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Prêmio Nobel 2026 | Laureados de Economia dão reconhecimento às decisões familiares para lidar com crises econômicas

Pesquisadores apresentaram modelos de base para estabilização dos altos e baixos da economia ao analisar impactos das decisões do micro ao macro
Desenho de braços segurando o símbolo de uma frquência
Por Lara Oliveira (la.oliveira@usp.br) e Sara da Franca (saradafranca@usp.br)

Na segunda-feira (12), os pesquisadores norte-americanos Robert E. Hall e Michael Woodford receberam o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas pela Academia Real Sueca de Ciências. Os laureados foram reconhecidos pelas suas contribuições nos estudos dos fundamentos da microeconomia para a estabilização da macroeconomia, com trabalhos que já estão em uso mundialmente. A cerimônia de entrega dos prêmios acontecerá no dia 10 de dezembro, na sede da organização em Estocolmo.

O impacto das famílias e dos negócios

Hall e Woodford desenvolveram reformulações para modelos econômicos que bancos e governos, que formam a macroeconomia, podem adotar para revitalizar a estabilização econômica. Em vez de se basear tradicionalmente em variações de inflação, produção e consumo, as propostas consideram a importância das decisões familiares, de empresas e dos consumidores comuns para as bases do funcionamento global da economia através das escolhas econômicas diárias, como o dinheiro que vai para poupança ou o que leva a escolha de um produto no mercado.

“As autoridades não deveriam encarar a estabilização da economia como uma tarefa em que basta acionar alavancas para controlar a atividade econômica, sem considerar como as pessoas entendem essas medidas”

Michael Woodford, em entrevista após o anúncio dos vencedores da premiação

Os acadêmicos reconhecem que decisões familiares são os indicadores para as suas expectativas sobre o futuro econômico. Em seus estudos, Hall ajudou a mostrar que, ao depender do que esses núcleos esperam, pode haver estímulo de gastos em situações favoráveis ou queda do consumo quando há redução na renda, levando em conta os diferentes planejamentos de gastos e os acessos desiguais ao crédito. No modelo, mudanças na taxa de juros, por exemplo, devem considerar o que famílias e empresas esperam das decisões de bancos centrais e dos governos, que pode levar a possíveis altas nos preços de insumos cotidianos.

Ilustração de gráfico sobre decisões econômicas.
As decisões que impactam a economia global são influenciadas pelas expectativas de futuro dos núcleos familiares e das empresas 
[Imagem: Johan Jarnestad/ The Royal Swedish Academy of Sciences]

Os pesquisadores defendem essa ideia para demonstrar como o consumo é determinado e reforçam a influência de uma comunicação mais explícita com a sociedade sobre a política monetária em auxiliar na orientação popular sobre o assunto. Woodford nota a importância das declarações oficiais sobre a trajetória da taxa de juros à época da crise financeira global no fim dos anos 2000. 

“Fazer declarações mais explícitas sobre a trajetória futura provável da política de taxas de juros, em vez de depender simplesmente da capacidade de reduzir ainda mais as taxas de juros imediatamente, foi uma parte importante da resposta política a partir de 2009” 

Michael Woodford,  em entrevista após o anúncio dos vencedores da premiação

Quem são os laureados?

Robert Ernest Hall nasceu em Palo Alto, em 1943, e graduou-se na Universidade da Califórnia em economia. É doutor pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e professor emérito da Universidade de Stanford. Também atua como pesquisador da Hoover Institution, centro público de pesquisa localizado no campus. 

Ao longo de sua carreira acadêmica, analisou dois lados da equação econômica: a lógica das empresas e dos consumidores. Um de seus trabalhos mais relevantes, publicado em 1978, examina como as famílias americanas conciliavam suas expectativas de renda com o consumo, segundo a chamada hipótese da renda permanente. Hall constatou que antecipar os rendimentos futuros utilizando dados prévios não fará com que os gastos familiares se alterem. Por isso, o modelo sugere que a previsão de mudanças no consumo seja feita a partir de seus níveis atuais. 

O economista também apontou que a disponibilidade de empregos varia de acordo com os ciclos econômicos. Em períodos de recessão, as empresas costumam diminuir o número de vagas, em razão dos altos custos e da demora para concluir uma contratação, o que retarda o retorno financeiro esperado.

Hall ocupou cargos de destaque no National Bureau of Economic Research, onde participou de pesquisas sobre flutuações econômicas e a economia estadunidense durante quatro décadas, e presidiu a Associação Americana de Economia em 2010. 

Michael Dean Woodford nasceu em 1955, em Chicopee. Formou-se na Universidade de Chicago, estudou direito na Universidade de Yale e concluiu o doutorado em economia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Atualmente, é professor da Universidade de Columbia. 

As pesquisas de Woodford sobre as dinâmicas de juros, inflação e políticas monetárias contribuíram para o desenvolvimento de uma teoria que questiona valores do tradicional Keynesianismo (apelidada de novo-keynesiana). Ela incorpora microfundamentos – como as decisões cotidianas dos consumidores – ao estudo da macroeconomia e considera que os salários não se ajustam imediatamente a mudanças no cenário econômico. 

Em seu livro Interest and Prices, o economista explica como a taxa de juros pode ser usada para atingir maior estabilidade de preços. A obra também analisa a importância das expectativas econômicas e enfatiza que, ao comunicá-las ao público, o governo permite um planejamento antecipado das decisões de consumo individuais. 

Antes do Nobel, Woodford havia sido homenageado pelo Prêmio Deutsche Bank de Economia Financeira, em 2007, e pelo Prêmio Nemmers de Economia em 2024.

Desenho de dois homens de óculos
Retratos de Robert Hall e Michael Woodford, respectivamente. 
[Imagem: Niklas Elmehed/ Nobel Prize Outreach] 

É um Nobel original?

A premiação tem o nome oficial de Prêmio do Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, pois a Economia não faz parte dos temas citados no testamento do empresário que ordenou a criação do Prêmio Nobel às áreas de Física, Química, Medicina, Literatura e Paz — com a primeira entrega realizada em 1901. As Ciências Econômicas foram instituídas entre as láureas em 1968 pelo Sveriges Riksbank (Banco Nacional da Suécia), que paga a Fundação Nobel para que os vencedores do prêmio sejam anunciados na mesma cerimônia oficial.

A escolha dos laureados também é feita pela Real Academia Sueca de Ciências, como os homenageados em Física e Química, porém o financiamento do prêmio vem do Banco Central, e não dos fundos deixados na herança de Alfred Nobel. Os ganhadores deste ano recebem o valor de 12 milhões de coroas suecas  (cerca de 1,2 milhão de dólares), divididos igualmente entre os dois.

*Imagem de capa: [Johan Jarnestad/The Royal Swedish Academy of Sciences]

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