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O impacto dos smartphones para saúde e aprendizado de indivíduos em idade escolar

Gerações mais novas “nasceram com as telas nas mãos”, mas o organismo de jovens e crianças ainda está sujeito às consequências do uso excessivo de celulares
Cecília Barros (ceciliaabarros@usp.br)

Estudos iniciais sobre o impacto dos smartphones no funcionamento cerebral já causaram alterações nas regras de uso desses equipamentos em países como Suécia, Noruega e Finlândia. No Brasil, a medida tomada foi a proibição do uso de celulares nas escolas. A Lei n 15.100 de 2025 , que já completou um ano, desagrada alguns estudantes e é  aprovada por professores.

Proibição de celular nas escolas: polêmica e necessidade

Dentro das salas, o celular aparece como um “refúgio mental”. Todo jovem em sala de aula prefere certos conteúdos, presta mais atenção quando estão sendo lecionados e até guarda o celular na mochila para se concentrar. Nesses casos,  ele compreende melhor a aula. Por outro lado, conteúdos de mais difíceis requerem um grau maior de concentração e geram um distanciamento natural, pois frustram os alunos pela dificuldade de entender. Tal situação motiva muitos estudantes a irem atrás de uma satisfação instantânea, como o rolar de tela do celular.

Jovens sem celular em sala de aula
A leitura no mundo atual não envolve apenas livros, mas também posts em redes sociais e em mensagens de texto. É raro o contato com textos grandes e densos, o que cria uma aversão natural a eles [Imagem: Harrison Keely/ Wikimedia Commons]

Em entrevista ao Laboratório, a professora Sasha Dellatorre da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (EAFEUSP) pontua que “precisamos refletir sobre como dominamos isso [a tecnologia] e isso não nos domina. Eu, adulta, se estou sozinha com meu celular, perco a noção do tempo. Quando vejo, tenho 50 mil coisas para fazer e fiquei 20 minutos vendo stories que não me acrescentaram nada.” 

Delatorre ainda completa: “O celular surgiu em nossas vidas como um produto facilitador. Ele foi amplamente distribuído sem manual de instrução e preenche cada vez mais horas dos nossos dias.” Mesmo pessoas adultas, com consciência do problema, se perdem no rolar da tela. Por essa razão, a professora julga cruel colocá-los nas mãos dos mais jovens e deixá-los serem “abduzidos” num espaço onde deveriam ser educados. 

Apesar dos estudantes possuírem ciência dessa “abdução” para o mundo virtual, não imaginam que seja tão intensa. Ainda acreditam que dão conta de realizar efetivamente mais de uma atividade ao mesmo tempo. Todavia, de acordo com o neurocirurgião docente da  Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Fernando Gomes, em entrevista ao podcast “ O Assunto”, a multitarefa só pode ser realizada de forma não prejudicial quando se tem domínio sobre ambas atividades. “Ou seja, não é possível aprender algo novo sem estar 100% concentrado”. Desse modo, a multitarefa promovida pelo uso dos celulares em sala de aula, durante o processo de aprendizagem, desemboca em problemas relacionados à atenção seletiva e, futuramente, à memorização, além de gerar a falsa sensação de aprendizado.

Como a “abdução” acontece? 

No livro “ Nação Dopamina”, a doutora Anna Lembke explica que um vício é impulsionado pelo fácil acesso ao produto. O acesso ao celular cresceu e ampliou-se também o tempo de tela de quem possui o aparelho. Maior o uso do celular, mais os algoritmos podem entender o padrão comportamental e os interesses da pessoa. Desse modo, o algoritmo busca manter o indivíduo conectado e em contato com assuntos de interesse, o que ativa a memória afetiva e gera a sensação de satisfação. 

De acordo com o professor Antonio Serafim do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP), uma vez que um indivíduo experimenta a sensação de prazer – ao comer um chocolate ou utilizar substâncias psicoativas, por exemplo –, uma área do cérebro denominada “tegmental ventral“, rica em neurônios espelho, é ativada e transmite a sensação de recompensa.

Imagens do cérebro
Neurônios espelho estão relacionados à empatia e ao processo de aprendizagem por observação [Imagem: Department of Radiology, Uppsala University Hospital/Wikimedia Commons] 

Ainda segundo Serafim, a ativação a relacionada dessa área durante o uso de celulares se dá através de receptores dopaminérgicos. Isto é, nesse caso, “a dopamina atua tanto sobre a motivação pela busca de uma gratificação, que o prazer gerado pela gratificação se torna secundário”. Ou seja, o prazer real é o conteúdo que vem após a rolagem de tela, ele está sempre na busca pelo próximo vídeo no TikTok. 

É, nesse ponto, que se perde a noção do tempo e do espaço. O elemento de surpresa prende o espectador e o abduz para o mundo virtual. Nem sempre uma pessoa que parece desatenta por estar mexendo no celular se encontra nesse estado propositalmente.  O professor explica que, enquanto ela presta atenção no virtual, o cérebro está ativado em uma área específica (a do processamento de imagens e vídeos) e está recebendo uma gratificação instantânea. Nesse cenário, a percepção de interações e ruídos externos é  completamente inibida, como se a área do cérebro que deveria processá-los deixasse de funcionar por um instante. 

Sendo assim, quando um estudante pega o celular durante a aula, ele é, involuntariamente, desconectado dela. Embora ele acredite estar ouvindo e, portanto, aprendendo o conteúdo, a consolidação do aprendizado exige mais do que um ouvido “parcialmente” atento. 

Impactos do uso excessivo dos celulares

Crianças cada vez mais novas ganham equipamentos digitais e, portanto, cada vez mais cedo, impactos do uso de smartphones são observados. Para Serafim, apesar dos estudos estarem em fase inicial, eles já demonstram alterações na atuação de neurotransmissores, na cognição, em questões socioemocionais e no sono. 

O sistema nervoso de seres humanos é diverso em neurotransmissores, como dopamina, serotonina, adrenalina, ácido gama-aminobutírico (GABA).Quando expostos a descargas muito elevadas dessas moléculas, os receptores podem enviar ao cérebro uma resposta que gere agitações e mudanças momentâneas no comportamento do indivíduo. Por exemplo, excesso de dopamina pode gerar um quadro de hiperagitação, problemas de concentração e incapacidade de planejamento. Excesso de serotonina, por sua vez, pode gerar respostas que afetem o bem estar e o humor do indivíduo.

Quanto aos impactos cognitivos, os mais preocupantes são: atenção sustentada, ou seja, a capacidade de manter o foco por um tempo prolongado e livre de distrações; memória de trabalho, que depende da capacidade de manter o foco enquanto se realiza certa atividade e é uma etapa essencial para a consolidação da memória no processo de aprendizagem. 

Esses impactos resultam da imensa quantidade de estímulos visuais disponíveis no smartphone. Dentre eles, destacam-se vídeo e imagens com textos. De acordo com Serafim, tais formatos requerem uma área específica do cérebro para o processamento. Por conseguinte, o restante das áreas que só seriam estimuladas através de outras atividades – como a leitura, que exige um esforço maior de atenção constante, raciocínio e compreensão verbal e também habilidades de memória – não são suficientemente desenvolvidas.

“Existe também uma tendência relativa à dificuldade de expressão e compreensão de emoções”, pontua Serafim. Os aparelhos isolam os indivíduos, as conversas são mediadas por uma tela, e isso impacta no controle de emoções. “Crianças expostas excessivamente ao celular têm maior dificuldade em controlar atitudes e falas, como respostas inadequadas ou surtos de raiva e choro, do que crianças que usam os aparelhos de forma regulamentada”. 

Por último, o impacto no sono. Não só jovens, como também adultos, desenvolveram o costume de utilizar telas antes de dormir, o que prejudica o descanso total, a produção de melatonina e faz com que os indivíduos ainda acordem cansados no dia seguinte.

Pessoa mexendo em celular
Tanto pela luz azul, quanto pelo conteúdo consumido antes de dormir, o uso dos celulares na cama pode reduzir a qualidade e profundidade do sono [Imagem: Japanexperterna.se/ Wikimedia Commons] 

A educação para o ócio

“É nos momentos de vazio que a gente aprende a regular as próprias emoções, a refletir sobre o que acabou de acontecer, a planejar o que vamos fazer em seguida, e até a aproveitar melhor o tempo presente.” 
Drauzio Varella, em entrevista ao Fantástico sobre o uso prolongado de telas por crianças e adolescentes

A educação para o ócio nada mais é do que a educação para o vazio. Para os momentos (raros, hoje em dia, inclusive por conta do celular) de tédio. No modo de vida atual, é ensinado que momentos de tédio são abomináveis e que eles devem ser substituídos por ações produtivas. 

Momentos de tédio são substituídos por momentos de scrolling (que, às vezes, ultrapassam a esfera do vazio, e interferem em instantes que deveriam ser produtivos). Espaços de reflexão, planejamento, e autoconhecimento são trocados por preocupações com a vida do outro. Há baixa tolerância ao tédio, ao tempo presente. 

Para a professora Sahsha Dellatorre, da EAFEUSP a necessidade que os alunos sentem de checar o celular durante as aulas pode, de certa forma, ser um retrato da dificuldade de permanecer no presente. Para lidar com isso, a professora propõe uma série de atividades manuais, que estimulam a criatividade e o senso crítico. “Atividades como desenho e pintura me mantém mais presente no agora e me afastam de anseios ou pensamentos intrusivos”, Dellatorre afirma. 

É responsabilidade da sociedade ensinar os jovens a viver além das telas, a utilizá-las como auxílio e não como elemento que gera dependência. Dessa forma, limitar o uso dos celulares, e ampliar as atividades que promovem a socialização e o engajamento com as atividades durante o período escolar pode intensificar  o processo de aprendizagem, pois remove uma potencial distração e promove uma conexão maior dos estudantes com o conteúdo escolar. 

*A capa desta matéria usa imagens editadas de Fernando Frazão disponíveis na Agência Brasil, e de SIERRA LEONE NATIONAL TOURISM BOARD, Eythar-gubara e Dappasolomon001 disponíveis no Wikimedia Commons

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