Por Thaís Vicari (thais.vicari@usp.br)
Ao longo dos anos 90, indivíduos se tornaram, paulatinamente, inférteis. O ano – 1995 – em que se registrou o último nascimento de uma criança ficou conhecido como Ômega. Os indivíduos dessa geração carregam com si a maldição — e a benção — de serem os mais jovens, e por isso, vivem cheios de regalias e bajulações, o que resulta em uma certa tensão na relação com os mais velhos. Essa é a premissa inicial de Filhos da Esperança (Aleph, 2023), distopia escrita pela inglesa P. D. James em 1992.
A história se passa na Inglaterra, no ano de 2021, no qual a epidemia global de infertilidade enfrentada pela humanidade completa vinte e seis anos. Diante da ausência de uma perspectiva de futuro, a sociedade enfrenta diversos problemas e dilemas sociais: pessoas deixam de se importar com a civilização como um todo e ficam cada vez mais centradas no individualismo e nos prazeres imediatos.
Nessa situação, em que acreditar? Com a iminente extinção do ser humano, as religiões e a ciência perdem espaço. Os religiosos são taxados como lunáticos que tentam, sem sucesso, buscar razões para a infertilidade universal e algum consolo em meio às crises. Já a ciência, apesar de responder a diversos dilemas da humanidade, falha em identificar uma causa e uma possível solução para o problema, o que faz com que as pessoas passem a questioná-la. Alguns acreditam que a cura pode ser descoberta. Outros perderam completamente a esperança após quase três décadas sem respostas.
“A ciência ocidental tinha sido o nosso deus. Na variedade de seu poder, ela nos preservou, reconfortou, curou, aqueceu, alimentou e entreteve, e nós nos sentimos livres para criticá-la e, por vezes, rejeitá-la, assim como o ser humano sempre rejeitou seus deuses, mas sabendo que, apesar da nossa apostasia, essa divindade, nossa criatura e nossa escrava, ainda proverá para nós o anestésico para a dor, o coração reserva, o novo pulmão, os antibióticos, as rodas que se movimentam e as imagens animadas”
Filhos da Esperança, p.12-13
Em Filhos da Esperança, o envelhecimento da população é, então, um desafio universal. O número de idosos que demandam cuidados especiais aumenta e as parcelas sociais saudáveis diminuem. Nesse cenário, os governos incentivam o Termo, um suicídio coletivo e voluntário de idosos mediante apoio e autorização dos familiares.
Questões humanitárias de imigração também fazem parte do enredo. Para suprir a falta de funcionários e trabalhadores que façam serviços braçais, o governo da Inglaterra proíbe a emigração de jovens e incentiva a imigração dos Temporários, que vivem na região sob condições desumanas.
“Eles trabalham por uma ninharia, moram em acampamentos, as mulheres são separadas dos homens. Nem sequer concedemos cidadania para eles. Isso é uma forma de escravidão legalizada”
Filhos da Esperança, p. 92
Diante da desolação humana, o governo inglês estrutura uma política baseada na tríade prazer-conforto-proteção. O último elemento é obtido através da erradicação do crime: condenados por atos de violência e roubos são enviados à Colônia Penal da Ilha de Man, ambiente hostil e agressivo em que são deixados para viver à própria sorte. Enquanto isso, o restante da população desfruta de uma sensação de segurança.
O lado humano
O protagonista da obra é Theodore Faron, um historiador solitário e apático que acaba de completar cinquenta anos. Desolado, sem esperanças para o futuro e com um casamento frustrado, Theo afirma, nas primeiras páginas do livro, que o fato mais interessante sobre si mesmo é que ele é primo de Xan Lyppiatt, ditador e Administrador da Inglaterra.
Xan se autoproclamou Administrador diante da premissa de que ninguém mais se responsabilizaria por uma sociedade fadada ao fracasso. Com o passar dos anos, ele concentra cada vez mais poder. O personagem se mostra verdadeiramente humano e complexo, sendo retratado como um líder racional gradualmente corrompido por sua própria ambição.
Theo também é um personagem que carrega grande profundidade emocional. Ele é construído através de acontecimentos que o tornam uma figura ambígua: o leitor ora se compadece por ele, ora se incomoda diante de sua frieza. O que permite maior compreensão acerca de sua psique são os capítulos narrados por ele através de passagens de seu diário intercaladas com trechos narrados em terceira pessoa. Com isso, a autora cria uma complexidade maior e caracteriza Theodore como um narrador não confiável.

A relação entre Theo e Xan é tênue, visto que os dois eram próximos quando crianças, mas Theo sempre cresceu às sombras do primo, sendo o ”segundo” da família. O sentimento de admiração misturado com ressentimento se mantém na vida adulta, mas os dois se afastam quando o protagonista abre mão de atuar como assessor do Administrador e decide se dedicar à carreira de historiador.
A vida monótona e desesperançosa de Theodore vira de cabeça para baixo quando um grupo de rebeldes, conhecido como Cinco Peixes, pede sua ajuda para se opor ao governo autoritário de Xan Lyppiatt e dar mais dignidade aos humanos restantes.
“Era sensato lutar, sofrer, talvez até morrer por uma sociedade mais justa, mais compassiva, mas não em um mundo sem futuro onde, em pouquíssimo tempo, as próprias palavras justiça, compaixão, sociedade, luta, mal, seriam ecos não ouvidos no ar vazio”
Filhos da Esperança, p.173
Em uma sociedade desolada e individualista que acredita que a realidade não pode ser mudada e que a humanidade não tem salvação, os Cinco Peixes representam uma fagulha de esperança e rebelião. Na companhia de Theo, o grupo busca condições para tornar o mundo um lugar mais justo e para salvar o futuro da civilização.

A relevância da obra
A obra foi adaptada para o cinema em 2007 por Alfonso Cuarón e recebeu três indicações ao Oscar, com destaque à categoria de Melhor Roteiro Adaptado.
As abordagens de P. D. James a respeito do comportamento humano e das mazelas sociais na narrativa se fazem mais pertinentes e relevantes do que nunca.
Com o desenvolvimento das tecnologias, as redes sociais e a automação de processos, a realidade se torna cada vez mais artificial, e a sociedade, cada vez mais individualista. A discussão sobre imigração, exploração e direitos trabalhistas também fazem parte do contexto atual, assim como a ascensão de ideais extremistas.
Filhos da Esperança é, portanto, uma obra que, mesmo após mais de trinta anos, se mantém relevante e atual. O livro convida o leitor a refletir sobre mazelas e relações sociais. Acima de tudo, convida a repensar sua perspectiva sobre a vida e tudo aquilo que garante dignidade aos seres humanos.
“Não conseguimos vivenciar nada além do momento presente, vivido em nenhum outro segundo de vida, e entender que isso é o mais perto que podemos chegar da vida eterna”
Filhos da Esperança, p.19
Imagens usadas na capa: [Reprodução/Wikimedia Commons], [The Sydney Mail/Wikimedia Commons], [National Archives/Wikimedia Commons] e [Reprodução/Editora Aleph]
