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América Latina desponta como precursora da pesquisa em biodiversidade

Relatório publicado pela Editora Elsevier registra crescimento significativo na produção científica global sobre diversidade biológica
Por Amanda Nascimento (amanda_nascimento@usp.br

A América Latina é três vezes mais ativa em pesquisa sobre biodiversidade do que a média global. É esse o dado do relatório da Editora Elsevier, publicado na última semana (15), intitulado “Biodiversity Research in 2024: A global perspective with a focus on Latin America”

O levantamento consta que a América Latina é responsável por 11% dos artigos científicos sobre o tema, com o Brasil (43.5%) e o México (14.5%) como os principais contribuintes. Além disso, a Universidade de São Paulo (USP) lidera o ranking de instituições latinas que mais pesquisam sobre biodiversidade. 

No cenário de colaborações com a LATAM, os Estados Unidos dominam com 21% das parcerias, seguidos pelo Reino Unido com 20%. Em contrapartida, a China, apesar de ser um dos líderes em pesquisa, representa apenas 6%. O artigo aponta a falta de colaboração entre o Sul Global — regiões em desenvolvimento como o continente africano e asiático.

Sobre a pesquisa

Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas da América Latina na Elsevier, em entrevista ao Laboratório, explica que a pesquisa se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, parte da Agenda 2030. As metas abrangem questões como energia limpa, educação, igualdade de gênero e meio ambiente, abordados pela editora em estudos anteriores.

Gráfico com 17 ícones coloridos representando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, que ajudam a preservar a biodiversidade na América Latina
A Agenda 2030 é um documento de metas globais rumo ao desenvolvimento sustentável, assinada em 2015 por 193 países.
[Imagem: Reprodução/ Nações Unidas]

O termo biodiversidade engloba a variedade de seres vivos e ecossistemas presentes no Planeta Terra, o que inclui microrganismos, plantas, animais, florestas, desertos, rios, mares e oceanos. O estudo analisa os artigos globais sobre o tema a fim de compreender o contexto das produções.

No total, foram verificados 137.000 mil estudos, publicados entre 2019 e 2023 no periódico da Elsevier, Scopus. As regiões de maior criação são os Estados Unidos (27 mil) e a China (24 mil). O bloco europeu totaliza 49 mil publicações, ao passo que a América Latina conta com 21 mil, a África com 10 mil e a Austrália, 9 mil.  

O que mais chama atenção nesses dados, no entanto, são as diferenças no contexto dessas regiões. O relatório enfatiza que, enquanto a produção europeia e americana é pautada em uma longa história de conservação e pesquisa biodiversa, as circunstâncias globais são mais complexas. 

Nos países asiáticos, por exemplo, a rápida urbanização e ascensão econômica têm levantado preocupações quanto à perda de biodiversidade. Já na África, lar de diversos ecossistemas, iniciativas acadêmicas são prejudicadas por recursos e infraestrutura limitados. Os estudos na América Latina são produzidos em meio a problemas como desmatamento e comércio ilegal de animais selvagens.

Metodologia

Uma das principais ferramentas utilizadas no relatório foi o Field-weighted citation impact (FWCI), ou o Impacto Médio de Citações. Trata-se de comparar o número de citações recebidas por um artigo com o número esperado da mesma área temática. 

Assim, o FWCI calcula a média de citações que uma pesquisa, nesse caso sobre biodiversidade, recebe em comparação com outras em seu campo disciplinar. O índice é padronizado em torno do valor 1. Se o FWCI for superior a 1, isso indica que a obra foi citada mais do que a média global, enquanto um valor inferior indica que as citações estão abaixo da média.

“Quanto mais ela tiver sido citada, mais útil”

Dante Cid

Outro fator apurado foram as colaborações internacionais. Essas parcerias são essenciais não apenas para enriquecer o conhecimento científico, mas também para aumentar a visibilidade dessas produções. Dados indicam que as principais cooperações são entre regiões como África, Ásia, Austrália e Oriente Médio, áreas que abrigam uma rica diversidade biológica.

Dunas de areia onduladas sob um céu nebuloso em uma vasta paisagem desértica
África (68%), Austrália/Ásia (67%) e Oriente Médio (64%) estão bem acima da média global de cooperação (36%).
[Imagem: Nicolas Rénac/Flickr]

Mas Dante Cid esclarece que essas informações não podem ser analisadas de forma isolada. Por exemplo, países com uma população menor de pesquisadores têm uma necessidade maior de buscar parceiros internacionais para colaborar. Isso não necessariamente indica qualidade, mas Cid comenta que “ele será lido por mais pessoas no mundo inteiro, o que aumenta muito a sua chance de ser citado por outros”. 

Financiamento: o motor da pesquisa

Aproximadamente 50% dos artigos considerados pelo relatório possuem ao menos uma entidade financiadora. A maioria deles vêm da China, da Europa, dos Estados Unidos e do Brasil. Nesse último, as bolsas CNPQ, CAPES e FAPESP são destaque, respectivamente. 

Não por coincidência, esses são os países que mais produzem pesquisas. O representante da Elsevier traz o exemplo da China para a discussão: “a ascensão do país, no final dos anos 90, teve a ver com investir na ciência e esperar o retorno”. Hoje, o gigante asiático compete diretamente com os Estados Unidos em termos de produção.

Pessoa lançando uma rede de pesca em um rio ao pôr do sol com montanhas ao fundo
O crescimento científico no Leste Asiático nos últimos 30 anos vem majoritariamente da China.
[Imagem: Rod Waddington/Flickr]

A Elsevier também examinou o impacto dessas obras nas políticas globais. A conclusão foi que 10% das publicações sobre biodiversidade foram usadas em documentos políticos, média bem maior do que a geral para outros eixos. O dado é constante em todas as partes do globo, com a União Europeia e os EUA por trás da maioria desses documentos, bem como Organizações Intergovernamentais como as Nações Unidas, OMS, UNESCO e a UNICEF.

“Isto é fato: quanto mais você investe, maior é o incentivo para pesquisa”

Dante Cid

Berço da biodiversidade

A América Latina é um dos polos de maior diversidade biológica no planeta. Suas florestas tropicais, rica pluralidade de espécies e extensos rios são essenciais para a preservação dos ecossistemas globais. No entanto, a região enfrenta sérios desafios de degradação ambiental.

O relatório mostra como a comunidade acadêmica responde ao problema. Desde 2021, temas como “Áreas de Proteção”, “Desmatamento“, “Recursos Naturais” e “Mudanças Climáticas” ganharam destaque quando comparados aos números da década anterior. Para Cid, os eventos climáticos extremos são os responsáveis pelo aumento: “isso tudo trouxe uma urgência maior do que nunca de se pesquisar causas e efeitos dessa mudança”. 

Os dados também indicam um aumento no engajamento em pesquisas na Amazônia, que abriga a maior concentração de biodiversidade do mundo e se estende entre oito países da América do Sul. Embora o Brasil lidere em publicações científicas, nações como México, Colômbia, Peru, Equador, Argentina e Panamá têm ampliado sua contribuição.

Pôr do sol com nuvens dispersas sobre silhuetas de árvores e vegetação, com brilho quente no horizonte, para representar a biodiversidade na América Latina
A Amazônia cobre cerca de 40% da América do Sul.
[Imagem Lubasi/Flickr]

Em ordem, as principais instituições latino-americanas que contribuem para a produção são: 

  1. Universidade de São Paulo (USP);
  2. Universidad Nacional Autónoma de México;
  3. Universidade Estadual Paulista (UNESP);
  4. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);
  5. Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 

A chave para preservar a vida

A produção acerca da biodiversidade apresenta um crescimento contínuo de alta qualidade. Juntando-se a Europa, China e EUA, a América Latina cementa sua posição de destaque no cenário global como uma das líderes da pesquisa científica. 

Para Dante Cid, o próximo passo é ouvir as soluções da comunidade acadêmica para contornar os desafios contemporâneos. “Precisamos demonstrar que a ciência é um instrumento fundamental para enfrentar o que temos pela frente, essa é a mensagem”.

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