Jornalismo Júnior

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Cinema, moda e vício: o trio que constituiu o Heroin Chic

De Kate Moss ao Ozempic, a indústria segue corroborando um padrão de beleza construído sobre o abuso de substâncias e distúrbios alimentares
Por Gabrielle Pinter (gabriellepinter@usp.br)  

Pele pálida, olheiras profundas, corpo magro e um cigarro na mão. Essa combinação de traços marcou os anos 90 sob o nome de Heroin Chic, uma estética que, mesmo tendo nascido nas passarelas e nos editoriais de moda, encontrou no cinema um dos seus principais canais de disseminação. Filmes como Kids (1995), Trainspotting (1996) e Diário de um Adolescente (The Basketball Diaries, 1995) não criaram esse padrão de beleza, mas é inegável que ajudaram a propagá-lo.

“O cinema sustenta a moda, a moda sustenta o cinema, é uma relação simbiótica” 

– João Biondi, crítico cultural

Origem de um nome 

O estilo Heroin Chic começou a circular no início dos anos 1990, associado a modelos como Kate Moss, Jaime King e Jodie Kidd, corpos magros, andróginos, com sinais visíveis de abuso de drogas, numa postura que contrastava com o padrão dos anos 1980, personificado por nomes como Cindy Crawford. Enquanto os anos 80 valorizavam curvas, bronzeado e vitalidade, o novo padrão dos anos 90 inverteu essa lógica, tratando a fragilidade e a palidez como sinônimos de sofisticação.  

Parte dos estudiosos, sobretudo da sociologia da moda e dos estudos de mídia, apontam a norte-americana Gia Carangi como a origem do visual ligado à magreza e ao uso de drogas nos anos 1970. Para essa área de pesquisa, o caso de Gia se tornou relevante porque antecipa um padrão que a indústria repetiria décadas depois: transformar sinais de sofrimento físico e emocional em linguagem visual desejável.

Considerada por muitos a primeira supermodelo da história, ela se destacou por fugir do padrão loiro que dominava a moda até então. Gia consumia cocaína nas boates de Nova York e depois desenvolveu dependência de heroína, deixando marcas de agulha em seus ensaios fotográficos, um registro que pesquisadores citam como um dos primeiros casos em que a estética do vício circulou abertamente em campanhas publicitárias.

Em 1998, ano em que o movimento estético já enfrentava certo repúdio público, sua trajetória chegou às telas em Gia, cinebiografia estrelada por Angelina Jolie, que retrata a ascensão e queda da modelo. A narrativa alterna cenas de ensaios fotográficos com depoimentos de pessoas próximas à modelo, construindo um retrato que expõe o lado sombrio da indústria da moda.

Diferente da fama posterior de “estética glamourizada” que o Heroin Chic carregaria no cinema de ficção, Gia foi recebido pela crítica como um retrato sóbrio, e não celebratório, da modelo. A narrativa se apoiava em depoimentos de familiares e colegas de trabalho, além do diário pessoal de Carangi, o que reforçava o tom documental e afastava o filme da estetização do vício. 

Gia morreu em 1986, aos 26 anos, de complicações da AIDS. A versão mais difundida é que ela contraiu o vírus do HIV por meio de uma agulha compartilhada, mas essa causa nunca foi totalmente confirmada. Alguns relatos apontam que, em fases de maior vulnerabilidade financeira, para sustentar o vício, ela recorreu à prostituição, o que abre outra possível via de contágio.

A produção rendeu a Jolie seu primeiro Globo de Ouro e foi decisivo para lançá-la como estrela de Hollywood
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Após o papel de Gia Carangi, a própria Angelina Jolie passou a ser vista como símbolo daquela estética, sua magreza, os olhos marcados e o ar de fragilidade confundiam-se com a imagem que o Heroin Chic havia consagrado. Não à toa, a atriz seguiu trabalhando em outros papéis que flertavam com esse mesmo universo.

Anos depois, Jolie relacionaria essa fase da carreira à própria experiência pessoal. Em entrevistas posteriores, a atriz relatou ter enfrentado vício em heroína e outras drogas durante a juventude, além de problemas alimentares. A fala reposiciona sua imagem daquele período: menos como ícone do Heroin Chic e mais como reflexo da pressão que a estética ajudava a esconder. 

Baseado no livro autobiográfico de Susanna Kaysen, Garota, Interrompida (Girl, Interrupted, 1999) acompanha a internação da protagonista, vivida por Winona Ryder, em um hospital psiquiátrico dos anos 60, após ser diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline. É lá que ela conhece Lisa Rowe, personagem de Angelina Jolie, uma paciente sociopata que desafia a autoridade médica e arrasta as colegas para fora dos limites da instituição.

Entre as demais pacientes está Daisy, vivida por Brittany Murphy, cujo transtorno alimentar reforça, dentro da própria trama, a mesma obsessão pelo corpo que a estética do período empurrava para fora das telas. Lançado em 1999, o filme carrega os traços visuais daquele momento, mesmo sem ser sobre moda.

Jolie, no papel de Lisa, exibe um corpo magro que dialoga diretamente com o imaginário construído por it girls da época. Ao mesmo tempo que bebe da fonte do Heroin Chic, a trama é revolucionária no tom em que aborda com detalhes a complexidade da saúde mental, desmistificando o estereótipo da “loucura feminina”. 

Mas foi a modelo Kate Moss que se tornou o rosto símbolo de todo período: imagens sem produção aparente, que contrastavam com o padrão bem posicionado das supermodelos da época. Esse contraste rendeu a Moss o apelido de “anti-supermodelo”. Quadris estreitos, traços andróginos e uma pose desleixada, quase entediada, tornaram-se sua marca registrada. A modelo conquistou muita popularidade e estampou campanhas de marcas relevantes, como a Calvin Klein

Descoberta aos 14 anos num aeroporto de Nova York, Moss soma hoje mais de 300 capas de revista ao longo da carreira 
[Imagem: Reprodução/Corinne Day/
Wikimedia Commons]

O anúncio do perfume Obsession, fotografado por Mario Sorrenti, mostrava Moss, na época com 17 anos, nua e com o olhar distante. Essa imagem gerou muita repercussão, chocando a audiência por sua magreza exagerada e hipersexualização precoce.  Décadas depois, em depoimento ao documentário In Vogue: anos 90 ( In Vogue: The 90s, 2024), Kate relatou que pais de família chegavam a abordá-la na rua para acusá-la de incentivar transtornos alimentares. 

Kate Moss também não escapou do vício que a estética simbolizava. Em 2005, o tabloide britânico Daily Mirror publicou fotos que mostravam a modelo, então com 31 anos, aparentemente consumindo cocaína em um estúdio de gravação. O caso, apelidado pela imprensa de “Cocaine Kate“, fez com que marcas como Chanel, H&M e Burberry cancelassem contratos com a modelo, que chegou a se internar em uma clínica de reabilitação. 

O início do Heroin Chic nos cinemas 

Segundo dados da agência antidrogas estadunidense (DEA), a pureza média da droga vendida no varejo saltou de cerca de 10% em 1981 para algo perto de 40% em 1999, enquanto o preço por grama caiu de forma acentuada. Essa combinação, droga mais pura e mais barata, tornou possível inalar ou fumar a heroína em vez de injetá-la.

Foi nesse contexto que o cinema passou a tratar um “novo” perfil de usuário. Uma geração de filmes elegeu personagens jovens e brancos, mais escolarizados e privilegiados, como protagonistas do vício, rompendo com os estereótipos raciais e marginais que dominavam o cinema sobre drogas em décadas anteriores. 

Enquanto o cinema do Heroin Chic tratava o vício como tragédia estilizada, filmes sobre o crack e outras drogas associadas a comunidades negras e periféricas seguiam uma gramática visual bem diferente. Nova Jaque (New Jack City, 1991), de Mario Van Peebles, e Menace II Society (1993) retratavam o tráfico e o consumo em bairros negros dos Estados Unidos através da lente do crime organizado e da violência urbana, gêneros associados a punição e degradação, não a glamour.

A imprensa da época reforçava essa distinção. A cobertura da chamada “epidemia de crack” nos anos 1980 disseminou termos como “bebês do crack” e retratou usuários negros e latinos majoritariamente como criminosos, enquanto o “novo” perfil branco e privilegiado dos anos 90 era descrito por trás da lente da fragilidade, do sofrimento pessoal e, eventualmente, da redenção.

Mas esse perfil não era totalmente novo. Em reportagem publicada no Salon em 2014, a jornalista Maia Szalavitz argumenta que o consumo de heroína por brancos de classe média e alta nunca foi de fato uma novidade, listando referências que atravessam décadas, do romance literário Junkie (Ace Books, 1953), de William S. Burroughs, ao vício declarado de Kurt Cobain e à própria estética Heroin Chic dos anos 90.

Segundo ela, o que a mídia chamava de “novo rosto da heroína” era, na verdade, uma antiga separação racial: usuários brancos eram tratados como vítimas de um problema de saúde, enquanto usuários negros e latinos seguiam sendo enquadrados como criminosos. O que mudou não foi o perfil do usuário, mas a forma como a imprensa e o cinema escolheram expor esse perfil.

Ao tratar jovens ricos e brancos como protagonistas de um vício glamourizado, a indústria cinematográfica da década de 1990 escancarou o racismo estrutural por trás dessa representação. O mesmo comportamento que, em corpos negros e pobres, era tratado como criminalidade e marginalidade, em corpos brancos e privilegiados passou a ser lido como estética, liberdade e rebeldia. 

Essa escolha ajudou a construir e popularizar a ideia de novidade em torno do consumo de  drogas. Diferente dos editoriais de moda e das passarelas, restritos a um público mais elitizado e ligado à indústria fashion, o cinema alcançava salas de exibição em massa, e isso pode ter contribuído para ampliar o alcance das substâncias entre o público. 

É preciso, no entanto, separar o que é indústria cultural do que é a arte do cinema. Um roteiro pode nascer com intenção de denúncia, mas depende do mercado para chegar aos espectadores, e é nessa passagem que a mensagem original corre o risco de ser modificada. 

Para o  crítico cultural João Biondi, essa confusão entre arte e produto é o centro do problema. “Enquanto os artistas produzem uma crítica e essa atinge seu público de uma maneira bem feita, o mercado olha e fala: isso é muito consumível. Mas o mercado não tem esse cuidado artístico de construir essa mensagem crítica, ele quer construir um produto”, alega. “Esse produto é vendido, e se ele é vendido, ele é comprado, e às vezes ele é comprado e mal interpretado. É nessa má interpretação do produto que a crítica vira romantização.”  

“Não é o cinema o responsável por romantizar isso, são as produtoras que vão transformar a crítica em produto” 

– João Biondi 

Ewan McGregor revelou que cogitou injetar heroína para interpretar melhor Renton em Trainspotting 
[Imagem: Reprodução/IMDb]

A morte que expôs a estética

O momento em que essa estética atinge seu ápice, e também o início do seu fim, está diretamente ligado a uma tragédia dentro do próprio universo que a consolidou. Davide Sorrenti, fotógrafo da indústria da moda, foi um dos nomes centrais do visual Heroin Chic. Em seus ensaios, fotografava modelos com sinais de consumo recente de drogas: cansadas, desalinhadas e visivelmente doentes. Em 1997, aos 20 anos, Sorrenti morreu em decorrência do uso de heroína.

Foi durante o velório do fotógrafo que Ingrid Sischy, editora da revista Interview e uma das vozes mais influentes da imprensa de moda da época, teria cunhado o próprio termo Heroin Chic. Sischy já havia publicado fotos de Sorrenti em sua revista e acompanhava de perto o universo em que ele circulava, o que deu peso à sua fala. Num comentário que criticava a estética em vez de celebrá-la, ela apontou que aquilo não era chique, era heroína, e que precisava parar. 

A mãe do fotógrafo, Francesca Sorrenti, passou a liderar uma campanha pública contra a romantização das drogas na moda, numa repercussão que chegou até a Casa Branca. O então presidente americano Bill Clinton chegou a declarar para a All Politics: “Não é criativo. É destrutivo. Não é belo. É feio. E não se trata de arte. Trata-se de vida e morte. E glorificar a morte não é bom para nenhuma sociedade ”.

A morte de Sorrenti é hoje apontada como o evento que expôs a estética e a realidade que ela representava.Sob pressão pública e o risco de boicotes, marcas como a própria Calvin Klein passaram a investir em campanhas com corpos mais atléticos e saudáveis. Isso abrindo caminho para a substituição do Heroin Chic por um padrão considerado mais saudável, simbolizado pela brasileira Gisele Bündchen no fim da década.

A ferramenta de perpetuação

Enquanto a moda vendia o visual em imagens estáticas, foi o cinema que deu a ele movimento, voz e enredo, transformando o vício em narrativas que o espectador podia acompanhar de dentro, identificando-se com personagens que tinham nome, história e motivações. 

A Motion Picture Association (MPAA) deu a Kids
o NC-17:  nota que praticamente barra um filme
das salas comerciais dos EUA
[Imagem: Reprodução/IMDb]

A pesquisa “Glamorization or Condemnation: The Accuracy of Hollywood’s Portrayal of Heroin Use in Motion Pictures in the 1990’s”, de Rachel Tonkovich, realizada na Universidade de Harvard, analisou como o cinema dos anos 1990 retratava os usuários de heroína. A pesquisa mostra que parte dos filmes do período escolhia jovens de camadas privilegiadas, muitas vezes ainda adolescentes, para compor o elenco, moldando uma percepção da dependência mais próxima, mais desejável e mais banal para o público consumidor que, em sua maioria, também eram adolescentes. 

Kids, de Larry Clark, acompanha um grupo de adolescentes de Nova York, entre sexo desprotegido e consumo recreativo de drogas, um retrato da juventude urbana dos anos 90. A câmera quase documental de Clark, somada aos corpos magros e a dependência dos personagens, dialoga diretamente com os códigos visuais do Heroin Chic, ainda que a intenção declarada do diretor fosse denunciar o submundo adolescente e não celebrá-lo. 

É justamente essa ambiguidade, entre denúncia e estetização, que torna o filme um dos mais citados quando se discute a fronteira entre retratar e romantizar. Ao filmar a autodestruição adolescente com tanta glamourização estética, Kids corre o risco de transformar aquilo que quer denunciar em algo visualmente sedutor.

O elenco, recrutado do próprio circuito de skate de Nova York, viveu essa ambiguidade na pele depois das câmeras desligadas. Harold Hunter, que interpretou a si mesmo no filme, morreu em 2006 de um ataque cardíaco causado por overdose de cocaína, após anos sem conseguir emprego como ator. Justin Pierce, o Casper, tirou a própria vida em 2000, aos 25 anos, depois de enfrentar problemas com álcool e drogas. Kids não mudou a realidade que retratava, e para parte do elenco, a ficção continuou sendo a própria vida. 

Larry Clark, já era fotógrafo antes de Kids. O filme nasceu da mesma linguagem visual que ele usava em seus ensaios fotográficos  [Imagem: Reprodução/IMDb]

Já em Trainspotting, de Danny Boyle,  um grupo de jovens escoceses é retratado entre a euforia do uso e a devastação da dependência. O filme se tornou um marco por sua estética energética, seus cortes rápidos e sua trilha sonora, mas também por conseguir narrar o vício com humor e um estilo visual atraente mesmo quando as consequências mostradas em tela eram brutais.

O filme acompanha Renton e seu grupo de amigos usuários de heroína em Edimburgo nos anos 90. Entre tentativas de largar o vício, recaídas e pequenos golpes para sustentar o hábito, a cena mais citada é a do “banheiro mais sujo da Escócia” Nela, o protagonista  mergulha de cabeça num vaso sanitário para recuperar dois supositórios de ópio perdidos. 

A recepção do filme foi marcada por polêmicas em que setores da crítica o acusaram de fantasiar o uso de drogas justamente por essa contradição entre forma e conteúdo, debate que ainda ecoa nas discussões sobre representação de vício no audiovisual.

Em Diário de um Adolescente, Leonardo DiCaprio viveu Jim Carroll, jovem promessa do basquete que mergulha na dependência de heroína após ser introduzido às drogas pelos próprios colegas de time. Diferente de Trainspotting, o filme investe menos em estilização e mais na degradação progressiva do protagonista, que perde o time, os amigos e a própria imagem no espelho. Uma das cenas mais marcantes da trama, conta com Carroll que, em abstinência, chega a roubar a própria casa da avó doente para sustentar o vício. 

Ainda assim, DiCaprio, magro, pálido e visivelmente debilitado, reforça de forma quase didática o imaginário do Heroin Chic. “O filme vira produto e o personagem passa a ser aplaudido”, resume João Biondi.

Leonardo DiCaprio tinha 20 anos quando gravou o filme e emagreceu propositalmente para o papel 
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Para João Biondi, no entanto, essa leitura merece uma ressalva importante: “É perigoso dizer que o cinema ajuda a popularizar esse problema, porque se culpa a forma, e não o responsável. Não é o cinema o responsável por romantizar isso, são as produtoras que vão transformar a crítica em produto”. Ou seja: o que sobreviveu além dos anos 90 não foi necessariamente a intenção autoral por trás desses filmes, mas o modo como a indústria absorveu, reproduziu e vendeu a imagem que restou dela.

Ao mesmo tempo que o consumo de drogas, a incidência de bulimia também crescia  de forma acentuada entre os jovens no começo da década.Os dados confirmam esse cenário. Um estudo do British Journal of Psychiatry, conduzido por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria de Londres e publicado em 2005, mostra que a incidência de bulimia nervosa na atenção primária britânica triplicou entre 1988 e 1993 e continuou subindo até atingir o pico em 1996, caindo 38,9% nos anos seguintes. 

Entre garotas de 10 a 19 anos, a faixa etária mais afetada, a incidência de bulimia chegou a quase 36 casos a cada 100 mil habitantes no ano 2000, praticamente empatada com a taxa de anorexia na mesma faixa etária. Isso sugere que a pressão por corpos magros já existia, independentemente do cinema, mas ajudam a entender por que uma estética que romantizava a fragilidade encontrou um público predisposto a recebê-la.

O elenco de Kids era formado por adolescentes sem experiência de atuação, o que reforçou o realismo
em torno da obra
[Imagem: Reprodução/IMDb] 

Padrões que se modificam e ressurgem 

Décadas depois, uma discussão muito parecida com a que envolveu o Heroin chic voltou a ter palco, só que sob um nome diferente: Ozempic Chic. Na temporada de prêmios de 2026, atrizes como Demi Moore, Jenna Ortega, Ariana Grande e Emma Stone tiveram suas silhuetas visivelmente mais magras comentadas nas redes e na imprensa de moda. 

O fenômeno vêm sendo considerado por colunistas como sucessor do Heroin Chic, mas agora patrocinado por substâncias de emagrecimento rápido como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, criados originalmente para tratar a diabetes tipo 2.

Para Biondi, esses momentos revelam menos uma tendência isolada e mais um padrão social recorrente. “A magreza extrema nunca deixou de ser tendência, ela fica mais evidente em alguns momentos. Ela toma novas formas, mas sempre tem essa ordem social”, alega.

O crítico traz um panorama histórico para explicar esse ciclo. Ele cita o movimento La Garçonne dos anos 1920, e aponta a icônica Twiggy nos anos 1960, símbolo maior da magreza extrema que dominou o imaginário da moda daquela década. Na sequência, chega aos anos 1990 e ao Heroin Chic, estética que glamourizou corpos abatidos e olheiras profundas, e por fim situa o presente, os anos 2020, com o fenômeno do Ozempic Chic, em que medicamentos para emagrecimento se tornaram ferramenta de moldagem corporal. 

Dois casos da música ilustram essa pressão em décadas anteriores ao próprio Heroin chic. Karen Carpenter, baterista e vocalista do The Carpenters, morreu em 1983, aos 32 anos, de insuficiência cardíaca, complicação direta de anos de anorexia nervosa que ela enfrentava desde a adolescência. Já Cass Elliot, do The Mamas & the Papas, morreu de ataque cardíaco em 1974, mas por décadas circulou o boato de que ela teria engasgado com um sanduíche, mentira nascida da gordofobia que a perseguia por não se encaixar no padrão magro da época.

Twiggy não era seu nome verdadeiro, o apelido vem do inglês twig (graveto), associado a sua magreza
[Imagem: Reprodução/
Wikimedia Commons]

Um exemplo recente e direto de como esse cenário vai se debruçar sobre o cinema é A Substância (The Substance, 2024), estrelado por Demi Moore. O filme em tom de denúncia, tematiza a obsessão contemporânea com juventude e magreza, e a violência que o corpo feminino sofre em nome de um padrão estético inatingível. A protagonista se autodestrói física e psicologicamente na busca por um ideal de corpo jovem e magro, num paralelo quase didático com o Ozempic Chic

A Substância rendeu a Demi Moore sua primeira indicação
ao Oscar em mais de 40 anos de carreira
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Outro exemplo é O Mínimo para Viver (To the Bone, 2017), estrelado por Lily Collins. O filme acompanha uma jovem de 20 anos internada em uma clínica de recuperação para anorexia. A produção enfrentou críticas já no lançamento do trailer, que apontavam risco do filme funcionar como gatilho e romantização da doença, ao invés de alertar sobre ela, reacendendo o debate semelhante ao existente em Kids; até que ponto retratar uma autodestruição em detalhes, mesmo com intenção crítica, acaba por idealizá-la.

Esse cenário se cruza diretamente com um aumento real e documentado de transtornos alimentares entre jovens. De acordo com um levantamento apresentado na Câmara dos Deputados brasileira, uma  pesquisa feita em 16 países, aponta que um em cada cinco jovens de 6 a 18 anos apresenta algum transtorno alimentar, número que sobe para cerca de um terço entre as mulheres jovens. 

O Mínimo para Viver é baseado na própria experiência de Marti Noxon, diretora e roteirista, com transtornos alimentares
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Nas redes, esse fenômeno ganhou um nome específico nos últimos anos: SkinnyTok, um nicho de conteúdo que promove jejum extremo e dietas restritivas. “Estamos indo com a narrativa do wellnes mas com a imagem do Heroin Chic. É uma mulher que se cuida, mas ela se cuida para ficar muito magra”, observa João Biondi.  

O que muda não é necessariamente a pressão sobre o corpo, mas a forma como ela se apresenta. Se nos anos 90 o imaginário da magreza e do vício circulava por personagens como os de Kids e Trainspotting, hoje ele pode aparecer associado ao discurso do wellness, à medicalização do emagrecimento e às redes sociais. Atrizes e influenciadoras deixam de ser apenas parte da indústria da moda ou do audiovisual e passam a ocupar também o lugar de referências visuais para uma geração que acompanha seus corpos diariamente pelas telas.

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