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Halloween 33 | Você se lembra do ‘Monstober’?

Disney Channel realizava produções especiais de Halloween com filmes, episódios especiais, e vinhetas inéditas
Logotipo promocional do especial Monstober do Disney Channel com teias de aranha e aranhas roxas.

Por Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br ) e Lívia Falbo (liviafalbo@usp.br)

Nos anos 2000 — também conhecidos como tempos de ouro do Disney Channel —, ao ligar o canal nesta época do ano, o telespectador se depararia com uma face diferente do canal. O Monstober ou Abracadubro, na versão em português, era um especial de halloween desenvolvido pelo grupo Disney durante o mês de Outubro. 

A primeira exibição do especial ocorreu em Outubro de 2005 e consolidou uma rotina na vida de quem consumia os conteúdos do canal. O Disney Channel, no entanto, utiliza da temática desde 1997 para promover lançamentos e fazer filmes originais.

O Terror na versão da Disney

Com uma das identidades mais emblemáticas da história dos canais infanto juvenis, a estética do halloween também se destacava. Ao adaptar o estilo típico da Disney para a faixa etária e para a data comemorativa, um ambiente inédito que combinava o lúdico com o assustador foi criado.

O grande atrativo da programação estava na maratona de episódios temáticos e nos crossovers das séries mais populares do canal, como Zack & Cody: Gêmeos em Ação (2005 – 2008), Hannah Montana (2006 – 2011), Os Feiticeiros de Waverly Place (2007 – 2012) e Austin & Ally (2011 – 2016). No horário nobre, os filmes originais — ou Disney Channel Original Movies (DCOMs) — assumiam o destaque: produções como As Gêmeas Bruxas (Twitches, 2005) e o clássico Abracadabra (Hocus Pocus, 1993).

Para Léo Francisco, jornalista cultural focado no universo Disney, a programação ajudou na consolidação e longevidade da temática do Halloween para as crianças e  jovens. Ele cita, em entrevista à Jornalismo Júnior, como exemplo o filme Abracadabra que passou exaustivamente na grade e virou um fenômeno que foi relembrado recentemente. O sucesso e a nostalgia motivaram o lançamento da sequência Abracadabra 2 (Hocus Pocus 2, 2022), e segue a ideia da retomada de uma obra antiga para alcançar tanto antigos fãs quanto novos espectadores.

Filmes pautados em seres sobrenaturais dentro dos originais do Disney Channel se tornaram cada vez mais comuns. Com a estreia e o fenômeno da série de filmes Descendentes, o canal renovou essa linguagem ao explorar o fascínio do público pelos vilões e outras personagens associados ao terror, como a franquia de filmes Zombies (2018).

‘Monstober’ como reflexo do Halloween nos Estados Unidos 

A programação especial de Dia das Bruxas da Disney Channel pode ser associada à importância cultural que essa comemoração possui para os norte-americanos. “O Disney Channel não deixaria de criar especiais para o Halloween, que é uma data muito importante nos Estados Unidos, na qual o americano consome muitos produtos”, afirma Léo Francisco.

Elenco da série Jessie do Disney Channel fantasiado para o episódio especial de Halloween.
A série Jessie (2011-2015), original do Disney Channel, conta com três episódios especiais de Halloween recheados de homenagens ao cinema de horror — variando desde referências ao clássico O Iluminado (1980) até lendas como o conto de Abigail [Imagem: Reprodução/X/@DisneyBrandTVPR]

Celebrado em 31 de outubro, o Halloween é uma das festas mais populares do país, marcada por tradições como uso de fantasias, decoração de casas, distribuição de doces e realização de festas temáticas. Francisco explica que as produções organizadas pelo canal faziam com que o público entrasse em clima de comemoração. Ao longo do tempo, a data se consolidou como uma importante manifestação do entretenimento norte-americano.  

No Brasil, o interesse pelo Halloween cresce cada vez mais ao longo dos anos e tem grande influência do conteúdo consumido nas televisões durante os anos 1990 e 2000. Uma pesquisa da Globo, realizada em agosto de 2025, apontou que, entre as classes A e B, 50% das pessoas pretendiam comemorar a data naquele ano com maior adesão entre jovens e adultos de 18 a 34 anos. 

Os números indicam que, embora o Halloween não tenha no Brasil a mesma tradição cultural que possui nos Estados Unidos, a comemoração abre espaço para novas formas de consumo. No campo do entretenimento, de acordo com a pesquisa mais recente da Globo, mesmo os brasileiros que afirmaram não comemorar o Halloween gostam de consumir filmes, séries e outros conteúdos temáticos durante o período. 

Programação para todas as idades

Apesar do Disney Channel ser comumente associada a programas infantis, os lançamentos do Monstober não tinham um enfoque único nas crianças. “A programação funcionava desde a faixa matinal, onde, naquela época, nós tínhamos a faixa do Playhouse Disney – que depois virou Disney Júnior –, quanto na faixa dos adultos e adolescentes”, enfatiza Francisco. O jornalista indica que obras como Mansão Mal Assombrada (The Haunted Mansion, 2003) e os filmes da saga de Piratas do Caribe eram direcionados aos telespectadores mais velhos.

Essa diversidade de faixas etárias continua presente até os dias atuais. Embora o Disney Channel tenha encerrado suas transmissões no Brasil em 2025, o Disney+ mantém o acesso a um amplo catálogo de produções da empresa no país, adaptando a forma como o público consome esse conteúdo. Por meio da plataforma de streaming, crianças, adolescentes e adultos podem encontrar títulos que atendem a diferentes gostos e interesses, desde animações e comédias familiares até filmes de super-heróis, ficção científica e aventuras.

O Halloween como oportunidade de negócio

Entrada iluminada do parque Disney California Adventure decorada para o Halloween com abóboras e silhueta assustadora.
Entrada do Disney California Adventure, decorada para o Halloween, durante este período existem ingressos reservados somente para parte da noite nos parques, onde ocorrem as principais atrações especiais [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons /Mignon Pelletier]

O apelo afetivo do Monstober não excluía sua dimensão comercial. Ao contrário, a organização da programação em torno de uma data comemorativa permitia que a Disney reunisse diferentes produtos e conteúdos em uma única campanha. 

Francisco explica que o aproveitamento de datas sazonais não era exclusividade da Disney. Segundo ele, emissoras de televisão recorriam a especiais de Natal, Halloween, férias escolares e outras ocasiões para oferecer novidades e renovar o interesse do público. A lógica era especialmente relevante em um cenário no qual canais infantojuvenis disputavam a audiência com programações semelhantes.

“Era sempre um algo a mais”, resume. Para ele, os especiais não tinham o objetivo de criar um senso coletivo, mas ajudavam a chamar a atenção para o canal e essa combinação ampliava as possibilidades de divulgação. Uma programação temática podia promover filmes, valorizar personagens já conhecidos e apresentar novidades aos espectadores que talvez não acompanhassem todas as produções regularmente. O Halloween servia como ponto de encontro entre diferentes conteúdos da empresa.

O desempenho de Girl vs. Monster  (Feiticeira vs. Monstros, 2012) oferece um exemplo concreto dessa articulação. Além dos 4,9 milhões de telespectadores registrados na estreia norte-americana, o filme serviu como uma alavanca estratégica para o lançamento da série Dog With a Blog (2012 – 2015). Segundo dados divulgados à época, a nova comédia manteve 93% da audiência do filme entre crianças de 2 a 11 anos e 95% na faixa de 6 a 11 anos.

A estratégia ultrapassa as telas e o Halloween torna-se também fonte de grande renda nos parques da Disney. De acordo com estimativas de Len Testa, presidente do site de planejamento TouringPlans trazidas pelo The Independent, a festa especial de Halloween da Disney na Flórida chega a gerar cerca de US$ 3,3 milhões por noite.

As motivações para a grande procura nas atrações da data especial são similares às das telinhas. A sensação de exclusividade transparece nos parques, onde o público encontra tradições sazonais únicas, atrações personalizadas e personagens clássicos trajados com figurinos inéditos — como o casal Mickey e Minnie —, além da raridade de encontrar vilões que raramente aparecem no restante do ano.

Do ponto de vista do planejamento publicitário, esse movimento é sustentado pelo gatilho da escassez, no qual a oferta por tempo limitado concentra a atenção do consumidor e gera picos de engajamento social.

Memória

“É muito importante chamar a atenção do público, porque fica guardado na nossa memória”, explica Francisco. Para ele, as vinhetas, as chamadas e os elementos da identidade visual de uma emissora carregam um valor afetivo, construído ao longo do tempo e da relação estabelecida com os espectadores. O jornalista estabelece um paralelo entre a programação especial do Monstober, com músicas e referências visuais, e a vinheta de fim de ano da TV Globo. “A musiquinha que toca na chamada de fim de ano da Globo é a mesma, e você já tem aquele valor sentimental”, indica. Basta ouvir os primeiros acordes para que o público reconheça e associe a melodia a um período específico do ano, acompanhado de lembranças e sentimentos próprios dessa época. O Monstober funciona da mesma forma. 

Isso pode ser percebido, atualmente, nas redes sociais. Adolescentes e adultos que viveram a época do Monstober compartilham em suas contas fotos e vídeos saudosistas, lembrando da programação de maneira nostálgica. 

No Tiktok, por exemplo, os usuários reviveram o hit Calling All the Monsters, criado para um episódio especial de Halloween do Programa de Talentos (A.N.T Farm, 2011). Eles postam vídeos com a música de fundo, e legendas como “É oficialmente Monstober”, “Crianças nunca saberão quão bom era o Monstober” e “Saudades de assistir o Monstober no Disney Channel”. 

*Imagem da capa: Reprodução/X/@Disney

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