Por Alícia Simões (aliciasimoes@usp.br)
O conceito de juventude é uma construção social e histórica bastante recente. Nas sociedades ocidentais, essa noção passou a ser desenvolvida a partir do século XIX e se difundiu de forma mais intensa décadas depois, com a ocorrência da Primeira Guerra Mundial, na qual os jovens foram colocados à frente do campo de batalha.
O termo “adolescente” foi introduzido pelo psiquiatra estadunidense Granville Stanley Hall, em 1898. No artigo “Tempos de juventude: ontem e hoje, as representações do jovem na publicidade e no cinema”, de Cláudia Pereira, Everardo Rocha e Miguel Pereira, essa ideia é desenvolvida: “A adolescência, simplesmente, não existia, não havia uma fase de transição, mas, ao contrário, uma ruptura causada, primeiro, pela maturidade sexual, depois pela independência com relação à família, e, mais tarde, pelo casamento.”
Na prática, a noção de adolescência passou a ser usada de forma popular após a Segunda Guerra, em que, diante de tanta violência, movimentos como a contracultura e os hippies, o punk, o rock and roll e vários outros foram uma espécie de revolução que caracterizou o público jovem, visto que os adultos mais velhos não foram tão afetados e, inclusive, eram, muitas vezes, críticos a ela.
A respeito dessa fase, em que diversas questões entram em conflito ao passo que o adolescente se depara com muitas mudanças ao mesmo tempo, Rinalda Duarte, psicanalista, mestra em psicologia clínica pela PUC-SP e doutoranda pela USP explica ao Cinéfilos: “essa transição do espaço doméstico para o espaço público, mundo familiar para o mundo externo, é uma coisa muito delicada na vida do adolescente. (…) Adolescer, para a teoria lacaniana, não tem a ver com idade, não tem a ver com o tempo cronológico. ‘Adolescência’ vem do latim e é ir ‘em direção a’. Então, é sair de um lugar. Eu gosto sempre de dizer que a adolescência é uma diáspora”.
A juventude no cinema
O cinema, então, passa a ser um certo espelho dessa realidade e até mesmo um propulsor de novas tendências, como o modo de agir, de certa forma rebelde, e o estilo de se vestir, por exemplo. Para o crítico de cinema Márcio Sallem, formado pela New York Film Academy e criador da página Cinema com Crítica, “a representação da juventude no cinema, e na realidade de qualquer tema de forma geral, acompanha as transformações sociais da época específica e também o mercado audiovisual. No início do cinema, não há uma discussão sobre o jovem, senão o jovem coadjuvante, que está em transição para a vida adulta, ou o jovem já adultizado”.
Com a consolidação do cinema hollywoodiano no início do século XX, muitos dos hábitos juvenis passaram a ser inspirados nos filmes. Dessa forma, o mercado estadunidense foi um dos maiores propulsores da representação cinematográfica da juventude. “Essa transformação é conduzida pelos Estados Unidos, especialmente, que identificam nos jovens uma fatia significativa de participação nos cinemas e começam a fazer filmes que dialoguem com os jovens direta (a exemplo dos filmes de John Hughes) ou indiretamente (em blockbusters). Fazer filmes com jovens em mente para vender-lhes a experiência fílmica e pós-fílmica modifica radicalmente a relação da indústria com esse segmento da sociedade.”, completa Márcio.
Figuras como Marlon Brando — Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1951) e O Selvagem (The Wild One, 1953) — e James Dean — Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955) — foram centrais no processo de representação do jovem nos longas-metragens.

“O cinema é um reflexo do contexto histórico em que é produzido, e isso faz com que um tema adquira significados e expressões diferentes ao longo do tempo. Não é só sobre como a juventude é diferente quando comparada a minha com a de meus pais; é como a juventude é também enxergada diferentemente.”
Márcio Sallem, crítico de cinema
Assim, distintos momentos históricos e contextos locais e sociais contam histórias diferentes sobre o que é ser jovem, louco e rebelde em cada período. As obras Grease – Nos Tempos da Brilhantina (Grease, 1978), Amor Sem Fim (Endless Love, 1981) e Bicho de Sete Cabeças (2001) trazem olhares diferenciados e característicos da época retratada em cada uma delas.
Grease: uma rebeldia nostálgica e apaixonada
Lançado nos anos 1970, mas ambientado nos anos 1950, Grease foi escrito por Bronte Woodard e dirigido por Randal Kleiser, inspirado no musical homônimo de 1971, de autoria de Jim Jacobs e Warren Casey. O enredo acompanha a australiana Sandy Olsson (Olivia Newton-John), que chega ao colégio Rydell High School, na Califórnia, e tem de lidar com todos os conflitos e sentimentos da adolescência ao mesmo tempo em que precisa se adaptar a novas amizades e a dificuldade em se encaixar a um novo grupo. Também é protagonista o personagem Danny Zuko (John Travolta), líder de uma “gangue” de greasers, com fama de conquistador na escola.
Sandy e Danny desenvolvem uma paixão um pelo outro, relação que precisa conciliar a inocência e pudor da garota e a desenvoltura e interesse do rapaz. Nessa trajetória, Sandy precisa atravessar as tentativas de sabotagem de Betty Rizzo (Stockard Channing) e seu grupo das Pink Ladies.
Um dos elementos de maior destaque no longa é a trilha sonora, visto que boa parte das cenas é acompanhada de músicas, como “Summer Nights”, “Hopelessly Devoted To You” (indicada ao Oscar de Melhor Canção Original) e “You’re The One That I Want”. Muitas delas, apesar de remeterem ao estilo musical de anos anteriores, fizeram parte do repertório da geração que assistiu ao filme por terem letras e ritmos que entram facilmente na cabeça, além de terem coreografias que também costumavam ser reproduzidas.

Nessa obra cinematográfica, a rebeldia e a loucura não são reveladas de maneira intensa, já que não são os personagens mais “loucos” e rebeldes de que se tem conhecimento, mas fazem sim parte da composição. O grupo de Danny pode ser interpretado como rebelde na medida em que, ainda na adolescência, já possuem uma imagética relacionada ao cigarro, às bebidas, à corrida de carros, além de ele mesmo possuir a fama de se envolver com diversas meninas. Já Sandy se vê num impasse ao precisar lidar com os valores de sua família, um tanto quanto conservadores, e os seus interesses próprios que, apesar de serem influenciados pelos anteriores, também querem ir além. “O que fica representado é como se separa dos ideais dos pais. Que, nesse caso, fica mais representada na figura da menina, que tem que ser virgem, que tem que ser bem comportada”, explana Rinalda Duarte.
Ou seja, ela precisa passar por esse processo de rompimento familiar, o que gera fortes questionamentos a respeito da identidade. Para isso, decide não tentar transformar a realidade ao seu redor, mas sim transformar a si mesma, trocando suas roupas coloridas e meigas por roupas de couro pretas e um cabelo curto e cacheado.
O próprio final utópico do filme alude à loucura através de uma fuga fantasiosa: pessoas dançando e cantando em um parque de diversões montado na frente de um colégio enquanto um carro levanta voo e vai ao espaço. A mensagem que parece ser transmitida é que a juventude é o momento em que há espaço para que tudo possa acontecer.

Para Duarte, um dos pontos chave dessa produção são as próprias descobertas nesse processo de rompimento. “Eu acho que o Grease mostra a importância da invenção. (…) O adolescente faz uma invenção no corpo. E o André Breton, antropólogo, fala que na adolescência tudo se passa no corpo. Os rituais, as marcas. Então, tem a questão da bebida, do amor, dos cabelos, das cores, dessa transgressão que fica marcada ali”, explica.
Amor Sem Fim: juventude atravessada pelo amor tóxico
O filme de Franco Zefirelli mostra a história da juventude de algumas décadas após Grease, visto que se passa na mesma época em que foi lançado (início dos anos 1980). O roteiro foi escrito por Judith Rascoe, como uma adaptação do romance homônimo de Scott Spencer.
A história envolve o relacionamento entre Jade (Brooke Shields) e David (Martin Hewitt), dois adolescentes de 15 e 17 anos, respectivamente. Eles vivem um forte caso de amor mas são obrigados a enfrentar a dureza e oposição da família da menina, em especial do pai, Hugh Butterfield (Don Murray).
Ainda que não tenha feito um enorme sucesso de bilheteria, a trilha sonora foi um grande destaque, assim como em Grease. A canção “Endless Love” liderou a lista Billboard Hot 100 no ano de lançamento. Isso demonstra o poder das músicas em fazer parte da vida dos jovens de 1970 e 1980 a partir dos filmes — o imaginário da época era permeado por elas.
“Eu acho que tem uma coisa que atravessa todos os filmes, que é a questão do amor e das transgressões. E por que isso é atemporal? Porque isso é uma marca da adolescência. A adolescência é a descoberta do mundo fora de casa.”
Rinalda Duarte, psicanalista
Na trama, o amor se torna o motor das atitudes loucas e rebeldes dos jovens protagonistas. A loucura se revela na paixão avassaladora e romântica e, ao mesmo tempo, tóxica e autodestrutiva, pois os próprios envolvidos na relação se machucam psicologicamente e agem, algumas vezes, de uma forma que não faz bem um ao outro. A rebeldia se mostra na escolha dos dois em continuar se relacionando às escondidas, mesmo após a proibição, em uma tentativa de transgressão e rompimento com os mais velhos.

Ele se torna cada vez mais intenso na medida em que a família nega crescentemente a proximidade entre a garota e o rapaz. É uma espécie de “amor impossível”, como nomeia Márcio Sallem: “Amor sem Fim tem maior relação entre o amor impossível — ou ao menos contrário à autoridade patriarcal — e a tragédia”.
David, na tentativa de conseguir maior atenção dos pais de Jade, comete um ato de loucura ao colocar fogo na casa deles para, depois, se sair como herói ao livrá-los do perigo do fogo. No entanto, a ideia não funciona, o incêndio se alastra e a situação se torna ainda mais embaraçosa para ele.
A consequência é bastante grave: David é internado em um hospital psiquiátrico por dois anos, ou seja, a “loucura” juvenil é respondida através de um local real e punitivo. O que se compreende é que, na realidade, não há um entendimento completo dos efeitos de todas as ações. “A ideia dele não era queimar a casa, porque inclusive isso na adolescência não está posto ainda, uma noção de consequência. É uma saída da infância onde as barreiras ainda estão um tanto borradas, então ele põe isso em cena”, comenta Rinalda Duarte.
Mesmo nessas circunstâncias, o amor obsessivo continua presente nos dois durante todo esse tempo. Duarte complementa a discussão dizendo que “a ideia dele nunca ter conseguido ouvir uma palavra dela, uma palavra organizadora, fez com que aquilo que já era frágil nele, ficasse numa obsessão”.
Bicho de Sete Cabeças: a loucura como denúncia social
Estreado em 2001, o filme brasileiro possui direção de Laís Bodanzky e roteiro de Luiz Bolognesi. É inspirado no livro “Canto dos Malditos”, que conta a história autobiográfica de Austregésilo Carrano Bueno e traz uma outra dimensão do retrato ao abordar as temáticas da juventude, da loucura e da rebeldia dentro da realidade brasileira.
Assim como os outros longas, este possui uma forte trilha sonora, com canções de Arnaldo Antunes, André Abujamra e Geraldo Azevedo. As canções, como “Fora de Si” e “Bicho de Sete Cabeças II”, possuem um marcante teor de denúncia e crítica social e, dessa forma, contribuem para a construção de sentido da obra cinematográfica.
A obra narra a trajetória de Neto (Rodrigo Santoro), um jovem que desobedece todas as ordens dos pais ao se envolver com um grupo de amigos que bebe e usa drogas. Em uma era cada vez mais determinada pelo controle social, o personagem é internado à força em um hospital psiquiátrico quando seu pai, Wilson (Othon Bastos), encontra um cigarro de maconha nos seus pertences. Mais uma vez, o recurso de utilizar esse tipo de internação como a solução dos problemas se sobrepõe ao de olhar para o problema e cuidá-lo de forma individual. “Por não ser compreendido pelos pais ou pela sociedade, é internado num hospital em uma metáfora de uma sociedade que prefere silenciar e marginalizar o que não entende”, comenta Sallem.

Nesse hospital, Neto passa por situações abusivas, em que ele é submetido a circunstâncias que o tornam mais adoecido do que ele estava antes de entrar lá. Ao chegar, ninguém faz nenhum tipo de teste ou pergunta para verificar se o rapaz tem mesmo uma relação de dependência com algum tipo de droga — ele apenas é “jogado” no quarto seguindo as ordens de Wilson.
Com o passar do tempo, Neto tenta cada vez mais sinalizar seus pais de que aquele lugar não está fazendo bem a ele, mas na medida em que o dono do hospital psiquiátrico faz questão de manter o máximo de pacientes no local para ganhar mais subsídios do governo, o convencimento de que aquele lugar ultrapassa a sanidade mental se torna mais complexo.
Dessa forma, em Bicho de Sete Cabeças, a rebeldia atinge o ápice entre os três filmes analisados. O garoto se vê deslumbrado por um novo universo em que pode infringir todos os costumes com os quais foi criado, escapar de uma realidade possivelmente opressora e buscar uma nova identidade. Não que necessariamente ele estivesse fazendo um uso desenfreado de drogas, mas um único cigarro foi suficiente para o pai associar o estado do filho à loucura. É uma espécie de violência institucional em um sistema que patologiza qualquer coisa que se julgue fora da regra padrão.
“Quando ele reage com agressividade, quando ele luta, tinha a pulsão de vida ali, quando ele vai desistindo é que é preocupante. O adolescente rebelde não é o que a gente tem que se preocupar, porque ele está ali para alguma coisa, para a gente ouvir. Mas o adolescente quieto, ele é muito preocupante. Então, eu acho que o Bicho de Sete Cabeças é um filme incontornável porque ele mostra o fracasso do nosso sistema de saúde psiquiátrico, o sadismo do sistema e como definitivamente ele adoece e não ele cura”, coloca Duarte.
O que atravessa as décadas: pontos de contato entre as diferentes juventudes
Em todos os filmes da tríade selecionada, a juventude é um período de conflito e questionamento das figuras de autoridade (família, escola, Estado). Isso enfatiza o fato de que a transição entre a infância e a vida adulta é um momento de desafios, dúvidas, questões existenciais e vários outros fatores que colocam em cheque a aceitação das normas vigentes. Sallem explica que “embora sejam filmes de contextos históricos e culturais muito diferentes, os filmes tratam a juventude como o período da vida em que o indivíduo em formação entra em choque com as estruturas de poder que tentam definir quem ele deve ser.”
É evidente, tanto em Grease, quanto em Amor Sem Fim, como em Bicho de Sete Cabeças que o que foge do controle dos mais velhos é essa loucura “revolucionária” que aparece junto da rebeldia. Sandy muda completamente seu estilo de vida, contrariando os costumes da família. Jade faz de tudo para continuar vendo o namorado mesmo após a proibição do pai. E Neto sai escondido com os amigos para beber e fumar, deixando o pai enfurecido ao descobrir.
A trilha sonora, como destacado, é outro ponto comum. Ela reitera o valor e a importância da música para a juventude. Em Grease, ela é um dos centros da obra, sendo impossível dissociá-lo das canções. Em Amor Sem Fim, a balada tema embala todo o romance. Em Bicho de Sete Cabeças, as músicas têm um tom de denúncia que reforça o caráter rebelde da adolescência.
Uma outra similaridade diz respeito ao afeto como grande agente causador das decisões. Sandy, apesar de não abrir mão de suas particularidades, quer ser aceita por Danny; Jade e David se baseiam na relação amorosa para tomar atitudes, algumas vezes, imprudentes; e Neto busca aceitação e pertencimento no grupo de amigos. Ou seja, a juventude passa pela ideia de necessidade de ser reconhecido, aceito e amado.
Grease e Amor Sem Fim possuem pontos de contato também por representarem uma sociedade parecida. A ideia da sociedade estadunidense permeada pelo american way of life e até a própria forma como o amor é construído, de forma idílica e romantizada, representa um pouco da forma de pensar similar daquelas pessoas naquele momento.
Outra relação possível é entre Amor Sem Fim e Bicho de Sete Cabeças no que diz respeito à loucura, pois em ambos os filmes os protagonistas são internados em hospitais psiquiátricos, o que suscita o questionamento a respeito das formas de tratamento das questões mentais dos adolescentes e reforça a luta antimanicomial.
Esse discurso político está mais presente no último longa, levando em conta que quase toda a história se passa dentro do hospital e que a luta antimanicomial no Brasil ganhou muita força nas décadas anteriores ao filme, com o marco definitivo da reforma psiquiátrica em 2001.
“No filme, a diretora disseca essas instituições sociais, mostrando o absurdo do confinamento, o preconceito em relação ao interno, o autoritarismo dos profissionais. A família classe média baixa é analisada na contradição de sentimentos que privilegiam o status-quo, a autoridade da figura paterna, as convenções e o preconceito, menosprezando o diálogo entre gerações, o amor e a sensibilidade”, comenta a professora Mary Mendonça no artigo “Bicho de Sete Cabeças: um grito de alerta”, publicado pela Revista USP.
*A capa desta matéria usa uma imagem editada do Wikimedia Commons por Rapidrefelx.









