Por Hellen Rodrigues (helliv7@usp.br)
A comédia nem sempre vem de piadas, comentários oportunos ou imitações caricatas. Idiotas (Idiots, 2026) nos prova que há também um toque de comicidade no desconfortável e na incredulidade. O filme de Macon Blair, o terceiro do diretor conhecido por sua carreira frente às câmeras, chega aos cinemas nesta quinta-feira (03), e consolida seu próprio estilo nas produções.
A história começa com Davis (O’Shea Jackson Jr) sendo suspenso das atividades da igreja após, sem querer, levar o grupo de jovens religiosos para assistir um filme que continha nudez. Logo nesse começo, o diretor escancara a personalidade religiosa e a dualidade com o explícito presente por todo o longa.
Na segunda frente, conhecemos Mark (Dave Franco), o total oposto do personagem anterior. Ele é bagunceiro, irresponsável e usuário de drogas. Sua vida vira de ponta cabeça quando a empresa na qual trabalhava precisou fazer um corte de gastos e ele foi demitido.
Nesse momento D.D (Macon Blair), personagem interpretado pelo próprio diretor do filme, entra em cena. Ele é amigo de Mark e, ao notar seu desespero, indica-lhe um trabalho: levar o filho da sua chefe para a reabilitação. Sem alternativas e precisando do dinheiro, ele aceita.

É aqui que a dupla de protagonistas se encontra. Davis é um colaborador antigo no trabalho e utilizava a van da igreja para essa missão. Contudo, com a suspensão de seus cargos na instituição, ele perdeu o direito de usar o automóvel. A responsável pelo serviço designa, então, que ambos os personagens trabalhem juntos no transporte.
A tarefa de levar Sheridan (Mason Thames) para a reabilitação se mostra mais desafiadora do que o esperado. O primeiro contato com o garoto é dúbio. Mark se mostra hostil a facilidade com que o garoto aceitou a ajuda e desconfia da falsa sensibilidade apresentada. Davis, no entanto, escolhe acreditar nas boas intenções e no poder de melhora do menino.
Durante o caminho para a reabilitação, a dupla se vê diante do primeiro problema: depois de parar para comer, o pneu do carro fura. Mark reforça seu estereótipo de irresponsável e não possui equipamentos para a troca. Sem meio de transporte e com o concerto demorado, o trio é obrigado a se alojar no hotel mais próximo. E é aqui que a trama ganha novos rumos.
Ao nos apresentar os personagens, a premissa básica e os possíveis conflitos, como a dualidade entre os dois responsáveis, a história caminha com uma calma entediante, cenas longas e expositivas, fluxo sem surpresas abruptas e diálogos rasos. Apesar de usar alguns comentários engraçados e se escorar na personalidade rebelde de Mark, o filme não cresce nos primeiros minutos e parece até indeciso no caminho que vai tomar: entre a comédia descrita na classificação do filme ou o suspense sobre o que irá acontecer no desenrolar.
O mistério por trás do porquê o garoto está indo para a reabilitação parece ser o caminho que o autor quis tomar nesse início. Porém, essa informação soa irrelevante comparada ao que já conhecemos de sua personalidade. O filme deixa subentendido a falsidade nos diálogos de Sheridan com Davis, a partir do ponto de vista de Mark, o que nos induz a concepção de que o garoto é malfeitor e torna o conhecimento da necessidade de intervenção banal. Além disso, a narrativa conduz com pouca ênfase essa ideia, o que torna difícil a captação do público para a pergunta: o que, afinal, ele fez?

A história, ainda assim, não está perdida. E é a partir do momento que eles se instalam no hotel que o filme muda de tom. Sheridan abandona sua polidez e começa a armar seu plano para fugir do controle da dupla. Utiliza-se das drogas que Mark levou consigo para drogar ambos os rapazes e torná-los suscetíveis a suas intenções.
Davis, quando entra em contato com os alucinógenos, encara uma grande desorientação, e vemos enfim o conflito religioso dentro do personagem: ele teme a Deus, mas está insatisfeito com tanta adversidade na sua vida.
Do outro lado, Mark, que está cuidando de Sheridan, é induzido pelo garoto a contratar uma prostituta. Nesse desenrolar, inicia-se uma sequência de acontecimentos inacreditáveis. As ações tomadas pelo jovem e as consequências que elas causam tanto na vida da dupla quanto na da garota contratada, e o inesperado que ali reside, é onde mora a comédia do filme. A risada do espectador surge pelo inesperado. É exatamente assim que a comicidade se apresenta em Idiotas.

Além do recurso citado, o filme também traz a excentricidade dos personagens para compor o humor, bem como a relação entre eles, que configura o elemento central da obra. O inesperado é, muita das vezes, acompanhado por uma interjeição de repulsa por quem assiste. O longa constantemente humilha os personagens de diversas formas, seja por alguma ação da própria pessoa ou por humor escatológico. Não é propriamente nojento, pois as cenas são bem rápidas, mas definitivamente tem o poder de causar desconforto.
Como a trama possui múltiplos núcleos de tensão, diferentes momentos podem ser entendidos como o clímax. Esse dinamismo nos últimos dois terços do filme é o que faz o espectador se ajeitar na cadeira e prestar atenção para não deixar escapar nenhum detalhe. Idiotas também varia bastante os personagens que apresenta: tirando o trio protagonista, nenhum personagem se repete nos períodos tensos. Apesar da premissa dos conflitos ser a mesma, a abordagem que o longa traz para cada uma é bem diferente e a reação dos personagens diante dos acontecimentos também muda.

A ligação entre Davis e Mark, que antes era conturbada, passa a ser uma parceria respeitosa e os pedaços de cada um tornam-se mesclados. O homem religioso ganha agressividade e o homem desrespeitoso passa a acatar algumas ordens, e o diretor faz questão de mostrar isso visualmente.
No começo, a dupla tem uma briga sobre colocar ou não o cinto de segurança. Davis precisa insistir muito para que Mark respeite as ordens de trânsito. No decorrer do filme, essa barreira cai cada vez mais, até o momento em que a própria consciência o lembra de seguir as normas e o movimento é feito involuntariamente.
Apesar de toda a comédia e cenas chocantes, Macon Blair conversa sobre um tema muito mais importante por baixo de todo o filme. O diretor utiliza-se do fútil para mostrar o quanto a impunidade é presente na sociedade. O longa se desenrola centrado em Sheridan, adolescente rico que sente que nunca vai precisar se responsabilizar pelos seus crimes cometidos, apenas porque a família tem dinheiro.
O tema não é uma surpresa, em Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (I Don’t Feel at Home in This World Anymore, 2017) e O Vingador Tóxico (The Toxic Avenger, 2023), Blair trabalha o mesmo conceito: sujeitos simples que são colocados diante de injustiças e decidem fazer o certo por conta própria. Assim como nas outras tramas, Idiotas pode ser entendido como uma metáfora para a tentativa de buscar o correto em meio a falhas de condutas.

Idiotas já está em cartas nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem da capa: Divulgação/IMDB
