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Aos amores e saudades, ‘Boa Sorte’
Escuta Aí
03 jul 2020 | Por Maria Luísa Bassan (marialuisaobassan@gmail.com)

Teago Oliveira, de raízes baianas e atual morador da selva de pedra paulistana, lançou no dia 17 de setembro, pela Deckdisc, o seu primeiro álbum solo, Boa Sorte (2019). Paralelo à banda Maglore, da qual é vocalista, guitarrista e compositor, o projeto traz um lado mais introspectivo e pessoal do artista.

O álbum constrói uma paisagem visual e sonora que remete às saudades, sejam elas de pessoas, lugares ou sentimentos. O tom poético e reflexivo dos versos é acompanhado principalmente pelo violão e violino, com uma produção sem grandes elaborações e camadas. Teago expõe fragilidades que fazem parte da vida de muitas pessoas, como um amor antigo, a terra natal e a infância.

A MPB é forte influência de Teago, ao citar artistas como Gilberto Gil e fazer referências a outros grandes ídolos de sua geração. Em Boa Sorte, o gingado de Jorge Ben Jor é lembrado; Superstição traz o “tempo, tempo, tempo” de Caetano Veloso; Corações Em Fúria (Meu Querido Belchior) single do álbum – é uma homenagem ao cantor cearense, que faleceu em 2017, com a memória dos versos “Ano passado ele morreu/Mas esse ano vai brilhar”. 

Ainda assim, Boa Sorte não soa fora de seu tempo. Tal como Maglore integra bem o cenário do rock alternativo e nova MPB, Teago representa mais um vocalista que traz os dilemas pessoais a projetos solos, como é visto em Recomeçar (2017), de Tim Bernardes, vocalista da banda O Terno. Teago inclusive celebra esse apoio e espaço comum ao citar um verso de Helio Flanders, amigo e vocalista da banda Vanguart, na faixa Corações Em Fúria (Meu Amigo Blechior): “E um cantor amigo meu/Disse que se tiver que ser na bala vai”.

Teago Oliveira apresentou Boa Sorte em sua cidade natal, Salvador [Foto: Rafael Flores/Revista Gambiarra]

Teago Oliveira apresentou Boa Sorte em sua cidade natal, Salvador [Foto: Rafael Flores/Revista Gambiarra]

A vulnerabilidade de Teago convida o ouvinte a costurar suas próprias vivências aos versos simples e sentimentais do cantor. Não é preciso ter vivido na Bahia para sentir saudades de casa; muitos tiveram um amor que foi embora, mas deixou lembranças boas; todo mundo luta para perdoar e ser perdoado, inclusive por si mesmo. Mesmo que não sejam trazidas respostas, o sentimento que fica é o de não estar sozinho.

Em algumas faixas, a melancolia dá vez à celebração da brasilidade. Essas destoam da narrativa do álbum, mas não deixam de representar individualmente o trabalho autoral do cantor, bem como suas influências.

O álbum evoca a necessidade de gente – amores e amigos – em um mundo cada vez mais caótico e complexo, com laços que muitas vezes não ultrapassam a superficialidade. A poesia do compositor possui um sutil tom político, que vai desde a declaração sobre a mudança dos tempos no single Corações Em Fúria (Meu Amigo Belchior) até o cenário fantasioso de Últimas Notícias.

Seja na figura de ídolos da geração como Belchior e Caetano, ou de amores anônimos (românticos ou não) que marcaram sua história, retomar aquilo que importa mostra-se um exercício necessário diante da bagunça que Teago enxerga no mundo e que reflete dentro de si. Além da busca por dias melhores, é preciso uma pitada de sorte para seguir lutando.

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