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Mulheres fortes e guerreiras em ‘A Mulher Rei’

AS MULHERES AGOJIE SÃO RETRATADAS NO NOVO FILME DE ANGELA DAVIS

CINÉFILOS
13 out 2022 | Por Julia Ayumi Takeashi (julia.takeashi@usp.br)

A Mulher Rei (The Woman King, 2022) é o primeiro filme produzido por Viola Davis, atriz negra e afrodescendente conhecida pela série How To Get Away With Murder (2014-2020). O filme recebeu críticas de perspectivas diferentes, desde humanizar as mulheres guerreiras, que foram inspirações para as Dora Milaje do filme Pantera Negra (Black Panther, 2018), a realizar transformações ideológicas em cima da história verdadeira das Agojie.

Ainda que venha com algumas marcas da cinematografia hollywoodiana, o filme trilha um caminho diferente dos filmes tradicionais ao colocar várias mulheres negras como protagonistas.

As Agojie foram inspiração para as Dora Milaje, as guardiãs de Wakanda em Pantera Negra [Imagem: Reprodução/Marvel Studios]


A história das Agojie e da Mulher Rei

O filme é baseado na história real das mulheres guerreiras do reino de Daomé, situado na atual Benim, conhecidas como Agojie — ou Ahosi, Mino, Minon e até Amazonas (como eram conhecidas pelos europeus e comparadas com as mulheres do mito grego). Esse reino foi criado no século XVII e foi extinto em 1904 pela colonização francesa.

As Agojie compunham um exército unicamente por mulheres que defendiam o Reino de Daomé [Foto: Reprodução/Wikimedia Commons]

A partir de documentos históricos, entende-se que o reino teve seu auge na década de 1840 quando contava com um exército de 6 mil guerreiras — elas compunham cerca de um terço de toda força militar do reino de Daomé. Conhecidas pela sua bravura, as Agojie invadiam aldeias, faziam prisioneiros e decepavam as cabeças dos seus oponentes vencidos como troféus de guerra.

As Amazonas de Daomé [Créditos: Frederick Forbes, 1851/Wikimedia Commons]

No filme, Angela Davis atua como Nanisca, uma figura fictícia para representar a general das Agojie na década de 1820. Em plena fase de recrutamento, Nanisca ajuda seu rei Guezo (John Boyega), personagem real que acabou de ascender ao trono, que quer ampliar o território e os recursos de seu reino.

A única mulher rei em cerca de 200 anos da existência de Daomé foi a Ahangbé, também referenciada como Tassi Hangbé na literatura francesa. Ahangbé era irmã gêmea de Akaba, quarto governante daomeano que governou entre 1685 a 1708. Após a morte repentina de seu irmão, acometido pela varíola, ela teve de assumir integralmente o poder, governando sozinha durante alguns meses.

Ainda que tenha participado e obtido vitória na guerra contra os Ouéménou (do rei Yahassé Kpolou), seu nome foi apagado da linhagem real após a ascensão de seu irmão mais novo, Agajá, pela indignação dos ministros e conselheiros da corte que não admitiam a ideia de uma mulher ocupar o assento real.

Até hoje, Ahangbé é celebrada anualmente por mulheres, lembrada presidida por sacerdotisas que a encarnam, que são entronizadas e enterradas ritualmente como rainhas. Em Benim, inaugurou-se uma estátua para indicar a grande importância das Agojie na história do país.

Estátua homenageia as Amazonas de Daomé [Foto: Presidência de Benim]


#BoicottTheWomanKing (Boicote à A Mulher Rei)

Surpreendentemente, o filme não foi tão aclamado quanto Pantera Negra. Após o lançamento do trailer, houve muitas expectativas sobre o filme que se trata de uma história real. Ainda antes de lançar o filme, circulou a hashtag #BoicottTheWomanKing (Boicote à A Mulher Rei) protestando contra o filme, alegando que a história foi distorcida e que houve uma transformação ideológica sobre as Agojie e o comércio de escravos.

Em resposta, inúmeros espectadores defenderam Viola Davis e o filme, afirmando que há uma parcela inevitavelmente ficcional e que a ideia do filme é válida para o mundo atual, ainda mais vendo a repercussão positiva de Pantera Negra e de outros filmes que tratam diretamente da comunidade negra.  

“Entramos na história onde o reino estava em fluxo, em uma encruzilhada. Eles estavam procurando uma maneira de manter sua civilização e reino vivos. Não foi até o final de 1800 que eles foram dizimados. A maior parte da história é ficcional. Tem que ser.” afirma Davis em uma entrevista à Variety.

Julius Tennon, marido de Davis e co-produtor, também comentou sobre as críticas: “Agora somos o que chamamos de ‘edu-entretenimento’. É história, mas temos que tirar licença. Temos que entreter as pessoas. Se contássemos apenas uma lição de história, o que muito bem poderíamos ter, isso seria um documentário. Infelizmente, as pessoas não estariam nos cinemas fazendo a mesma coisa que vimos neste fim de semana. Não queríamos fugir da verdade. A história é enorme e há verdades sobre isso que estão lá. Se as pessoas querem aprender mais, podem investigar mais.”


Críticas técnicas

Apesar das críticas em relação à fidelidade do filme, é perceptível que a produção e o roteiro buscaram ser cuidadosos com os elementos visuais. A filmagem, parcela feita na África do Sul, com figurinos inspirados nas reais vestimentas retratadas das Agojie são fatores a serem considerados pelos espectadores.

A produção usa elementos inspirados nas vestimentas reais das Agojie [Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Tecnicamente, há inúmeras críticas possíveis sobre a execução do filme: além de ser filmado fora de Benim, houveram poucos atores beninenses para interpretar a população de Daomé. O toque hollywoodiano também é evidente no cenário fantástico comparado com a realidade da população na época — para os críticos, a sauna com piscina dentro do palácio foi demais para a representação do reino de Daomé.

A atuação de Viola Davis como Nanisca deixou a desejar para alguns dos críticos, por ser uma dualidade de rigidez e vulnerabilidade sem transições explícitas, como se fossem explosivas.

É possível enxergar que, apesar dessa possível “falha de atuação”, pode ter sido proposital que Davis tenha tentado retratar a frieza imposta nas Agojie, pois se sacrificam pelo povo e pelo seu rei e precisam estar na linha de frente para defender seu reino — no filme, Nanisca menciona que é preciso matar as suas lágrimas para lutar.

Viola Davis interpreta Nanisca, a general que mata suas lágrimas para liderar as Agojie [Imagem: Divulgação/Sony Pictures]

A Mulher Rei humanizando as mulheres

Viola Davis é uma mulher conhecida na indústria do cinema e buscou utilizar seu reconhecimento para colocar as mãos na massa e produzir um filme com um tema complexo. A questão dos negros, da colonização, da escravidão e dos povos africanos é um tema caro e não deve ser simplificado à moda hollywoodiana.

Apesar desses tópicos, a intenção de Davis prevalece sobre as críticas técnicas ao filme: a humanização das mulheres negras da África, que eram vistas como objetos e praticamente foram excluídas por serem “inúteis” para casar e procriar.

“Muitas delas foram decapitadas. Ou se tornavam Agojies que não podiam fazer sexo, não podiam se casar, não podiam ter filhos. Essas eram as duas opções”, disse Davis na coletiva de imprensa de A Mulher Rei.

Apesar do sentimento de exclusão social, as Agojie são acolhidas em uma nova família de mulheres guerreiras [Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Não é um filme que é perfeito na sua forma, mas a intenção de se desvencilhar do olhar hollywoodiano (com protagonistas brancos, colocando os negros como segundo plano e falando sobre temas superficiais com cenários exagerados) é compreensível e, o mais importante, firma o poder das vozes pretas nas diversas áreas da arte.

A Mulher Rei é uma obra que, assim como na vez de Pantera Negra, colocou em potencial outros futuros filmes que tratarão sobre negros e suas histórias de uma forma cada vez mais profunda e digna.

O filme já está em cartaz nos cinemas. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Divulgação/Sony Pictures

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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