrato afiado de relacionamentos modernos, narrado com a segurança de uma direção que sabe exatamente o efeito que quer provocar no público.

O filme já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de Capa: [Divulgação/O2 Play]
